PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosEntrevista«Amor só de Mãe»

Aleksandra Serbim

«Amor só de Mãe»

Durante a última década, a brasileira Aleksandra Serbim, 39 anos, trabalhou como psicóloga institucional numa instituição social para jovens delinquentes e doentes terminais. Viu “inúmeros horrores” e vivenciou uma série de assaltos no dia-a-dia do Recife, a sua cidade natal. Mas no meio de tudo isto, há algo que sempre a intrigou: a frase tatuada em muitos jovens agressores: “Amor só de Mãe”. “Chocava-me por ser algo tão sentimental num ambiente cheio de crime e violência”. A frase ficou-lhe no pensamento quando se mudou para Portugal para constituir família, há seis anos atrás, e inspirou o seu livro de estreia, recém-editado pela Edium Editores – ficção “misturada com bastante realidade”.
Natasha Donn, Edição 699 (13 Out 2011), 8 Comentários »

A mudança para Portugal foi positiva para si?

Posso dizer que foi fantástica, de várias formas. Passei por tanta coisa no Brasil – trabalhei com violência, morte, doença - que aprendi a dar valor ao que realmente importa na vida. A vida é uma experiência maravilhosa na qual devemos mergulhar de corpo e alma. A qualidade de vida aqui é muito boa. Nos primeiros dias aqui em Portugal, quando me mudei, costumava acordar em pânico, às vezes sonhava com tudo aquilo que vivi no Brasil. Costumava andar na rua a pensar que poderia ser atacada a qualquer momento. Devagarinho, aprendi a relaxar.

Como brasileira, sente-se aceite aqui?

Sim, quase sempre. Penso que há dois tipos de sentimentos simultaneamente em jogo na forma como os portugueses encaram o Brasil e os brasileiros: encanto e desconfiança. Há uma espécie de relação amor-ódio entre ambos – tal como existe em qualquer relação “entre irmãos”. Especialmente agora que o Brasil é uma potência emergente no futuro. Também considero que as pessoas aqui ressentem o facto de que o nosso dialecto tenha alterado a forma como escrevem, por causa do novo acordo ortográfico. Claro, existem preconceitos, mas sobretudo, diferenças.

Que diferenças?

Bem, concretamente, no que toca à criatividade. A criatividade é muito importante. No Brasil, as pessoas são criativas a tempo inteiro, são muito informais. Dançam e cantam no meio rua, sem precisarem de desculpas. Claro que aqui as pessoas são muito mais formais, muito mais reservadas. Não há tanta criatividade no quotidiano, o que é uma pena, porque isso também desenvolve a coragem.

E a maternidade, teve impacto em si e na sua escrita?

Ser mãe trouxe-me a emoção mais forte que já senti. Não sabia que poderia existir uma relação tão forte entre duas pessoas – e sim, fez-me pensar ainda mais na frase «Amor só de Mãe».

Não é fácil escrever com duas crianças pequenas em casa…

Sim e não. Tinha o meu livro na cabeça há bem mais de um ano – e simplesmente não tive o tempo para o escrever quando o meu mais velho era pequenino. Finalmente, tinha mais tempo, e consegui acabá-lo numa questão de meses. Agora, tenho um segundo livro pronto na minha cabeça. Mas quero deixá-lo aí, por enquanto. Primeiro, quero ver como é que as coisas correm com este. Vai ser publicado no Brasil em 2012, e espero que seja traduzido para inglês. Só depois, talvez seja altura de escrever o próximo. Entretanto, também vou estudar para o meu doutoramento em psicologia…

Mas não exerce psicologia?

Não. Mas poderia. Prefiro pesquisar e escrever. Basicamente, estou interessada na psicologia global, na dinâmica de grupos. Fiz o meu mestrado em antropologia, estudei a entidade judaica, e na minha tese de doutoramento vou concentrar-me nas duas figuras ligadas a esta identidade na história de Portugal: Branca Dias, do século XVI, e Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de judeus da perseguição nazi, durante a Segunda Guerra Mundial.

Prevê regressar ao Brasil?

É uma possibilidade, mas há muito a considerar, e teria que escolher com muito cuidado para onde ir. Certamente, não penso em regressar ao Recife – embora já não haja tanta violência de rua, agora que as diferenças sociais na distribuição da riqueza estão mais equilibradas.

Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.
Lek é uma pessoa fantastica. Orgulho em ver uma mulher brasileira em destaque, mostrando que a mulher brasileira tem mtas outras qualidades ao invés de outra tão exposta pela midia internacional. Sucesso Lek :)
flavi, venda nova, 31 Outubro 2011 14:20
Lek vc é fechosa mesmo, sempre muito família, além de inteligente, bonita, entre outras qualidades maravilhosas. Que o nosso Deus continue te abençoando e te dando inteligência e, principalmente, sabedoria para chegares ao céu. bj.
betinha, PORTO VELHO, 14 Outubro 2011 13:56
Aleksandra Serbim é uma pessoa fantástica. Lek, como a chamamos carinhosamente, nós que a conhecemos desde menina, sempre foi dotada de uma sensibilidade excepcional. Parabéns!
Silvio Bernardes.
smbernardes, Feira de Santana, 14 Outubro 2011 05:41
Fico muito feliz de existir brasileiros como voçê. Faz provar mais uma vez que nem toda brasileira é prostituta e brasileiro ladrão. Somos um povo trabalhador e viemos plantar e colher bons frutos em Portugal.
Jossana, Albufeira, 14 Outubro 2011 00:01
To Muito Feliz por você Lek, continue sempre assim,essa pessoa maravilhosa! bjão
Flordeliz, Horta, açores, 13 Outubro 2011 21:18
Já tive oportunidade de ler a sua dissertação e seu livro, os dois são interessantes, mas como agora já temos uma doutoranda e de acordo com a entrevista você escreverá uma tese de grande relevância, então aguardo para ler a sua pesquisa.
betinha, PORTO VELHO, 13 Outubro 2011 19:12
Parabéns pelo teu livro, espero curiosa pelo segundo.
:)
Claudiaguia, Albufeira, 13 Outubro 2011 19:04
Parabéns pelo livro. Ele realmente é excelente.
betinha, PORTO VELHO, 13 Outubro 2011 18:55