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Natividade Gomes Augusto
Amor à Aviação

Tem uma carreira longa na área da navegação aérea. Como é que iniciou esse percurso profissional?
Tenho cerca de 20 anos de aviação, mais propriamente em aeroportos e navegação aérea. Entrei para os aeroportos em 1990 e em 1998 fui convidada a integrar os quadros da navegação aérea já que as duas áreas se iam separar, através da cisão da ANA, EP.
As minhas funções sempre foram desempenhadas nas áreas não operacionais, áreas de apoio necessárias ao exercício destas actividades. E sempre tive uma necessidade grande em perceber as áreas operacionais que se encontravam em meu redor, por isso comecei a observar os meus colegas operacionais e a registar tudo o que via e ouvia. É desta forma que surge o livro «História da Aviação e do Controlo de Tráfego Aéreo»
O seu livro fala da história da aviação e do controlo de tráfego aéreo? São duas coisas indissociáveis?
Posso dizer que os conceitos são indissociáveis quando a direcção relacional entre eles começa no controlo de tráfego aéreo em direcção à aviação, o inverso já não se verifica. Quero dizer que quando existe uma inovação e desenvolvimento no controlo de tráfego aéreo, a aviação tendencialmente também evolui; mas quando a aviação evoluiu não quer dizer que seja devido a este player. A Aviação é constituída por uma multiplicidade de players, sendo eles: os fabricantes de aeronaves, as companhias aéreas, os aeroportos, prestadores de serviço de navegação aérea onde se encontra o serviço de controlo de tráfego aéreo, manutenção de aeronaves, formação de pessoal aeronáutico, serviço de assistência em escala, e como não podia deixar de ser uma entidade reguladora, que no caso português é o INAC - Instituto Nacional de Aviação Civil. A história da aviação é feita pela evolução de um ou vários players.
A quem se destina esta obra – a profissionais ou a todo um público interessado?
Esta obra destina-se a Portugal e aos portugueses, particularmente os amantes da história do nosso pais, e mais especificamente aos apaixonados pela história de Portugal na aviação. Tem também outra faceta, por ser um livro técnico ligado a aviação, qualquer profissional e principalmente os estudantes de ciências aeronáuticas terão interesse nesta obra, inclusivamente algumas faculdades já adoptaram este livro nas suas referências bibliográficas. Este livro, aborda temas técnicos fazendo sempre uma retrospectiva histórica nacional e internacional.
Portugal acompanhou os outros países, ou houve algumas excepções (por exemplo, devido a ser uma nação neutral durante a guerra, etc)?
Portugal tem vindo a acompanhar os outros países, sendo até nalgumas épocas uma referência a nível internacional, basta nos lembrarmos por exemplo das proezas do meu conterrâneo – o aviador Sacadura Cabral. O sector da Aviação é extremamente exigente, encontra-se em evolução continua. Portugal é membro de várias organizações internacional ligadas a aviação, sendo a mais importante a Organização da Aviação Civil Internacional – OACI, nascida da convenção de Chicago. Esta convenção incide sobre diversas matérias da aviação civil, contempla 18 anexos com normas e praticas recomendáveis, que a grande maioria dos países cumpre, para que todos se entendam num espaço globalizado.
Considero também que a Aviação em Portugal, por ser um sector de ponta, tem recursos humanos muito qualificados e especializados. As habilitações e qualificações do tecido humano têm um papel fulcral para acompanhar a concorrência permanente. Este esforço é feito até pelo próprio Governo, por investir em mais cursos superiores no sector da aviação civil.
No ar, a relação piloto/ controlador de tráfego aéreo nem sempre é consensual. Qual é a sua experiência?
As companhias aéreas onde operam os pilotos e o controlo de tráfego aéreo fazem parte do puzzle da aviação, como já referi. Este puzzle tem que bater certo, ou seja, tem que encaixar porque faz parte de um sistema com regras muito bem definidas, todos os players sabem onde começam e acabam as suas funções e com que regras as exercem. A relação entre o piloto e o controlador tem que encaixar, e nenhum destes profissionais tem a ousadia de sequer pensar no contrário, porque sabem que têm a segurança da sociedade nas suas mãos. Tenho a referir que estes profissionais são treinados para incorporarem uma cultura de segurança forte desde o início da actividade e no decurso do exercício das suas funções. Felizmente, que em Portugal nunca houve erros humanos muito graves. Neste sector, os portugueses são considerados profissionais de excelência.
São escassos os livros sobre aviação editados em português e de autores portugueses no mercado livreiro. O seu é uma obra pioneira. Ainda assim, o seu é uma edição de autor. Porquê?
Dediquei 4 anos para escrever e publicar esta obra, uma vez que não havia referências bibliográficas tive que investir muito tempo em observação e entrevistas. Por isso considerei que tinha que ter o retorno em termos económicos e em termos sociais. As duas editoras interessadas no livro não me davam nem uma coisa nem outra, a percentagem de retorno era muitíssimo pequena e a obra não iria ser trabalhada em termos de divulgação como eu pretendia. O meu primeiro objectivo com a divulgação desta obra é dar a conhecer a aviação, mostrar à sociedade como uma aeronave circula no ar de forma segura e proporcionar a todos os passageiros a vivência da viagem e a percepção de como em termos técnicos essa viagem se concretiza. Só a minha equipa, supervisionada por mim poderia atingir este objectivo. Embora tenha atingido o retorno social, o retorno económico não o atingi, porque decidir apresentar uma obra com boa qualidade, amiga do ambiente, e por isso ultrapassou de longe os custos que tinha previsto.
Um dos debates da actualidade em Portugal é a construção de um novo e grande aeroporto para a capital. Na sua opinião, e à luz do que aprendeu na sua pesquisa, o futuro passará pela construção de mais aeroportos ou na racionalização de voos e infra-estruturas?
Quando se planeia um aeroporto, esse planeamento é realizado em função das suas capacidades: lado ar e o lado terra. Quando as capacidades do aeroporto estiverem a chegar ao fim, existem três hipóteses possíveis a considerar:
A primeira é aumentar a capacidade do aeroporto existente, se existir espaço para isso. Actualmente, com o Terminal 2, o aeroporto da Portela foi alvo deste fenómeno, mas o espaço terrestre não cresce. Mesmo que haja possibilidade de expansão do lado ar com optimização dos serviços do lado terra, se não houver expansão do lado terra, ao fim de uns anos a morte do aeroporto acontece.
A segunda é construir um aeroporto complementar. Esta hipótese embora com algumas vantagens também acarreta problemas tanto para os passageiros como para as companhias. Os passageiros evitam destinos que tenham a chegada num aeroporto e a partida no outro, ou pior, quando esse destino serve de escala vendo-se obrigados a fazer o transbordo para conseguirem prosseguir viagem. Desta forma, as companhias aéreas são altamente prejudicadas, vendo-se obrigadas também a duplicar os seus meios para conseguirem garantir a operação nos dois aeroportos, como é o caso da companhia aérea British Airways em relação aos aeroportos Gatwick e Heathrow. Temos um exemplo de insucesso de um aeroporto complementar, é o caso do aeroporto de Mirabel no Canada, que foi construído para complementar o aeroporto de Dorval. Em termos de capacidades o aeroporto de Mirabel é excelente, mas os técnicos erraram por não considerarem a construção numa perspectiva global, ou seja, se efectivamente o criaram como aeroporto complementar a distancia de 50 km é muito elevada, se o criaram como aeroporto principal teriam que fechar o aeroporto de Dorval. Actualmente este ultimo está a crescer atabalhoadamente.
Com isto não quero dizer que a opção dos aeroportos complementares é uma péssima opção, embora existem sempre formas de combater a estagnação do aeroporto complementar, em termos de gestão aeroportuária. Uma das medidas poderá ser aumentar as taxas do aeroporto saturado, o que vai obrigar a que as companhias voem para o aeroporto complementar. Entre outras, a forma de gestão de slotes (faixas horárias) poderá ser uma outra medida.
Em relação a construir um aeroporto novo. Existe, entre outras, uma regra fundamental: a construção de um novo aeroporto tem que ter a possibilidade de ser realizada por módulos, de modo faseado, para que o retorno do investimento seja facilitado. Temos, como exemplo de insucesso, o aeroporto de Atenas que foi construído todo de uma vez, com um investimento brutal e que actualmente não consegui realizar o retorno económico já que a procura ainda o não justificou.
Uma vez que nos próximos anos a expansão do actual aeroporto da Portela em termos de capacidades se encontra completamente limitado, tanto do lado terra como do lado ar, correspondendo ao estagnamento do país em termos económicos – sociais, há necessidade de se pensar num novo aeroporto. Pelas experiências vividas nos outros países, não sou de opinião que se deva manter os dois aeroportos. Restamos a opção da construção de um novo aeroporto, embora o custo dele tenha que ser muito bem pensado, mas de forma rápida, porque o custo de indecisões ou decisões tardias podem custar aos portugueses uma fortuna.
O seu livro tem tido reacções de colegas?
As reacções têm sido boas.
Diz-se uma apaixonada pela aviação. O que alimenta esse amor?
A Aviação é uma das minhas três paixões: as pessoas, a segurança e a aviação. O meu único amor é as Pessoas e todos os fenómenos que estejam perto delas. A Aviação foi uma paixão construída, não gostei dela desde o início, aprendi a gostar dela porque estava e continuo a estar inserida 8h por dia nesse ambiente. A minha grande paixão é a Segurança, foi amor à primeira vista, sendo os meus próximos trabalhos literários ligados às pessoas e à segurança.
Para terminar, já que o seu trabalho envolveu cambem muitas pessoas, que aprendeu no final?
Aprendi a conhecer melhor o ambiente profissional e social que me rodeia e por esse motivo sinto uma maior facilidade de integração nesse ambiente.
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«História da Aviação e do Controlo de Tráfego Aéreo» é um trabalho ligado à história, sendo de cariz informativo numa perspectiva técnica e social, que teve como impulso numa primeira fase a caracterização do campo empírico de observação, parte integrante da tese de licenciatura da autora.
Numa segunda fase, porém, foram surgindo novas ideias e sugestões, curiosidades sobre este mundo tão complexo, vasto e tão difícil de caracterizar, as quais tornaram possível o aprofundamento de alguns dos temas e o acrescento de outros novos e, em suma, a concretização de um novo trabalho.
Embora Natividade Gomes Augusto seja trabalhadora da NAV Portugal (ex-trabalhadora da ANA) e por isso tenha alguma facilidade de escrever sobre este tema, necessitou tecnicamente da colaboração de várias pessoas e entidades.
Este auxílio na realização deste trabalho e na sua validação técnica constitui um contributo tão valioso que o torna um trabalho de equipa de que a autora se orgulha.
Natividade Gomes Augusto
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1950-266 Lisboa








