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Edição 778
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SOS Animal

Cadela Carlota & Companhia

Ainda com o recente cenário dantesco dos animais maltratados num terreno privado em Lagoa como pano de fundo, fomos conhecer a realidade de um dos muitos refúgios cheios até rebentar, que lutam para salvar cães, gatos e outros bichos em risco. E é uma luta cada vez mais difícil. No fundo, o maior problema, nem é tanto a atitude negligente das pessoas – mas sim a sombria lacuna de um quadro legal que constitua a crueldade sobre os animais como um crime punível por lei. Isto sim, é um problema muito conhecido por Bridget Hicks, cidadã sénior que ao longo dos últimos anos se tem dedicado à emergência animal. “Um cavalo moribundo chega a ficar amarrado ao sol escaldante durante três dias”, exemplifica, “enquanto que nenhuma das autoridades chamadas a acudir (a GNR, os bombeiros, o veterinário municipal) têm qualquer jurisdição para intervir! Os animais podem ser abandonados, abusados, mantidos em condições inumanas, atirados para os caixotes do lixo – e não importa a quantidade de vezes que denunciamos estes comportamentos, ainda não houve um único caso de crueldade animal levado ao tribunal! Não existe outro país na Europa ocidental com semelhante currículo...” E até mesmo com “o poder das redes sociais” como o facebook - aliás, plataforma que ao longo das últimas semanas tem dado eco à indignação popular no caso da “quinta dos horrores” contígua ao Bairro Municipal dos Vales, qual é o resultado final? Invariavelmente, a ajuda é sempre “muito pouca, e muito tardia”. E de facto, é isto que descobrimos no refúgio «Cadela Carlota e Companhia” em Vila do Bispo.
Natasha Donn, Edição 716 (16 Fev 2012), Sem Comentários »

Fundado há três anos atrás pela portuguesa Paula Carmo, 51 anos, esta associação sem fins lucrativos foi pensada para “aliviar um pouco a pressão” ao canil municipal de Lagos. Para além da fundadora, Karen Breen, esposa do famoso piloto Gerry Breen, juntou-se a esta missão de salvar animais abandonados e maltradados.

“Para responder à sua questão”, diz Karen Breen assertivamente, “não consigo ver os problemas que temos aqui melhorarem em breve. Provavelmente temos agora mais cães do que o canil municipal. E a possibilidade de os acolhermos a todos é cada vez menor, mas estamos a tentar. Alguns irão passar as suas vidas inteiras connosco, não tenho dúvida.”

“O nosso espaço é limitado e fazemos o que podemos.” “Mas”, apressou-se a acrescentar, “isso não significa que devemos desistir agora. Vejo cada animal que acolhemos como um que já não precisa de viver na rua. Damos aos cães um lar seguro. Um lar para o resto da vida, se necessário, e amigos para o partilhar.”

“Todos eles merecem o nosso amor e a segurança de uma casa e de uma família sua, e é isso que tentamos encontrar, mas para já, damos-lhes o que podemos para que fiquem contentes.”

“Mesmo que tenham vindo de um passado terrível – e já vimos alguns que sofreram coisas indescritíveis - acho que merecem um tempo para serem felizes, e é isso que me faz continuar.”

Então, e já que falamos em histórias de partir o coração, perguntamos se os animais “acolhidos” cada vez que são devolvidos ao canil porque os novos donos se fartaram deles, não a deprimem?

“Não muito. Adoro o que faço. Não me consigo imaginar sem este trabalho. Tivemos algumas histórias desesperadas de terror – até mesmo aqui no refúgio. Uma noite destas, não há muito tempo, um cão foi roubado, electrocutado e até lhe cortaram a garganta. Foi a coisa mais horrível. Foi certamente uma espécie de ritual satânico – ao que parece esta área é conhecida pela magia negra. Outra cadela foi morta com uma munição utilizada para caçar javalis. Foi deixada para morrer com uma perna e um ombro esmigalhado, e cheia de estilhaços de metal da bala crivados no corpo. Estamos a cuidar dela agora, e só a conta do veterinário para este animal já ultrapassa os 500 euros.”

Durante esta reportagem, conversámos dentro do espaço natural do refúgio construído em 2010. Os cães vivem em complexos, um ao lado do outro, com espaço para exercícios e abrigo dos elementos. Não é ideal, mas para já, terá de servir. A associação gostaria muito de poder construir abrigos melhores, mas como sempre, o tempo, o dinheiro e a mão-de-obra necessárias são obstáculos quase intransponíveis. Para acabar a história do ritual macabro, havia outra cadela que partilhava a casota que foi arrombada. Ficou tão traumatizada com o evento – tal como outros que ficaram com cicatrizes para a vida – que agora vive no terraço da Karen Breen, em Lagos, sempre assustada, a tremer. Ainda assim, esta cadela demonstra um instinto maternal para com as dezenas de cachorrinhos que passam pela casa da dona, recolhidos do abandono, quer a caminho de um novo lar, ou a caminho da segurança do refúgio.

Na verdade, Karen Breen, 51 anos, reserva algum espaço na sua própria casa – tal como muitas outras pessoas que se dedicam à causa dos animais – que se parece com o acampamento de alguém que acaba de sobreviver a um tsunami violento. Tem pilhas de tralha amontoada a cada canto, e além disso o espaço ainda serve de hospital temporário a acolher cães doentes e cachorrinhos de tenra idade. “Vai tudo para as lojas de caridade”, explica. “O que há a fazer é fechar a porta e esquecer a confusão…”

Então, “o que tem de ser feito?”. Como é que as pessoas podem ajudar? “À parte de donativos, precisamos de voluntários - para ajudarem no refúgio, darem apoio às adopções e à angariação de fundos. Precisamos de pessoas que dêem coisas que possam ser vendidas nas lojas de caridade que ajudam os animais e precisamos de voluntários para trabalharem nestas lojas, também”, enumera numa lista bastante previsível.

Karen Breen certamente não espera voluntários que tenham ideias tão radicais como as da mãe-solteira Alison Castanheira, que recentemente teve a ideia de se atirar de um avião para angariar dinheiro para os animais da Cadela Carlota.

“Claro, que terá de ser aquilo a que chamam um salto em tandem!”, explicou-nos com um sorriso. “Pensei para comigo: tem de ser algo espectacular para encorajar as pessoas a ajudarem. Temos falta de tanta coisa. Nem sequer temos dinheiro suficiente para comprar toda a comida que os animais precisam. Esta crise tem piorado muito os problemas de quem se preocupa em cuidar dos animais abandonados”.

Felizmente, a Cadela Carlota tem encontrado algumas “empresas amigas”, por exemplo, nos supermercados locais que lhes permitem terem “eventos de adopção” durante as horas das compras.

Alison Castanheira e Ricardo, o filho mais novo, têm-se envolvido nestas iniciativas, e contam-nos que “têm corrido muito bem. Temos doado alguns cães desta forma.”

Ghandi é citado no website desta associação, com a seguinte frase: “O grau de evolução de uma sociedade pode ser avaliado pelo modo como a sociedade trata as suas crianças, os seus idosos e os seus animais.”

No futuro, isto não será só válido para os animais abandonados, mas para todos nós, dependendo da forma como hoje lidamos com a indiferença e negligenciamos tudo aquilo que se deixou minar na sociedade. As redes sociais, como o facebook, podem ter um papel fantástico na sensibilização das pessoas, mas no fim de contas, apenas temos que olhar para nós próprios para tornar o mundo melhor.

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