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Jill Stott
Carta ao director

Ao volante esta manhã, pus-me a pensar na psicologia de estar dentro de um espaço em movimento, dirigindo um potencial míssil. Por que é que tais sentimentos surgem tão facilmente?
Penso que a ideia da Maria João Martins sobre o ensino da condução enquanto um processo colectivo é inspiradora. E até de importância crucial.
É provável que a maneira como qualquer actividade nos é introduzida, influencie a forma de a exercer para o resto da nossa vida, sobretudo se a introdução acontecer enquanto ainda somos adolescentes.
Ontem, quando caminhava em Loulé, apercebi-me de uma mulher que vinha na mesma direcção que eu. Tentámos não chocar uma com a outra, mas ao fazê-lo acabamos por avançar na mesma direcção duas vezes, fazendo a clássica dança do espelho, algo que acho cómico. Sorri e fui ao encontro do seu olhar, mas estava vazio. A impaciência apoderou-se de mim. Eu estava no caminho dela, pronto. Fiquei com uma opinião negativa dela.
Porém, ao volante, eu sou tal como aquela mulher. Um carro lento está no meu caminho e porque é um obstáculo anónimo, um um sentimento de impaciência invade-me. O outro condutor é um ignorante. Um emplastro, a bloquear-me. Tenho pouco controlo sobre o desprezo que sinto pelo outro, embora me esforce para controlar o veneno. Será que é porque fui ensinada a ver “perigos” em vez de “companheiros de viagem”? Talvez sejam estas e outras condicionantes que reduzem os indivíduos a meras ameaças, consumidores, estereótipos, etc.
Então, tenho tentado pensar realisticamente sobre as dificuldades diárias da vida dos outros na estrada. Considere estas opções da próxima vez que tiver um “obstáculo” à sua frente. Talvez ele tenha acabado de tirar a carta; talvez seja um idoso inseguro do caminho a seguir; talvez o carro esteja em final de vida útil; talvez desconheça a estrada; talvez esteja interessado no que está à sua volta; ou então, talvez esteja cansado e por isso, mais cauteloso; talvez esteja mergulhado em pensamentos imaginativos/preocupações/conversas; talvez alguém lhe tenha ligado para o telemóvel à coisa de 2 segundos; e, mais importante ainda, talvez não esteja com pressa.
Mas será que eu posso acreditar neles? Há sempre esta ideia desejável de que o condutor à nossa frente é um ignorante, um egoísta obcecado em si mesmo, que realmente acredita que não há mais ninguém na estrada senão ele próprio. Depois, podemos ceder ao desejo de nos indignarmos – sem qualquer culpa.
Ahhhhh, enfim.
Cumprimentos,
Jill Stott








