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Maria João Martins estudou a problemática

Acidente? …A culpa é do outro!

Excesso de velocidade, infracções, falta de civismo. Vale tudo nas estradas portuguesas. E se lhe dissermos que muitos condutores portugueses têm a tendência para não se culpabilizarem pelos acidentes que causam? Esta é uma das conclusões do estudo «Nunca tive um comportamento de risco mas já andei na auto-estrada com a minha mota a 290 – Acidentes rodoviários: culpa e comportamento preventivo». No âmbito de uma tese de mestrado em «Risco, trauma e sociedade» pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), Maria João Martins entrevistou 19 condutores envolvidos em acidentes que provocaram 29 vítimas, entre as quais três mortos e 13 feridos graves. A enfermeira e investigadora concluiu ainda que a ausência de um sentimento de culpa bloqueia a mudança de comportamentos.
Bruno Filipe Pires, Edição 624 (29 Abr 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

Maria João Martins, 42 anos, é enfermeira com 21 anos de experiência a lidar com vítimas de acidentes de viação. Trabalha no Hospital Ortopédico Sant'Iago do Outão, Setúbal, local onde acabam muitos dos politraumatizados do país. Em visita familiar ao Algarve, arranjou tempo para nos falar da sua investigação.

Algarve 123: Como surge a vontade de estudar a culpa sentida?

Maria João Martins:Era um interesse meu, que surgiu da minha experiência. Comecei a questionar-me, sobre aquelas pessoas que me apareciam à frente, a sentirem-se culpadas e aparentemente destruídas pelo sentimento de terem causado dano ou provocado morte, o que iriam fazer a partir daí? Seria apenas um sentimento de culpa do momento, provocado pelo impacto, pelo momento violento, pela situação inesperada? Ou efectivamente isso mudaria alguma coisa nas suas vidas? Portanto, quis saber se o facto de uma pessoa ter estado envolvida num acidente a faria meditar e de alguma forma, mudar os seus comportamentos.

Que concluiu?

Não posso generalizar. Mas naquele universo de 19 pessoas que estudei, conclui, infelizmente, que o sentimento de culpa, apesar de surgir e de ser muito intenso na altura do acidente, suaviza-se e dissipa-se com o tempo. E não sugere, de modo algum, que haja uma mudança efectiva de comportamentos.

Como chegou a essa conclusão?

O estudo teve dois momentos. Pedi aos voluntários que preenchessem um questionário, onde descrevessem o acidente e as causas. Na primeira leitura dos resultados, a esmagadora maioria atribuiu a responsabilidade ao outro (à pessoa do outro veículo). E também a factores externos como o estado da estrada, ou do tempo. Depois, entrevistei cada um dos participantes do estudo. Quando foram confrontados com as questões específicas para aferir o sentimento de culpa, deram respostas negativas. Por outro lado, quando se pergunta se já infringiram, dizem que sim, porque acham que é seguro. Quando se lhes pergunta se identificam em si próprios características ou traços de personalidade que sejam facilitadores de acidentes – ser impulsivo, ser distraído – muitos reconhecem que sim. Mas dizem que não mudariam, porque não querem mudar, porque gostam de si como são.

Mesmo que isso represente perigo?

O problema é exactamente esse. As pessoas, na sua grande maioria, não relacionam o perigo e o acidente com os comportamentos que adoptam. Portanto, não estabelecem um nexo de causalidade entre aquilo que fazem e aquilo que são, com os acontecimentos em que se vêem envolvidos.

Por outro lado, ninguém gosta de admitir que é mau ao volante?

Repare, o acto de conduzir neste momento é um acto tão vulgar e tão banal, que é socialmente quase impossível não conduzir. Se um indivíduo não conduz é porque é burro, ou porque tem um problema, mas é sempre por uma razão qualquer estranha. Sempre estranha. O normal, é um indivíduo aos 18 anos de idade pedir a carta de condução aos pais. Conduzir é tido como um acto básico, o que é a primeira premissa para não se considerar o que ele efectivamente é – um acto altamente complexo.

Tirar a carta de condução é suficiente?

Acho que se erra quando se dá uma formação em condução que remete o indivíduo para uma relação entre ele, o controlo do veículo e o cumprimento de uma série de sinais de trânsito e de normas rodoviárias. A condução deve ser explicada do ponto de vista de um acto colectivo. Falta definitivamente uma componente cívica. Era fundamental ensinar a condução como um acto que tem consequências para o outro. Nós não conduzimos num deserto. Nem numa área onde não está mais nada nem mais ninguém. Conduzimos em espaços onde existem outras pessoas, outros veículos, um conjunto de condições climáticas, onde existem as nossas preocupações e limitações.

Por outro lado, existe sempre a ideia que a “culpa” é sempre do outro…

O outro é o estranho, e por isso, o adversário. Imagine dois indivíduos que vão cada um no seu veículo. Num cruzamento, um deles entende que o outro fez qualquer coisa que não devia. Apita, insulta, gesticula. Se porventura, pararem o carro e descobrirem que se conhecem, aquilo é automaticamente relativizado. Se não se conhecerem, o outro é um inimigo. É um adversário. E isto é o que diz o professor Manuel João Ramos, que estamos em “guerra civil” na estrada.

Qual é o conflito para a “guerra civil” na estrada? É individual?

Sim. As pessoas sentem-se invadidas no seu ego. Sentem-se invadidas naquele objecto de culto que é o automóvel. Sentem-se ofendidas no seu desempenho, na sua performance, e na sua auto-imagem de perfeitos e exemplares condutores. É portanto, a perspectiva de muitas pessoas, e eu encontro isso muito. Repare, é muito significativo que em 19 pessoas, só 2 me falaram em condução defensiva.

Que entende por condução defensiva?

A palavra-chave passa pela previsibilidade dos acontecimentos. É a capacidade de antever e acautelar. Mas isso é uma capacidade que se aprende. No entanto, toda a sociedade diz que a cilindrada do carro, o design do carro, a potência do carro é que são factores de pujança social, de status, de superioridade. E releva-se para segundo ou terceiro plano, o ambiente e os outros que nos circundam.

Que vê na estrada?

Vejo aberrações todos os dias.

Há 17 atropelamentos por dia em Portugal. Acha que o peão não conta?

O peão tem que ter importância. Primeiro porque é uma pessoa e isso é inquestionável. Segundo, porque sejamos condutores, tenhamos um veículo, dez ou vinte, invariavelmente nalgum momento somos todos peões. Ninguém nasce dentro do automóvel, senão aqueles que vão a caminho do hospital para o parto. Nós aprendemos primeiro a andar. Isto é uma característica básica, física, biológica do ser humano. É peão por natureza. Condutor, será ou não.

Com base na sua experiência profissional, a segurança rodoviária existe?

Enquanto conceito, enquanto conjunto de estratégias preventivas, existe. É um conceito. Agora, se me quer perguntar se o ambiente rodoviário é seguro, na minha perspectiva, não é.

Que mensagem gostaria de deixar?

O que acho é que a condução tem que passar a ser ensinada como algo que não é um acto de pilotagem. Há uma diferença. Um piloto é ele, a estrada e a máquina. Um condutor não é um piloto. Por outro lado, acho que diminuindo a perspectiva individualista da condução, talvez se conseguisse alguma coisa. Defendo, por exemplo que a mesma infracção tenha sanções diferentes, conforme o condutor vai sozinho ou vai acompanhado. Todos os carros de 2, 4 e 5 lugares são transportes colectivos. E tecnicamente, o condutor é responsável pela segurança de quem transporta. Se você souber que se ultrapassar um traço contínuo sozinho tem uma sanção, se levar por exemplo passageiros tem outra, e se levar menores, tem outra exponencialmente mais grave, então – ou começa a andar sozinho - ou se levar a família vai pensar melhor no que anda a fazer na estrada.

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Diariamente, “cruzamo-nos com indivíduos que beberam, que se divorciaram, que perderam o emprego, que vêm a pensar que deviam ter estado onde não estiveram. Cruzamo-nos com pessoas que têm o que possamos imaginar dentro da cabeça. E esquecemo-nos disso. Vamos para a rua, pegamos no carro e pensamos – se não me distrair, até paro na passadeira. Se alguém me atravessar à frente, travo, insulto, digo palavrões. E esquecemo-nos que o acto de conduzir é altamente complexo.”, considera.

Mais que do campo da sociologia, o estudo reverte para o foro da psicologia. Maria João Martins explica - “há várias definições para o sentimento da auto-culpabilização. Optei por utilizar a de Greenberg, que define a culpa como um sentimento negativo que surge por não se poder dar cumprimento às normas. Do ponto de vista da psicologia, noutros países são poucos os estudos sobre a auto-culpabilização. Em Portugal, não existem. A culpa continua a ser um tema tabu.”

“Temos uma outra palavra que não usamos com o mesmo peso ou com a mesma frequência. É o pecado. É uma coisa que temos na nossa mentalidade, cultura e moral, e que tem séculos de introdução na nossa norma, que é - agiste mal, cometeste um erro, pecaste! Hoje, já não se usa essa formulação verbal. Mas é essa a génese da culpa. Há uma semelhança muito grande na forma como as pessoas falam da culpa, na forma como se tenta resolver a culpa. E a forma como se tenta, digamos, remediar o erro causado. É preciso que um indivíduo assuma que errou, que agiu erradamente. E isso, os psicólogos dizem que nós nos protegemos de fazer”, explica.

O estudo envolveu 19 indivíduos que sofreram acidentes de viação, a maioria (17) eram condutores, mas nem todos foram responsáveis pelo acidente. Por outro lado, “não podemos tirar conclusões acerca de toda a população portuguesa. O estudo é qualitativo e o grupo de participantes é relativamente pequeno. No entanto, os resultados encontrados são espelhados na minha experiência profissional”, diz.

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