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Gourdasi Lakicevic
Nadar em areias movediças

O que a trouxe para Portugal?
Gourdasi Lakicevic: Ah, isso é uma longa história. Estive muito doente na Índia – para onde tinha ido com o meu ex-marido para evitar a guerra na Sérvia. Eu tive tifo, disenteria e tuberculose no pulmão esquerdo e intestinos. Ele apanhou malária. Ambos quase morremos, mas acabámos por sobreviver e pedimos para sermos aceites de volta na Europa.
As autoridades indianas só conseguiram que a Roménia e Portugal nos aceitassem. Na altura, ninguém queria bósnios (o meu marido era da Bósnia), e então escolhemos Portugal.
De certa forma, agora percebo que Portugal aceita qualquer pessoa porque é um pouco como chegar ao triângulo das Bermudas, quando alguém vem para cá. Não importa o quão duro você trabalhe, não importa o que faz – tudo isso pode desaparecer de um momento para o outro. [Estala os dedos para explicar a ideia.]
Como é que chegou a limpar casas de banho públicas?
Alguém tem de o fazer! Tenho um filho para sustentar. Na altura, era mãe solteira. Tenho uma capacidade incrível para trabalhar no duro – não importa quão difícil ou desagradável possa ser. Mas o triste é que perdi esse trabalho porque a Junta não queria ninguém a trabalhar o tempo suficiente para ficar “efectiva”, como lhe chamam. Por outras palavras, um trabalhador que não se pode despedir com facilidade. Portanto, disseram-me para me ir embora e “volte talvez daqui por um ano”!
Foi então que decidiu trabalhar para si própria?
Sim, foi quando estava à procura de alguma coisa/ qualquer coisa para ganhar dinheiro. Não tinha qualquer plano para fazer espelhos, mas um amigo encorajou-me. Resolvi começar e agora tornou-se uma paixão.
Como arranjou dinheiro para pagar as ferramentas necessárias?
Isso é uma boa história. Eu tinha direito a uma espécie de subsídio social para os meus dentes, e perguntei se poderia usar esse dinheiro para comprar ferramentas. As pessoas da Segurança Social realmente ajudaram-me… quando finalmente recebi o dinheiro, no ano passado, apenas duas semanas antes da primeira feira de natal em que participei.
Trabalhei dia e noite, e consegui ter 10 espelhos prontos a tempo - cinco foram comprados pelas pessoas da Segurança Social, e um ofereci a uma senhora que me ajudou bastante. Os restantes quatro, consegui vender no mercado de Aljezur. Por fim, o dinheiro estava a entrar.
Mas não tem sido fácil?
Não tem sido fácil porque enquanto eu estava a desenvolver novos espelhos e novas ideias, parece que o mundo inteiro ficou sem dinheiro! Noutro dia, participei numa feira de artesanato no triângulo dourado. Foi na Vila Sol. Tive de pagar €300 apenas para mostrar o meu trabalho.
Não vendi nada, nem uma peça. Na verdade, ninguém vendeu nada! Tive de trabalhar durante dois meses para ter um stock pronto só para esse evento, pensando que seria um lugar perfeito para o vender.
Fale-nos sobre a próxima feira de natal em que participa…
Bem, é a feira de artesanato de natal da aldeia onde vivo – Barão de São João. Acontece no Sábado, do meio-dia às 18h00 no Atabai bar. Vai contar com a participação de outros artistas, com muitas coisas bonitas, jóias, puzzles, madeiras, brindes, comes e bebes e vinho quente. Vai ser um evento perfeito para as famílias – e com um pouco de sorte, talvez possamos todos vender um pouco do nosso trabalho!








