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Naturismo no Algarve

Ao natural é melhor!

Certamente já ouviu falar em Naturismo. No fundo, é uma filosofia simples – viver livre de vestuário e de preconceitos, em harmonia com o meio ambiente e em paz com os outros. O respeito, o convívio saudável e familiar são regras fundamentais entre os praticantes. Em Espanha, o turismo naturista gera milhares de euros em receitas. No Algarve, este nicho de mercado, apesar da procura, tem vindo a ser praticamente ignorado por empresários e entidades oficiais do Algarve. Quem o diz é Álvaro Campos, dirigente do Clube Naturista do Algarve (CNA) que desde há 6 anos tem vindo a desmistificar a nudez. Num Verão em que a crise atinge fortemente a hotelaria tradicional, a solução para o sector pode passar por simplesmente deixar os hóspedes despirem-se à vontade…
Bruno Filipe Pires, Edição 587 ( 6 Ago 2009), Sem Comentários »

O naturismo já esteve na moda, mas ainda hoje leva muita gente a despir-se. “Já se imaginou no chuveiro de calções? Fica melhor sem eles, não é verdade? Então, é essa a motivação para o naturismo. A nudez é a coisa mais natural do mundo. Proporciona um contacto directo com a natureza e um grande bem-estar”, confronta-nos Maria Emília, sócia do Clube Naturista do Algarve (CNA).

Em conversa com o nosso jornal, Álvaro Campos, naturista desde 1978 e presidente do CNA, diz que não existe um perfil definido para o naturista. É praticado por pessoas de todos as classes sociais, profissionais e etárias. “Num encontro naturista não há ricos, não há pobres, não há doutores nem engenheiros. Os corpos são todos iguais. Uns mais gordos, outros mais magros, outros altos, não tem problema”, diz.

Contudo, reconhece que, na sua essência o naturista é um indivíduo com uma consciência ambiental e até social. Preza o contacto com o meio ambiente, mas também a vida associativa e em comunidade. Em princípio, o naturista interessa-se pela vida cívica e participativa.

“Infelizmente, o associativismo tem vindo a desaparecer em Portugal. Tem-se instalado a cultura do individualismo”, considera.

“Hoje, penso que há muita gente a praticar naturismo, mas por iniciativa pessoal e de forma anónima”, diz. Porquê? Preconceitos?

“Não é bem isso. Acho que muitas pessoas têm receio de aderir às associações naturistas porque receiam ver o seu nome publicado nalguma lista de sócios e depois terem que sofrer consequências negativas nas suas vidas pessoais e profissionais”, diz.

“E temos constatado que mesmo dentro do meio, uma boa percentagem de praticantes tem problemas em assumir. Mas isso é uma tendência do país. Em Portugal, as pessoas têm muita dificuldade em assumir aquilo que são”.

Por outro lado, este facto também torna difícil contabilizar quantos naturistas há em Portugal. Citando o jornalista e escritor Pedro Laranjeira, também ele próprio um naturista, e que se tem debruçado sobre o assunto, estima-se que haja cerca de 100 000 pessoas a despir-se – entre nudistas e naturistas.

Outro facto curioso é que o Clube Naturista do Algarve ainda não tem sede física. “Fizemos algumas tentativas junto das autarquias de Aljezur, Lagos e mais recentemente Portimão para que nos cedessem uma das antigas escolas primárias entretanto desactivadas. Até agora não conseguimos”.

Ainda assim, o sítio do CNA na Internet soma mais de 50 mil visitas por ano, de todo mundo. Os contactos e pedidos de informação chegam quase diariamente, na grande maioria, enviados por naturistas espanhóis.

Mas o desinteresse também é partilhado pela generalidade dos empresários hoteleiros. “Já contactámos vários para a necessidade de haver mais alojamento, mais equipamentos mas ninguém nos deu ouvidos até agora”, diz Maria Emília.

“Não temos condições no Algarve, por exemplo, para ter um grande encontro. Quer queiramos ou não, o naturismo é hoje uma grande indústria. Basta dizer que em França há mais de 260 lugares onde as pessoas se podem despir. Este ano, Espanha espera receber 1 milhão e meio de naturistas de toda a Europa!”

No Algarve, apesar dos 220 quilómetros de costa, existem apenas duas oficiais – a praia das Adegas, em Odeceixe, e a praia do Barril, na Ilha de Tavira. E há cerca de 12 praias onde o naturismo é tolerado. Comparativamente, são mais de 400 na costa espanhola.

Em termos de alojamentos, a carência é ainda maior. Apenas existe a «Quinta dos Carriços», em Salema e pouco mais.

Quem pensar que estes são espaços propícios à promiscuidade sexual, desengane-se. A maioria dos parques de campismo e centros naturistas apenas admite os portadores de um cartão pessoal e intransmissível, emitido, por uma organização como o CNA.

Apenas esta credencial dá acesso a todos os centros naturistas homologados pela International Naturist Federation (FNI) em todo o Mundo.

“Como deve calcular, estes são locais muito apetecíveis para todo o tipo de pessoas mal-intencionadas. E por isso, o acesso é reservado a pessoas que respeitam a ética e a filosofia do naturismo, até porque muitos destes espaços são frequentados por famílias, mulheres e crianças”, acrescenta.

Para Campos, as mentalidades evoluíram muito. A sociedade em geral não tem problemas para com o naturismo à excepção talvez “de um grupo restrito de pessoas que não conseguem ver isto como uma filosofia de vida”, diz.

Em relação à moral católica, “já o papa João Paulo II dizia que a nudez não é, só por si, pecaminosa”. “O pecado está muitas vezes, na cabeça das pessoas”, conclui.

Recentemente, o partido ecologista «os Verdes» entregou no Parlamento, no passado dia 10 de Junho, uma proposta para mudar a Lei n.° 29/94, com o objectivo de criar mais praias naturistas.

Actualmente com cerca de 90 sócios, o Clube Naturista do Algarve foi fundado em Julho de 2003, por um grupo de pessoas, algumas das quais já praticantes do naturismo desde a década de 70.

Nos próximos dias 13 a 18 de Agosto de 2009 vai decorrer o III Encontro Ibérico de Naturismo, uma organização conjunta entre as federações portuguesa e espanhola. Prevê-se uma enchente de gente nua em Santiago do Cacém, Alentejo.

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