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Sorrisos e espinhas de peixe

Mas o facto é que até as versões mais atrevidas, que dispensam o fato de banho (embora o nudismo nunca tivesse sido muito bem visto na região), estão a desaparecer. É pena. Quem recebia um destes postais na caixa do correio, ficava logo a imaginar umas férias de sonho num paraíso erótico de sol, praia e maminhas…
Mas há quem ainda preserve esta tradição. Em Faro, encontrámos uma montra com uma dessas belas e libidinosas imagens. Uma modelo de olhar sensual e misterioso, e piercing sexy no umbigo, emerge de águas transparentes. Por debaixo, surge apenas uma palavra: «Allgarve».
Olhando com mais atenção, a modelo tem atrás de si o que parecem ser montanhas cobertas de uma densa floresta tropical. Hum...Não interessa.
Uma das razões que levou à obsolência do velho postal do Algarve tem a ver com as novas tecnologias. Para quê comprar selos, escrever mensagens à mão e enviar imagens de desconhecidas semi-nuas aos amigos, se tudo isso e muito mais pode ser feito na Internet?
Um dos especialistas que está a estudar a banalização da fotografia digital e as suas consequências na história da civilização contemporânea, é o nosso consultor, o sociólogo Dr. Manfred Bolos.
A sua recém-publicada tese de doutoramento, “Temas fotográficos partilhados na Internet – facetas da humanidade moderna retratada por si própria”, revela um fenómeno caricato.
Segundo esta investigação altamente científica, um dos temas fotográficos mais partilhados nas redes sociais são os convívios – sobretudo festas de confraternização à mesa.
“A ideia é registar e partilhar um momento feliz. Mas na prática, o resultado é frequentemente desastroso”, explicou-nos o Dr. Manfred Bolos, que passou os últimos dois anos a analisar milhares de fotografias deprimentes de jantares de grupo e festas de aniversário.
Um exemplo vulgar: em frente a um sorriso que se quer guardar para a eternidade, está, muitas vezes, um belo prato cheio de espinhas de peixe. Um brinde de amigos é decorado por ossos de frango ou qualquer outro resto de refeição de aspecto medonho.
“Guardanapos sujos, cinzeiros cheios de beatas, copos com impressões digitais de gordura, garrafas entornadas, toalhas cheias de nódoas, palitos usados, côdeas e migalhas de pão, são adereços bastante comuns em muitas das fotos que se partilham por essa rede fora”, sublinha o sociólogo, que também fez um mestrado em avifauna do deserto da Mongólia.
O que a tese do Dr. Bolos veio a demonstrar não é bonito. Mas o mais tenebroso, o mais arrepiante, o mais medonho de tudo isto é praticamente que todos nós temos ou aparecemos em imagens destas, postais virtuais da era tecnológica. Ah, para partilhar!








