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Depois da tempestade

São 19h15 de Sábado, 12 de Fevereiro de 2011, em Trier. Chego mesmo em cima da hora ao meu lugar na segunda fila. Os 600 lugares do teatro da mais antiga cidade da Alemanha estão praticamente todos ocupados. O público é maduro. Na noite anterior tinha havido ópera, mas isso não parece ter causado prejuízo à estreia de «Der Sturm – A Tempestade».
Bruno Filipe Pires, Edição 666 (24 Fev 2011), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

O espectáculo começa (e prolonga-se) em português por longos minutos. Questiono-me se terá sido uma boa opção abrir as primeiras cenas com um idioma estrangeiro nesta plateia? Prevejo testas franzidas e bocejos…

Engano. Entre sussurros percebo, com alguma surpresa, que o público pode até não perceber o idioma, mas também não presta grande atenção ao painel das legendas. Não precisa. Em frases furtivas, as pessoas comentam as personagens pelos seus nomes, sabem o que se passa no palco. Conhecem o texto e há até quem o tenha lido previamente.

Lembro-me então do Algarve. Quem é que com mais de 50 anos de idade conhece as peças de Shakespeare, ou vai regularmente ao teatro? E como seria possível, no país dos cortes na cultura, manter vivo e a funcionar um teatro de reportório como este, onde trabalham mais de 300 pessoas, entre actores, músicos e equipa técnica? Onde se fazem 23 produções por ano (uma a cada 15 dias)?

Passam quase duas horas. No mesmo palco falou-se português, o inglês original do texto, e alemão. Tinham-me dito que Trier, com as suas vinhas e adegas, é uma cidade conservadora. O imperador romano Constantino, o Grande, andou por aqui e um filho da terra famoso dá pelo nome de Karl Marx.

Que reacção esperar deste povo? Longe de casa, e com uma peça invulgar, a ACTA recebeu uma entusiástica e longa salva de palmas. Conquistou o coração de Trier, com uma história da humanidade e uma actuação humanista.

Mais tarde um dos actores alemães do elenco perguntou-me se na minha opinião, eu achava que as pessoas no Algarve também iriam gostar? A resposta fica adiada para Junho. Mas para já, pode ficar o orgulho no trabalho deste colectivo e o desejo que continue a surpreender e a evoluir, aqui e no resto da Europa!

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