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Luís Conceição

O compositor irrequieto

Luís Conceição, 36 anos de idade, é mais um nome a acrescentar à criança artística de qualidade no Algarve. A actividade profissional de composição, inicia-se em 1993, tendo escrito até à data mais de 200 obras originais, parte delas gravadas em quatro discos de edição de autor. O mais novo acaba de ser editado e chama-se «Dez dedos de conversa» – um trabalho de fusão entre várias influências, da música étnica, erudita ao jazz.
Edição 685 ( 7 Jul 2011), Sem Comentários »
«Dez dedos de conversa» tem 12 faixas para piano solo. Custa 10 euros e pode ser encomendado ao autor, através de um pedido para o seguinte endereço de e-mail: Email

Fale-nos um pouco do seu novo disco «Dez dedos de conversa»…

Luís Conceição: É um trabalho gravado há relativamente pouco tempo. É produto de cerca de três anos de composição, embora a maior parte das obras que estão incluídas no disco sejam muito recentes, escritas entre 2009 e 2010. São originais para piano solo. Apenas uma das faixas é uma versão de uma obra imortal do compositor Maurice Ravel que se chama «Bolero». Alterei as questões harmónicas e rítmicas e deixei-lhe uma roupagem diferente, completamente nova.

Como tem sido a aceitação?

Está a vender-se bastante bem. Ainda não consegui arranjar uma editora em Portugal, portanto é uma edição de autor, apoiada por três entidades. Mas noto que o público está receptivo e há uma aceitação muito positiva. Nos meus concertos tenho vindo a disponibilizar o disco, as pessoas compram e fazem encomendas através do meu website, um pouco por toda a Europa. Neste momento, estou inclusive a negociar a edição na Holanda, através de uma pequena editora independente.

Tinha algum público-alvo em mente quando fez este disco?

Esta música de carácter instrumental é algo que não tem tradição no panorama cultural português. É algo um pouco estranho porque as pessoas associam quase sempre a música a uma voz cantada. Mas como eu acho que existia um grande vazio a esse nível no nosso panorama discográfico, resolvi fazer um CD de originais para piano solo. Acho que fazia falta. No entanto, gostaria de ressalvar que todas as músicas são comerciais. Não entro em neo-intelectualismos, nem em linguagens demasiado profundas.

Quais são as suas áreas de acção profissional?

Sou compositor, sou pianista, sou professor de várias disciplinas musicais, na Academia de Música de Tavira e no INUAF em Loulé. Também lecciono História da Música, Acústica, Formação Musical e essencialmente Piano.

Isso é tudo compatível?

Não. É muito complicado. Especialmente porque dentro dos meus projectos artísticos, divido-me em vários estilos e em coisas diferentes. Por exemplo, em Outubro vou fazer uma digressão pelo norte do país, apresentando um projecto inovador em Portugal.

Chama-se «Metropolis» e é a projecção do filme clássico do realizador Fritz Lang, acompanhado ao piano com música da minha autoria. Pedi autorização e fiz alguns cortes de modo a que o filme dure cerca de uma hora. Digamos que é o revivalismo do papel do piano no cinema mudo da década de 1920, mas adaptado aos tempos modernos.

Havia outras escolhas, mas acho que este é um filme muito actual porque fala dos conflitos das classes trabalhadoras e os patronatos. E tem a ver com a maquinização da sociedade.

O Algarve está à margem dos centros de criação artística. Sente algum preconceito por causa disso?

Não. Eu crio independentemente de estar no Algarve, ou noutro sítio qualquer. Gosto muito de Tavira, os meus familiares são oriundos de Cachopo, na serra. Considero esta cidade como o meu quartel-general. Repare, eu primeiro formei-me academicamente, tirei duas licenciaturas porque pensei que isso seria importante em termos de imposição no meio artístico.

Também dá concertos pela Europa fora. Sente diferença nos públicos?

Sinto. Por exemplo, o público francês é extremamente receptivo às correntes vanguardistas, jazzísticas, à música do século XX. O público português está mais agarrado àquela música mais directa, mais fácil de entender. O público espanhol é nacionalista, portanto temos de ter o cuidado de inserir compositores espanhóis. O público alemão é muito erudito, prende-se muito à música de Bach e de Beethoven. O público brasileiro, curiosamente, tem cada vez a mente mais aberta. Ao contrário do que se poderia pensar, por causa da música popularucha que importamos, é um país que está bastante à frente com muitos doutoramentos em música nas suas universidades…

E em Tavira?

Bem, tenho aí quatro ou cinco fãs que acompanham todos os meus concertos, o resto são estrangeiros. Acho que é um fenómeno exclusivo das cidades turísticas. Por outro lado, aqui em Tavira sou bastante acarinhado e o meu trabalho é bastante apoiado pela autarquia e pelas associações culturais. Nunca encontrei obstáculos nenhuns ao desenvolvimento da minha arte, nem à apresentação dos meus concertos.

Na sua opinião, o Algarve valoriza os seus artistas?

Agora penso que sim. Mas há uns anos atrás, não. Só o que vinha da capital, ou de outras cidades é que tinha um valor acrescido. Mas hoje em dia, penso que já existe uma consciência para que se apoiem os valores locais e regionais.

Como foi o seu percurso inicial na música?

Comecei a estudar música aos 5 anos de idade. Até à adolescência não tive nenhum contacto com música que não fosse de carácter erudito, a vulgarmente chamada, música clássica. A partir dos 16 anos foi-me proposto (e ainda bem que assim foi) que fosse tocar para um piano-bar em Faro. Nessa altura, estamos a falar há 20 anos atrás, fui fazer um repertório mais ligeiro e foi aí que tomei contacto com obras de Frank Sinatra, The Beatles, etc. Desde então, nunca mais parei…

Como é o processo de criação para si?

Existem vários tipos de compositores. Eu considero-me um compositor intuitivo. Normalmente, tudo parte de uma ideia embrionária, de uma melodia, de uma sequência harmónica, que depois é desenvolvida de forma muito intuitiva. Não tenho horas para compor. Estou constantemente a criar. Simplesmente sento-me ao piano, e se tiver na disposição, componho. Se não tiver, toco, estudo, improviso. Não sou disciplinado a esse nível. Também escrevo poemas e componho canções.

O que o atrai no piano?

Quando era criança, e tenho essa ideia, vi uma vez um pianista na televisão. Se calhar era um foleirão qualquer, pois tinha um piano branco, mas a verdade é que aquilo encantou-me. A forma, o cromatismo das teclas, o som, as vibrações…

Ainda sente isso hoje?

O piano é 50 por cento da minha vida. Para me manter física e psicologicamente equilibrado, preciso de tocar todos os dias. Faz parte de mim. Tem de ser.

Está ligado ao ensino de música. Temos cá jovens com potencial?

Já me fizeram centenas de vezes essa pergunta, mas gosto sempre de desmistificar esta questão das escolas de música. Tenho uma opinião muito própria, se calhar a maior parte dos meus colegas discordam. Não é nas escolas de ensino especializado de música que se formam os artistas e os músicos. Aqui formam-se os interessados em música e os bons ouvintes do futuro. Os bons músicos formam-se em casa, a estudar todos os dias com dedicação e afinco. Não é só pelo facto de vir às aulas que se vai ser um grande músico. É evidente que isso ajuda, mas tem de partir do indivíduo. Quando uma criança tem de facto talento, bom ouvido, boa capacidade de cantar melodias afinado (é o primeiro sintoma) e bom sentido rítmico, se tiver tudo isso, é apenas uma questão de ver qual o instrumento que mais lhe agrada. A partir daí, desenvolverá como músico. Mas repare, estamos aqui na Academia de Música de Tavira há 10 anos, já passaram por aqui centenas de alunos. E bons. Até hoje, temos talvez um único que possa vir a ser músico profissional...

Já não há prodígios?

Haver há, mas são absorvidos no meio de tanta coisa. Antigamente, quando aparecia um míudo realmente bom, as pessoas paravam para o ouvir. Hoje em dia, a coisa está de tal forma mediatizada e globalizada, que já são muitos. Só a China tem centenas. Ao mesmo tempo que há muitas oportunidades, existe um mercado cada vez mais diminuto para esse míudos porque a música clássica está a desaparecer. É algo que tem os dias contados. E vou explicar na minha opinião, porquê. Isto já foi dito por vários estudiosos, incluindo pelo António Pinto Vargas. Ele disse que a música clássica está condenada a desaparecer no espaço de 50 anos, porque não faz parte do universo de escolhas das pessoas. As pessoas hoje em dia vivem o imediato, a música que ouvem é a comercial da rádio. Depois, existem nichos pequenos que se interessam por world music, jazz e tudo o que é diferente. E por aí adiante até chegarmos ao pequeno grupo daqueles que ainda gostam de ouvir Mozart, Bach, e que cada vez são menos. Não consigo explicar isso do ponto de vista sociológico, mas sei que o público da música clássica é cada vez menor. Música clássica é tida como algo das elites, embora eu não concorde de todo com essa opinião.

O que é um bom ouvinte?

É uma pessoa que não vai apenas a um concerto do Tony Carreira, que tem a liberdade intelectual e a capacidade de ir ouvir um quarteto de cordas, ou uma orquestras. Um bom ouvinte não é uma pessoa que só ouve música clássica, ou rock’n’roll, ou metal. Um bom ouvinte tem que ser como um bom conversador, tem que ter sentido crítico e é para isso que as escolas de música servem.

Obrigado pela entrevista.

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