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Edição 730
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Carlos, 48 anos, instrutor de condução em Lagos

Tudo por causa do excesso!

Na semana passada, um choque frontal perto de Alcochete que envolveu um carro onde seguiam jovens algarvios que regressavam a casa depois de uma festa “rave”, ceifou três vidas e deixou muitas famílias em choque. O problema, para além destas mortes sem qualquer sentido, é que estas histórias de horror repetem-se demasiadas vezes nas páginas dos jornais. Porquê? Encontrámos o instrutor de condução que ensinou dois dos rapazes que morreram nesse acidente. Nenhum deles tinha acabado a instrução. Nenhum deles tinha carta de condução. Carlos, 48 anos de idade, pediu-nos o anonimato por motivos profissionais. Mas o que ele nos disse (e a uma mãe que pensava que o filho de 17 anos estava em segurança aconchegado na cama e descobriu que em vez disso estava envolvido num acidente) faz todo o sentido.
Natasha Donn, Edição 700 (20 Out 2011), Sem Comentários »

Acha que pode haver uma forma de prevenir todas estas mortes estúpidas nas estradas portuguesas?

Penso que vamos continuar a ver mais jovens a morrerem na estrada, por causa do problema de drogas que temos. É o mesmo em Lagos, assim como em Albufeira ou Faro. Os jovens hoje são movidos pelos excessos. Excessos de álcool, de drogas, de velocidade, de noitadas sem dormir. É uma combinação letal.

Dois dos rapazes que morreram na semana passada foram seus instruendos, mas nunca acabaram a formação. Acha que é por causa do preço da carta de condução?

Não, não acho. Não é barato, é verdade. Mas isso não é a principal razão pela qual os jovens desistem. Eles desistem porque não se querem esforçar. Na maior parte das vezes, as aulas são pagas pelos pais, mas ainda assim, cerca de 50 a 60 por cento dos alunos não chegam a realizar os exames.

Mas conduzem na mesma?

Alguns, sim.

Ao longo da sua carreira como instrutor, já viu outros alunos morrerem nas estradas?

Sou instrutor há 27 anos, e tenho visto centenas de jovens tirarem as suas cartas de condução. Não mantenho contacto com todos depois da escola, mas sim, tem havido mais mortes.

Sente-se de alguma forma, chocado?

Sinto-me chocado porque se trata de jovens, tal como fiquei chocado com o acidente do passado fim-de-semana. Mas dada a situação, há coisas que já não chocam. Estas tragédias são todas acidentes à espera de acontecer.

As escolas de condução alertam e sensibilizam os jovens para os perigos?

Claro que sim. Faz parte do trabalho. O código da Estrada, por exemplo, não é apenas sobre as regras da condução. É sobre o comportamento certo a ter quando se está ao volante. Estou constantemente a tentar fazer com que os jovens estejam conscientes dos riscos. Mas claro, é preciso ter cuidado. Se repetir a mesma coisa cada vez que dou uma aula teórica, os alunos desligam e pensam “cá vem a seca outra vez”. Na verdade, estas questões devem ser debatidas em casa e nas escolas. Tive de o fazer com os meus filhos – e posso garantir-lhe, é muito, muito mais difícil incutir-lhes os riscos de sair à noite e conduzir, ou de apanhar uma boleia com um amigo que bebeu, do que simplesmente dizer-lhes adeus e ficar sentado em frente à televisão, ou ter um sono descansado. Já tive inúmeras noites em branco, em que tive de ficar acordado até sabe deus que horas da noite, apenas para os ir buscar a uma festa em segurança. É um trabalho muito duro.

Isso significa que há muitos pais que não estão dispostos a isso?

Não me cabe a mim criticar as outras pessoas, mas se os pais não travam os filhos, quem o fará? E onde é que irão parar

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