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Os filhos da crise

Quem olhar com atenção às recentes notícias de agressões violentas e facadas entre adolescentes menores, repara que há algo em comum nestas tristes histórias. Partilham como pano de fundo um ambiente cinzento e desumanizado.
Bruno Filipe Pires, Edição 680 ( 2 Jun 2011), Sem Comentários »

Nas reportagens televisivas, aparecem testemunhas, que sem o saberem, o que testemunham é a decadência cívica e social em que temos vindo a mergulhar. Nós, os nossos jovens, e até as crianças.

No âmbito do Dia Internacional da Criança (1 de Junho), o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social encomendou um estudo ao Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa que revela a condição infantil no Portugal de hoje.

Os resultados estimam que duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza – ou seja, um assustador total estimado em 40% desta população.

Para chegarem a esta conclusão, os investigadores analisaram e cruzaram diferentes dados estatísticos, relativos ao período que vai de 2004 a 2009.

Um exemplo da realidade nacional: 23% das crianças portuguesas vivem em alojamentos sobrelotados e 5% estão integradas num agregado familiar que não faz uma refeição de carne ou peixe, pelo menos de dois em dois dias.

Uma em cada quatro crianças não tem actividades extracurriculares por falta de dinheiro dos progenitores, enquanto quatro por cento não come fruta nem legumes diariamente.

Há grupos de crianças para quem os últimos anos foram particularmente pesados. Por exemplo: se em 2004, 39,7% estavam inseridas em famílias onde ninguém trabalhava, esta percentagem subiu para 45,3% em 2009.

Em palavras claras de incerteza, o estudo refere que “o momento presente deixa-nos algumas interrogações adicionais. Os recentes cortes nos apoios sociais não permitem antever um futuro promissor para estas crianças…”

Para a equipa que realizou este trabalho, a pobreza infantil tem “uma gravidade acrescida relativamente aos restantes estratos da população”, porque as suas consequências fazem-se sentir “no curto, no médio e longo prazos”.

No curto, “por via das privações diárias a que as crianças estão sujeitas”, no médio e longo prazo “através do grau de escolaridade/qualificação profissional, da inserção no mercado de trabalho, da capacidade de participação e intervenção social” que terão quando crescerem.

No futuro, como será o país com este legado?

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