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Edição 730
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Parchal

Restaurante O Buque

A vida tem destas coisas. Devo ter passado literalmente milhares de vezes aqui à porta, adiando sempre a visita para outro dia.
Edição 712 (19 Jan 2012), Sem Comentários »

Calhou esta semana, depois de ter circulado pelas ruas de Portimão, e ter visto o quão doente está esta cidade. Logo ao atravessar da ponte, este restaurante de aspecto convidativo surge como um oásis.

O sol brilha, o rio Arade corre pelo belo estuário, as gaivotas voam e a Serra de Monchique ao fundo formam um cenário demasiado bonito para tantos problemas. A casa soma mais de três décadas.

Quando entro, ainda não sei disso. Sei apenas que há arroz de pato, bacalhau à brás, carapaus na brasa e frango assado para o almoço, por €7.50 a refeição completa. As mesas ainda têm coloridas toalhas de pano à boa maneira antiga. A sala é acolhedora, e a luz entra pelas janelas rente à estrada. Por cima, há prateleiras com vinhos antigos de colecção.

A garrafa mais antiga é um «Montes Claros» de 1954. Por cima da minha cabeça está uma do mesmo rótulo, mas da colheita de 1972. Foi o fundador do restaurante, o senhor Joaquim Mourinho (sim, primo do famoso treinador de futebol) entretanto falecido, que iniciou esta garrafeira. Entretanto chega o meu prato de bacalhau, feito como se tivesse sido preparado em casa.

E cada pedaço de pão caseiro lembra-me porque gosto tanto desta terra sofredora. E pela janela vejo passar dezenas e dezenas de carros alemães vindos de uma acção promocional da marca. É como se uma grande comitiva governamental tivesse vindo visitar o Parchal. Não.

É apenas a Europa a duas velocidades que me passa ao lado. Entretanto, o meu anfitrião diz a um casal de idosos na mesa vizinha que quando veio de Coimbra para o Algarve, em 1972, a Caramujeira produzia um vinho doce, delicioso. Outros tempos. E vendo a minha curiosidade, apresentam-me Vasco Belbute, 48 anos, filho do dono original desta casa.

Actualmente, Belbute dedica-se às feiras de velharias do Algarve, e conta-me histórias para além da imaginação. Sabia, caro leitor, que as chaves ferrugentas das portas interiores da torre de Piza estiveram à venda algures numa feira algarvia por €250? Hoje estão num museu em Itália e valem uma fortuna (um antiquário de Sevilha reconheceu a relíquia)!

Contou-me este homem que guarda uma grande colecção de garrafas antigas – algumas herdadas do pai - bronzes e antiguidades. Uma confissão: Vasco Belbute esteve mesmo para transformar o sítio onde nos sentamos frente-a-frente numa loja de bric-à-brac. Ainda bem que não o fez. Precisamos de manter alguma coisa boa viva. Nem que seja, a esperança…

Especialidades: grelhados no carvão, pratos tradicionais; Conta: €7,50; Gerência: Ana Clipei; NIF 237 752 638.

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