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Arqueologia subaquática no Algarve

Mergulhar na história

É um Indiana Jones com garrafas de oxigénio! A arqueologia náutica é uma ciência ainda nova. Na verdade, só começou realmente em finais da década de 1960. A 3º geração de arqueólogos mergulhadores já vai nos seus 30 anos, e continua a lutar com o mesmo entusiasmo e a ter excelentes pulmões. Tiago Fraga, 32, é um deles. É o único arqueólogo náutico no Algarve. Actualmente, está a trabalhar num excitante projecto de investigação, que envolve também os seus mentores, entre outros membros da equipa. Estão, literalmente, a (re)criar a história a partir do subsolo marinho de Lagos, cidade conhecida como berço dos descobrimentos portugueses. Apoiados integralmente pela Câmara Municipal de Lagos, este é já o terceiro ano deste projecto que espera reavivar a história para todos – a cidade, a região, o resto do país e os seus visitantes permanentes. A ideia é localizar navios naufragados ao longo da costa, “reconstrui-los” virtualmente e tentar descobrir como funcionavam. “Os navios eram (e ainda são) das máquinas mais complexas e sofisticadas construídas pelos homens de cada geração”, escreve Filipe Vieira e Castro, um dos especialistas por detrás do projecto, no livro «Contos Inacabados: A história submersa de Lagos», editado pela Câmara Municipal de Lagos. O vivalgarve foi conhecer este “indiana jones subaquático” depois da sua última aventura nas profundidades da Baía de Lagos.
Natasha Donn, 31 Dez 2008 01:00, Sem Comentários »

vivalgarve: Porquê Lagos?

Tiago Fraga: É o melhor sítio na Europa! Desde os tempos pré-clássicos, a única forma de comunicação do Norte da Europa com o Mediterrâneo era através do Algarve. Este é o berço das Descobertas – e esta baía é a melhor do Algarve. Qualquer navio que necessitasse de se abastecer de água e mantimentos fá-lo-ia aqui. Duma maneira geral, é um local bastante seguro, mas pode ser traiçoeiro quando o vento é de sul – daí o número de navios naufragados que tentamos localizar.

Lê-se no livro que localizaram 77 locais subaquáticos, e que este ano vão concentrar-se em cinco? O que pretendem descobrir?

Bem, há três principais navios que seria muito importante encontrar. Um é uma embarcação da época dos Descobrimentos; o segundo é uma embarcação árabe; e o terceiro aquilo a que se chama navio romano do Atlântico. Creio que temos pelo menos dois nestes locais. Ainda hoje, descobrimos ainda mais informações graças a um equipamento especial cedido gratuitamente pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa. O objectivo é descobrir como é que tudo funcionava nestes barcos.

As pessoas não percebem que como disse George Bass, pai da arqueologia náutica, “os pescadores já existiam muito antes dos agricultores”… Eles construíram estas máquinas incríveis que são muito resistentes. Os navios foram responsáveis por tudo no passado: pelo progresso, pela disseminação de ideias – e, porém, nós não sabemos, por exemplo, como funcionava o barco de Cristóvão Colombo… nunca descobrimos uma verdadeira caravela, por exemplo. Mas isso é algo que eu quero encontrar!

…A equipa de Tiago Fraga inclui os mergulhadores Alan Wilson e Christiana Kelkel, do centro de mergulho “Waterworld”, bem como Felizardo Pinto, da “Open Waters”. A próxima missão será investigar mais a fundo estes locais no Novo Ano. Quase todos estes locais estão profundamente enterrados na areia. “Algo que é bom!”, explica o arqueólogo. “Um navio que esteja enterrado, dura centenas de anos”. A taxa de decadência é de cerca de 1 polegada por século.

Mas ao localizarem um navio, têm que desenterrá-lo?

Sim, com um aspirador gigante! Mas geralmente não trazemos os achados à superfície – a menos que possamos garantir a sua conservação – o que não é fácil. O maior problema neste tipo de arqueologia é que as pessoas têm tendência a fazer o que não fariam em terra…gostam de levar souvenirs! Quando os mergulhadores encontram vestígios de um navio, as coisas podem complicar-se. Depois temos que trazê-lo para a superfície. Mas se pudermos, deixamo-lo ficar onde está... para os mergulhadores e para a sua reconstrução virtual.

…Enquanto Fraga e a sua equipa estão a planear o programa para 2009, o município de Lagos prepara-se para inaugurar oficialmente o Centro de Ciências Vivas – um espaço que reúne um vasto leque de informações sobre a herança náutica desta área. O professor Adolfo Silveira, director do CIDMar (Centro de Investigação e Desenvolvimento do Mar) e associado da Universidade Autónoma de Lisboa, está particularmente contente com os resultados.

“Tem sido um ano incrível,” contou-nos enquanto o seu aluno, Tiago Fraga fazia subir o último rol de investigações no local. “Temos tido tanta sorte com a Câmara de Lagos, que não está apenas a financiar este projecto, mas também a financiar estágios de pós-graduação aqui no Verão. Os estudantes terão tantos benefícios. Isto é absolutamente maravilhoso. O Tiago não teria feito todo este trabalho sem o apoio da Câmara, e de todas as instituições locais que também o ajudaram.

“Sempre estive envolvido nesta ciência através da universidade. Sinto-me fascinado pela tecnologia, que é vital para esta ciência. Estudantes como o Tiago vão concretizar tudo aquilo em que estivemos a trabalhar nos últimos 20 anos. Eles são o fututo.”

Mas o futuro também passa pelo envolvimento do município de Lagos, o que é “praticamente único em Portugal”, segundo o prefácio de «Contos Inacabados», de Filipe Vieira Castro, um dos mentores de Tiago Fraga, a trabalhar na Universidade Texas A & M (onde Fraga fez o seu mestrado).

“Na última década, o poder central em Portugal limitou-se a implementar uma política reactiva, sem direcção definida, e não se dignou a explicar à sociedade civil por que é que tenta parar obras, nem para onde vão os artefactos encontrados...Esta atitude... não ajuda a promover nem a divulgar a importância histórica e cultural deste ou daquele sítio. Assim, é hoje difícil para a maioria das autarquias ribeirinhas sensibilizar as populações e os promotores imobiliários para não falar dos empreiteiros de dragagens, para a importância dos achados fortuitos e dos trabalhos de arqueologia subaquática.

Este projecto é assim um exemplo formidável de uma política esclarecida, pró-activa e responsável, que vai promover a Câmara Municipal de Lagos com instrumentos de gestão preciosos. Mas também é um exemplo prático e público do que as autarquias podem fazer, e neste sentido, um exemplo susceptível de ser repetido por outras autarquias.” O vivalgarve espera poder trazer mais desenvolvimentos sobre arqueologia subaquática em Lagos.

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