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Edição 730
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Laurinda Seabra

«Nadar com os tubarões»

Laurinda Seabra, 56 anos, descreve-se a si própria como uma “empreendedora social experiente”. Antiga engenheira mecânica na África do Sul, onde trabalhou na indústria mineira e petroquímica, Seabra descobriu que o seu maior interesse é ajudar negócios a crescer. Ao longo dos anos, foi mentora e conselheira de muitos pequenos empresários e empregados – assistiu com estratégias de desenvolvimento cujo resultado foi uma melhor liquidez, crescimento e sobrevivência contínua... e depois chegou a Lagos. O que Laurinda Seabra descobriu no Algarve deixou-a boquiaberta – e desde então tem vindo a trabalhar para melhorar os negócios dentro da comunidade local.
Natasha Donn, Edição 704 (17 Nov 2011), Sem Comentários »

Exactamente, espantou-se com o quê no Algarve?

Laurinda Seabra: Com tantas coisas! Tinha uma imagem de Portugal, de vir cá passar férias de 1974. Pensava que este era um país do primeiro mundo – parte integrante da Europa.

Mas quando se tenta viver aqui, então é que nos apercebemos que há tantos problemas! Por exemplo, não há uma representação independente para as pequenas e médias empresas – e estas são a espinha dorsal da sociedade portuguesa! Depois há o problema da falta de retenção de capital – com isto quero dizer que o dinheiro não fica na comunidade. Invariavelmente vai para as grandes empresas/ bancos, na Espanha, Alemanha, França, por aí fora.

Onde estou, em Lagos, há mesmo falta de dinheiro a circular! E também não existem mecanismos locais que encorajem as pessoas a deixarem o dinheiro aqui – e depois, para esconder todas estas realidades, existe medo!

Nunca vi tanto medo como tenho visto nesta cidade – e eu venho de África! Tenho andado pelos bairros sociais. Aprendi que é preciso continuar a fazer perguntas. Arrancar as repostas a ferros, se for preciso.

As pessoas aqui não estão acostumadas a isso. Vemos pequenas empresas a pagarem IVA sobre facturas que ainda estão à espera que sejam pagas pela câmara municipal! Se não pagarem o imposto, levam com coimas do fisco – e no entanto, a razão pela qual não pagam é porque o poder local lhes deve dinheiro! Isto é uma loucura! Quero ir a Lisboa e mudar estas leis que estão simplesmente a aniquilar todos os pequenos negócios locais…

Então e agora, qual é o seu plano?

É criar uma rede de redes. Ir ao encontro de comunidade em comunidade dentro do Algarve, para que as pessoas possam trabalhar e crescer em conjunto – e que no final possamos ter a região a sobreviver como um todo. Lagos é o projecto-piloto. Começámos a campanha “Eu apoio Lagos” há 18 meses, já temos 1800 apoiantes e coisas a acontecerem!

Estamos a desafiar a natureza rígida do governo: um dos exemplos recentes é a reabertura do Restaurante «O António» em Porto de Mós – que tinha sido fechado no Verão passado pela autarquia devido a uma longa batalha legal com construtores estrangeiros.

Os tribunais de Lagos e Loulé consideraram o fecho ilegal. Agora estamos a focar-nos em promover Lagos enquanto destino de eleição, atraindo sangue novo e promovendo a infra-estrutura legal.

No começo de 2012, vamos ter o nosso «VIP Welcome Programme» - que envolverá equipas de voluntários que levarão pessoas à volta de Lagos, mostrando-lhes o que a cidade tem para oferecer. E no final deste mês vamos ter o nosso primeiro workshop para ajudar as PME’s a resistir e a ganhar!

Contam com algum apoio de alguma entidade oficial?

Nenhuma! Mas para ser honesta, para termos sucesso e progredirmos, temos de nos manter totalmente independentes.

Que lhe diz a sua intuição em relação ao futuro do Algarve?

Não há dúvida que está a ser atacado – mas ainda temos espaço de manobra. Nos últimos 10 anos tenho trabalhado para estabelecer ligações com a sociedade civil – ligações essas que nos irão permitir colocar questões inconvenientes – e dar luta usando o sistema contra o próprio sistema.

O tempo é a essência. Temos o governo a entregar licenças e concessões para a exploração de gás e petróleo na costa algarvia, e há vontade em dar luz verde à indústria mineira em Monchique. Que implicações é que tais actividades terão no turismo, nas nossas empresas locais e no nosso quotidiano? Temos de nos juntar para salvaguardar os nossos direitos e liberdades pessoais – antes que seja tarde demais!

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