| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um. |
António Goulart
Algarve à deriva?

Entregou uma proposta a pedir medidas urgentes a José Sócrates para combater o desemprego no Algarve. Como foi aceite?
António Goulart: Sim, quis entregar este documento ao senhor primeiro-ministro, que não pareceu nada interessado e mandou um assessor recebê-lo. Acho que o senhor primeiro-ministro é que teria todo o interesse em receber o documento pessoalmente. Sobretudo para demonstrar uma coisa que até agora ainda não demonstrou – é que está interessado na situação económica e social do Algarve e no mau tempo que as pessoas estão a passar.
Em que consiste o vosso plano de emergência?
O que nós queremos é um conjunto de medidas concretas para combater o desemprego no Algarve e relançar a economia. Ou pelo menos, para minorar o problema. Por exemplo, é possível, pegar nos fundos comunitários que o Algarve ainda tem e ver o que é possível extrair daí na perspectiva de criar emprego. Por outro lado, é possível e necessário mais investimento público para criar postos de trabalho.
Qual é a realidade do Algarve hoje?
Os dados que temos do Instituto do Emprego e Formação Profissional não reflectem a totalidade do desemprego. Há muito mais que os 20 772 desempregados dos números oficiais. Estimamos que rondem os 25 mil. Há também alguns milhares que não estão inscritos em lado nenhum, pessoas que se movem na economia paralela, e que não têm acesso a subsídio. Há ainda outra questão. Numa família, basta um membro do casal estar desempregado para os efeitos se fazerem sentir por todo o agregado familiar. Isto é um problema que ultrapassa o próprio desempregado. É uma bola de neve que prejudica toda a economia.
Como surge este «Plano de emergência»?
A origem remonta a algum tempo atrás. Fizemos um conjunto de reuniões com parceiros sociais e chegámos à conclusão que é preciso uma série de medidas para travar o desemprego e estimular a economia regional. Entregámos uma proposta no Governo Civil, com a perspectiva que o transmitisse ao Governo. Passado mês e meio, constatámos que o Governo continuava alheado da região, tal como antes, e a fazer o que sempre fez. Isto é, volta e meia aparece um secretário de Estado que anuncia umas coisas, faz umas inaugurações, mas digamos uma resposta global e integrada aos problemas do emprego na região, não há. Repare, desde Novembro, o desemprego cresceu 45 por cento.
É mais do dobro do resto do país.
O verão de 2009 traz alguma esperança?
O Verão pode eventualmente servir como uma ligeira almofada para a actual situação. Contudo, prevê-se uma época turística fraca. De forma que, se nada for feito, no final deste Verão poderemos estar confrontados com uma das piores crises económico-sociais que há memória.
É uma consequência da crise ou da concentração da economia regional no turismo?
Acho que resulta de muitos factores, mas é uma consequência das debilidades da estrutura económica de uma região que se virou apenas para um sector de actividade. E que tem a maior precariedade laboral do país. O cruzamento disto com os efeitos das políticas do Governo - que nos últimos quatro anos privilegiou sobretudo os grandes grupos económicos mais a chamada crise internacional - conduziram a esta situação. Neste momento, o que é certo é que numa região em que 60 por cento dos postos de trabalho criados nos últimos anos são precários é evidente que os efeitos de uma crise se fazem sentir de forma mais rápida e brutal.
Faz sentido viver no Algarve?
Como algarvio, acho sempre que esta é uma boa região para se viver. Digo é que está a atravessar um momento particularmente difícil. Neste momento, temos a noção muito clara que há milhares de algarvios sem dinheiro para pagarem as suas casas, nem a creche dos filhos, nem para comprarem alimentos ou pagarem despesas como a luz, a água e o gás. Basta ver como as autarquias do Algarve estão aprovar medidas de ajuda aos seus munícipes. Isto está-se a alastrar e o número de algarvios carentes, e a necessitar de apoios cresceu de forma assombrosa.
Contrariamente, há cada vez mais sinais exteriores de riqueza. Basta ver os automóveis de luxo nas cidades algarvias. Muita gente exibe poder de compra. Como é possível?
É possível porque há uma repartição da riqueza que é feita de forma bastante desigual. Sobretudo, se pensarmos que os salários são baixos. O futuro será muito difícil se não houver uma mudança neste modelo. Do ponto de vista da própria economia, não é possível por muito mais tempo haver uma vasta maioria da população com rendimentos muito fracos e uma minoria de gente privilegiada. Este nível de contrastes não é possível continuar num país com as carências e os problemas que Portugal tem. Se queremos ter um quadro de desenvolvimento económico e social equilibrado, não é possível continuar por este caminho por muito mais tempo. Aliás, parte do que está hoje a acontecer à escala internacional, tem muito a ver com estes desequilíbrios.








