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Depois da tempestade

O espectáculo começa (e prolonga-se) em português por longos minutos. Questiono-me se terá sido uma boa opção abrir as primeiras cenas com um idioma estrangeiro nesta plateia? Prevejo testas franzidas e bocejos…
Engano. Entre sussurros percebo, com alguma surpresa, que o público pode até não perceber o idioma, mas também não presta grande atenção ao painel das legendas. Não precisa. Em frases furtivas, as pessoas comentam as personagens pelos seus nomes, sabem o que se passa no palco. Conhecem o texto e há até quem o tenha lido previamente.
Lembro-me então do Algarve. Quem é que com mais de 50 anos de idade conhece as peças de Shakespeare, ou vai regularmente ao teatro? E como seria possível, no país dos cortes na cultura, manter vivo e a funcionar um teatro de reportório como este, onde trabalham mais de 300 pessoas, entre actores, músicos e equipa técnica? Onde se fazem 23 produções por ano (uma a cada 15 dias)?
Passam quase duas horas. No mesmo palco falou-se português, o inglês original do texto, e alemão. Tinham-me dito que Trier, com as suas vinhas e adegas, é uma cidade conservadora. O imperador romano Constantino, o Grande, andou por aqui e um filho da terra famoso dá pelo nome de Karl Marx.
Que reacção esperar deste povo? Longe de casa, e com uma peça invulgar, a ACTA recebeu uma entusiástica e longa salva de palmas. Conquistou o coração de Trier, com uma história da humanidade e uma actuação humanista.
Mais tarde um dos actores alemães do elenco perguntou-me se na minha opinião, eu achava que as pessoas no Algarve também iriam gostar? A resposta fica adiada para Junho. Mas para já, pode ficar o orgulho no trabalho deste colectivo e o desejo que continue a surpreender e a evoluir, aqui e no resto da Europa!







