| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | Alte Brillen, nur als Nothilfe, hat was mit Würde zu tun! Im Internet gibt es Brillen bis zu 90% billiger als im Laden. Würde mich beteiligen, da meine alten Brillen i.d.R. zerbrochen / zerkratzt, also unbrauchbar sind. Rückfragen: solarrife@clix.pt ![]() edehac, Ourique, 20 Dezembro 2009 12:54 |
Óculos velhos reciclados em Loulé para o Camboja
Solidariedade à vista

A ideia começou na Alemanha, com um grupo de seis colegas optometristas. Um deles passou férias naquela zona distante da Ásia e ficou impressionado com a pobreza e com a falta de apoios para a maioria da população. Estabeleceu alguns contactos locais e regressou com vontade de ajudar.
A. Rahmani recorda que ouviu com bastante atenção a experiência do colega.
Gostou logo do projecto, porque lhe pareceu um desafio, sobretudo devido aos elevados custos logísticos.
“Sim, a primeira coisa que fizemos foi juntar dinheiro para a viagem”, conta. “Precisamos levar não apenas óculos, lentes e armações, mas também todo o equipamento necessário para testar os olhos e identificar os problemas das pessoas”.
Em meados de 2001, os seis amigos partiram juntos de avião rumo à Ásia. Levaram mais de 10 mil óculos de toda a espécie, velhos e novos – como restos de colecções que não se venderam, armações fora de moda e rejeitadas pelo consumo sempre voraz da Europa desenvolvida. Levaram ainda algum dinheiro para mandar comprar lentes extra, sempre que necessário. Ou seja, mais de duas toneladas de carga.
O primeiro obstáculo foi a alfândega. “A primeira vez que fomos ao Camboja foi complicadíssimo. As autoridades não nos conheciam. Além disso, demorou muito tempo até termos os passaportes, vistos e licenças em ordem”, diz. Um pesadelo burocrático, que hoje, diz ser mais fácil de ultrapassar.
E depois?
Durante anos e anos de conflitos e guerras, este país de densas florestas tropicais não é fácil de atravessar. O objectivo de Rahmani e os colegas são sobretudo as aldeias do interior, onde as carências são maiores.
Contudo, aqui os estrangeiros e turistas são aconselhados a não visitarem sozinhos os sítios mais distantes, devido à grande quantidade de minas terrestres espalhadas pelos campos e florestas.
“Conhecemos algumas pessoas que falam alemão. Pagamos-lhes para serem nossos guias e tradutores”, conta. Durante dois meses e meio, não houve tempo a perder. Às vezes, os caminhos são tão maus e distantes, que as carrinhas carregadas de material óptico, demoram oito ou mais horas a chegar à próxima aldeia. “Nós não ficamos em nenhum hotel. Vivemos dentro dos carros. Mas tem de ser assim para chegarmos às pessoas”, diz.
Sempre que chegam a uma aldeia, montam o equipamento. “Tivemos uma vez uma crianças, que precisava de oito dioptrias. Isso é uma graduação enorme. Ela não conseguia ver o que tinha à frente dos pés. Tivemos de mandar fazer umas lentes na cidade mais próxima, pois não havia no nosso stock. No final, você nem imagina. Os pais choravam de alegria. São pessoas que não têm nada, mas que nos queriam dar tudo”, recorda. “Isso toca-nos bem fundo no coração”.
Claro que o objectivo inicial de fazer uma viagem por ano ao Camboja revelou-se impossível. Os custos desta primeira expedição foram tão elevados, que os seis colegas pensaram em desistir. “É verdade, mas as pessoas que nós conhecemos pela satisfação de ajudar, sentimos que vale a pena continuar”, conta. “Algumas organizações não-governamentais têm mostrado interesse em envolver-se neste projecto. Para já, não queremos trabalhar com mais ninguém. Custa-me muito mais se as coisas não chegarem lá”. O optometrista e os colegas não querem correr o risco de perder o controlo sobre o destino dos óculos. “Assim, vamos tentar ir apenas quando tivermos bom material em qualidade e quantidade”, revela. Por outro lado, até já há voluntários para se juntarem à próxima expedição, prevista para 2012!
Desde que vive no Algarve (Rahmani tem uma esposa portuguesa), apenas conseguiu juntar cerca de 2000 óculos. “Aqui é um pouco mais difícil. A mentalidade portuguesa é diferente. Normalmente, as pessoas não querem dar coisas como óculos”.
Marcas de um povo pouco generoso? “Não é isso. Acho que o problema é que a maioria das pessoas não sabe que os óculos que já não lhes servem podem ser úteis a outras”, desdramatiza. “Penso que em países como a Alemanha, já há essa consciência e muita gente entrega-os nas ópticas para serem doados”.
Mas também poderá haver outra explicação para além da ignorância. Será que o português desconfia que os seus velhos óculos serão revendidos? “Não sei. Realmente não sei dizer, mas acho que não. Tenho falado com muitas pessoas e o que vejo é que pouca gente sabe que estamos a fazer este trabalho”, conclui.
Talvez por ser uma iniciativa privada e de certa forma, pequena, Rahmani e os colegas não têm divulgado muito o projecto. A informação circula de boca em boca, devagar – mas cada vez mais longe. “Ultimamente, tenho recebido telefonemas de todo o Portugal. Pessoas que me contactam a perguntar como podem enviar coisas. Há até uma escola de Lisboa que está a juntar material para nos enviar”, conta. “Outras querem mandar-nos dinheiro, mas isso não aceitamos. Preferimos pagar os custos nós próprios, porque queremos mesmo fazer isto”, insiste.
“Só pedimos às pessoas que nos tragam os seus óculos velhos, mesmo que estejam partidos”. Depois do trabalho, nas horas vagas, Rahmani dedica-se a limpar, consertar e inventariar minuciosamente tudo o que recebe.
Só resta perguntar, qual a motivação?
“Coisas que para nós não valem nada, no Camboja têm uma importância enorme. Lá ninguém quer saber da cor ou do modelo, ou da marca dos óculos. Ver já é uma alegria enorme. Além disso, acho que é importante sabermos partilhar”.







edehac

