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Gastão Silva, projecto «ruin'arte»

Pelas ruínas de Portugal

Em 2008, o fotógrafo de publicidade Gastão de Brito e Silva, 46 anos, criou o projecto «Ruin’Arte». É uma forma de chamar a atenção à degradação do património arquitectónico de todo o Portugal, que considera serem “pedaços de história perdidos”, “almas penadas do nosso passado”.
Bruno Filipe Pires, Edição 714 ( 2 Fev 2012), Sem Comentários »

«Ruin'Arte» é "o lado romântico que cada ruína transporta... é uma história mal acabada, arquitectura desleixada, cultura mal amada, património incompreendido, paisagens sem sentido. São ruínas industriais, urbanas, clericais, palacianas, rurais, humanas" segundo o autor normalmente descreve.

Gastão de Brito e Silva, procura desta forma denunciar e catalogar alguns exemplos dramáticos, que testemunham a falta de atenção que o património arquitectónico tem sido alvo ao longo de várias gerações.

Não pretende com este trabalho ofender susceptibilidades, porque a culpa já vem de várias gerações. Na sua opinião, a falta de atenção para com o património é um comportamento que é apanágio da nossa nação e que pretende ajudar a reverter com esta iniciativa.

"Gostaria através do Ruin’Arte, de sensibilizar a sociedade para a causa da reabilitação. Se tivermos em conta que a Europa já se reabilitou de duas guerras mundiais e em Portugal ainda há feridas do terramoto de 1755, verificamos que nesta área há um atraso de mais de 250 anos", diz.

A arquitectura é o retrato sócio económico e cultural de um País, não só na qualidade de construção, como também o estado de conservação.

"É revoltante ver como este País tem sido vandalizado ao longo de várias gerações, tanto pelos políticos, como pelos particulares... apenas interessa o lucro fácil e sinais de novoriquismo, sempre foi assim.", acrescenta.

Desde que iniciou este trabalho, já somou mais de 700 ruínas fotografadas um pouco por todo o país, o que é uma pequena parcela desta demanda, uma vez que segundo uma estatística recente há cerca de um milhão de ruínas espalhadas pelo território.

As suas imagens são um retrato malfadado de um País abandonado, a linha gráfica seguida neste projecto, procura enfatizar a decrepitude e o protagonismo de cada edifício, através dos contrastes criados pela cor e preto e branco.

Pela sua objectiva passam coisas como velhas fábricas fechadas, antigos palacetes e solares deixados ao abandono, de estruturas rurais decadentes.

Gastão de Brito e Silva diz ter um particular gosto pela “arte nova” e também lhe interessa “quantidade incrível de mosteiros” que jazem pelo país, como o de Monchique onde esteve recentemente.

A sua atenção também passa por coisas mais modestas, como casas de pastores, moinhos, construções militares e outros tipos de “testemunhos da nossa história” igualmente deixados ao deus-dará.

“Não tenho dúvidas que se todo este património tivesse sido recuperado, seriamos um país muito mais rico. Como é possível que com a nossa costa, todas as fábricas ligada ao mar estejam fechadas? Como é possível que haja centenas de quintas rurais que não produzem nada?”, questiona-se.

Por considerar que a perda do património é irreversível, Gastão de Brito e Silva enviou uma carta aberta a vários ministros do ex-governo de José Sócrates, ao Presidente da República e a vários autarcas. O texto sugere várias soluções que poderiam ser postas em prática, “tal como já acontece noutros países”. Apenas um, o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, respondeu a “agradecer as minhas ideias originais”.

Apesar de actualmente, por motivos profissionais e financeiros estar “confinado ao meu código postal”, este fotógrafo quer continuar a registar o que resta. Durante a nossa conversa, referiu um exemplo algarvio: a vivenda Vitória, uma magnífica velha casa que decai lentamente à saída de Olhão.

A tecnologia dá uma ajuda. Quando vai a alguma terra em particular, Gastão de Brito e Silva consulta o Google Earth “à procura de casas sem telhado”. Se calhar é melhor seguirmos o seu exemplo, antes que as ruínas desapareçam de vez…

http://ruinarte.blogspot.com/

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