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Edição 730
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Sapatos com histórias

Se esta crise tem servido para alguma coisa de jeito, pode dizer-se, que ao menos tem agitado a solidariedade social como nunca se viu na história contemporânea de Portugal. Hoje, há campanhas para todos os gostos e para todas as causas – e ainda bem que temos diversidade.
Bruno Filipe Pires, Edição 706 ( 1 Dez 2011), Sem Comentários »

Mas melhor ainda é que cada vez há mais empresas que fazem da solidariedade uma bandeira. Há até algumas que são extraordinariamente pragmáticas.

De Lisboa, chega-nos o exemplo da «Bota Minuto» - um grupo de lojas de reparações de calçado que lançou uma campanha para recolher sapatos usados. Existe uma loja filiada em Tavira, no centro comercial «Gran Plaza».

A ideia surgiu porque “inúmeros clientes deixavam cá o calçado e não o vinham buscar, mesmo em sistema de pré-pagamento. Ocorreu-nos encaminhá-los para instituições de solidariedade social”, explicou Duarte Ramos, um dos responsáveis, à agência Lusa.

Pode parecer estranho, mas a verdade é que apesar de pagarem o serviço adiantado, muitas pessoas acabam mesmo por nunca mais reclamarem as botas, botins, saltos altos e afins que mandam reparar. É o pesadelo de qualquer gestor! Apesar de não especificar quantos foram “esquecidos” pelos donos, e quantos foram voluntariamente entregues, vítimas do desuso, o responsável contabiliza que “em 2010 a campanha conseguiu angariar 9000 pares de sapatos, e no ano anterior 6000”.

Ou seja, há crescimento - o que em economia é o melhor dos indicadores. E será que existe algum critério no abandono? Suor dos pés acumulado, por exemplo?

A campanha de recolha, que se faz desde 2008, coincide com o período pós-Natal, uma altura em que “os armários se enchem de produtos novos e se esvaziam do que já não é usado”.

Bem, tenho uma amiga que, uma vez, jogou os sapatos todos que tinha, mas foi porque teve um ataque de bolor no roupeiro da casa nova. Não foi o pós-Natal, mas o empreiteiro que a enganou…

De qualquer das formas, esta ideia é brilhante. Poderia ser estendida a outros ramos - por exemplo, lavandarias com itens esquecidos há mais de 5 anos e que ainda não foram comidos pelas traças ou passaram de moda (neste caso, talvez o Museu do Trajo de São Brás de Alportel tenha interesse), empresas que reparam computadores, ou televisores, enfim, todo o bem que tenha possibilidade de ser depositado e esquecido.

Se for dinheiro no banco, a lei recorda que o Estado não se importa de ficar com ele, naturalmente. Lembro-me da última experiência que tive do género, com a minha velha televisão Grundig que comprei em 1996. Morreu há uns meses atrás. Oxalá tivesse ido para a solidariedade antes, mas penso que o senhor que a reparou ainda a conseguiu vender a alguém por uns solidários €68…

Ah, este ano a campanha promete responder a algumas destas questões existencialistas ou acrescentar mais filosofia barata. Sob o mote “Sapatos com história”, quem faz uma doação é convidado a deixar andar a história do seu par de sapatos nas redes sociais. Há um enigmático ditado chinês que diz - “Eu que me queixava de não ter sapatos, encontrei um homem que não tinha pés”...

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