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Carolien Van Leusden

A vida não pára

Em Portugal morrem diariamente quatro mulheres vítimas de cancro da mama. Ao mesmo tempo, é diagnosticada a doença a uma média de 13 mulheres por cada dia que passa. Os especialistas falam de uma “epidemia nacional”, uma vez que esta doença começa a atingir cada vez mais jovens, com menos de 30 anos de idade. Porquê? Ninguém sabe exactamente. Alguns peritos consideram que é um problema da sociedade moderna. De norte a sul do país, continuam os rastreios ao cancro, apoiados por campanhas de sensibilização nos media. Contudo, apesar de todas as informações disponíveis, como é para uma mulher ver-se confrontada, de um dia para o outro, com o terrível cenário de um cancro no peito? Como se lida com o problema? Como se reage à notícia de ter uma doença que chega a matar quase 8 milhões de pessoas por ano em todo o mundo?
Natasha Donn, 26 Fev 2009 01:00, Sem Comentários »
Natasha Donn

Conheça uma mãe de duas crianças, a quem nos últimos sete anos foram diagnosticados três cancros. Primeiro um melanoma, em 2001, depois um cancro da mama, em 2004 e por fim, em 2007 um cancro no pulmão e no fígado. Estatisticamente falando, a esta altura, Carolien Van Leusden já estaria morta há muito tempo. Porém, esta mulher de 46 anos de idade, que reside em Portugal há 24 anos, está não só bem viva, como mais feliz do que nunca. Repleta de planos para o futuro, Carolien escreveu um livro sobre a sua longa e assustadora jornada com a doença, na esperança de poder encorajar outras mulheres na mesma situação, e que são atingidas por sentimentos de desespero.

“Muitas pessoas sentem que a sua vida acabou, quando recebem o diagnóstico: cancro”, confessa Carolien, entre aspas. “Mas eu vejo-o como um bónus. Se a minha vida estivesse para acabar, eu já tinha morrido. Teria sido atropelada por um autocarro, ou sofrido um ataque cardíaco. Este tempo extra é para separar as coisas. Para fazer o que precisa ser feito. O último ano, (desde que me diagnosticaram os cancros “secundários”) serviu particularmente para esclarecer todo o tipo de assuntos”.

A entrevista decorria no terraço da casa de Lagos, que Carolien partilha com os dois filhos e o companheiro, Chris. Uma casa que ela sempre receou nunca vir a poder vê-la construída, mas como diz muitas vezes, “a vida não pára…”

“No dia em que soube que tinha cancro novamente, recebi também a notícia de que tinha vendido a casa que precisava para construir esta. Foi aí que me apercebi que... a vida tem que continuar”.

“Houve momentos de loucura, em que eu tinha que sair para ir escolher os sofás, enquanto estava em plena escrita do meu testemunho”.

Mas o que a levou a escrever um livro?

“Isso foi fácil...muita coisa estava a acontecer. E eu não me lembrava de tudo – mas precisava de me lembrar, para tentar tomar as decisões certas. Outra coisa que me apercebi é que estava a gastar muita energia a falar ao telefone. Havia pessoas a telefonar a toda a hora para saber como estava, mas eu não podia falar tanto. Eu não queria. Então decidi manter os meus amigos informados por e-mail. E foi então que aconteceu uma das coisas mais fabulosas e positivas de toda esta experiência. As pessoas começaram a responder-me por e-mail para dizer que “mal podiam esperar por notícias”.

Carolien fez um daqueles sorrisos endiabrados, que mostram o seu sentido de humor, e que tantas vezes a têm alegrado – o verdadeiro grãozinho de areia que tem sido o seu salvador.

“Na minha última mensagem, enviada em Junho passado, escrevi que quem quisesse saber mais notícias, deveria procurar o meu livro que estaria à venda em breve. Depois pensei: meu Deus, o que foi que eu fiz?!”

Hoje sabe que fez precisamente o que tinha que ser feito: seguir o seu «Path» [traduzido à letra, «o caminho»].

A obra «My Path» está actualmente a ser traduzida para Português e Inglês, enquanto o original, em holandês já circula pelas editoras holandesas.

O livro dá conta da luta de uma mulher, contra as iniquidades de uma doença mortal. É emocionante, inspirador, repleto de vida, esperança e de incalculáveis informações de auto-ajuda.

“Nem podem imaginar o quanto eu li e investiguei nos últimos anos. Tenho tido muita sorte mesmo com os tratamentos que recebo aqui em Portugal por médicos e pessoas maravilhosas, no Hospital de Dia de Oncologia de Portimão. Tenho tido a ajuda extraordinária do meu pai e do seu colega”. (O pai é um ginecologista aposentado, da Holanda, cuja actual tarefa é avaliar novos medicamentos que entram para o mercado. Trabalha para a Dutch Medical Board e para a European Medical Agency. Entre os medicamentos em questão, estão os aplicados no tratamento do cancro da mama… “Coincidência?”, ri-se Carolien. “Não, nada acontece por acaso!”). Porém, além dos tratamentos convencionais, esta corajosa mulher tem experimentado terapias alternativas e mudou radicalmente a sua dieta alimentar.

“Em Dezembro de 2007, aquilo a que chamam de marcadores tumorais (cancro relacionado com os resultados dos controlos sanguíneos) estava muito além dos níveis aceitáveis. Quatro meses depois, estava de volta aos valores considerados normais e assim se mantém até hoje. Sinto que por agora tenho conseguido travar a sua evolução, e estou a trabalhar para reduzir mais e mais os locais secundários do cancro. O meu próximo exame está marcado para Março”.

“Eu não me estou a ridicularizar, nem aos médicos, mas digo-vos uma coisa: não permito que mais nada progrida. Se eu vir que algo precisa ser feito, faço-o! Adoro viver e estou grata por cada momento!”

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