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Barry Hatton

Um retrato de Portugal

Em vésperas do Dia de Portugal (10 de Junho), fomos à procura da identidade nacional sob uma perspectiva diferente. Falámos com Barry Hatton, um jornalista britânico residente no país há 25 anos, que escreveu um interessante ensaio sobre nós - «Os portugueses – o verdadeiro retrato de um povo único, fascinante e contraditório». O livro já está disponível no mercado inglês e norte-americano, onde tem suscitado boas críticas e é uma novidade entre nós. Um remédio para levantar a auto-estima?
Edição 681 ( 9 Jun 2011), Sem Comentários »

Barry Hatton nasceu em Doncaster em 1963. Estudou Germânicas no King’s College, Universidade de Londres. Em meados dos anos 1980, o desemprego elevado no Reino Unido fazia adivinhar um futuro sombrio para um aspirante a jornalista.

Decidiu viajar até Lisboa, à aventura, na companhia de um amigo. Lembra-se primeiro do choque cultural – deixou para trás a então no auge cena punk pós-moderna londrina, para encontrar uma capital conservadora, onde o tempo parecia ter parado. Acabou por ficar e constituir família (mulher portuguesa e três filhas).

Considera-se português “do pescoço para baixo” e apesar de ter vivido mais tempo em Portugal que no seu país, ainda lida mal com certos hábitos culturais. Barry Hatton trabalhou como repórter no extinto Anglo-Portuguese News, e, desde 1997 é correspondente da Associated Press, cobrindo a actualidade política, económica e desportiva de Portugal.

Escreveu, com Luísa Beltrão, uma biografia da primeira mulher a ser primeira-ministra em Portugal, Maria de Lourdes Pintassilgo.

Vive em Portugal há 25 anos. Isso tornou-o melhor ou pior pessoa?

Barry Hatton: Se calhar, isso seria uma pergunta para os outros responderem. Mas que Portugal me deu felicidade e me permitiu realizar as minhas ambições na vida, isso é verdade.

Comparativamente a outros países europeus, Portugal ainda não é tão conhecido. Quando tem que o descrever lá fora, começa por dizer o quê?

Como em qualquer país, o correspondente tem de colocar as coisas em contexto e explicar porque é que a reportagem é relevante e importante para as pessoas lá fora. Portugal precisa de mais explicação (background) precisamente pelos motivos que cita na sua pergunta.

Cada vez que são reveladas estatísticas (sociais, económicas, financeiras, etc), Portugal normalmente está sempre no top das coisas piores. É cultura ou maldição?

É fruto da história portuguesa e da maneira de ser e de estar na vida. Alguém disse uma vez que Portugal está a falar em fazer reformas há 800 anos. Aí está o problema. Também temos de resistir à tentação de culpar coisas inconcretas, supersticiosas.

Ainda assim, resolveu escrever este livro. Porquê? Qual o interesse?

Queria revelar aos outros um país que estimo muito e que penso que tem grandes valores. Para mim, Portugal é um grande país e os portugueses um grande povo (embora eles não acreditem). Queria mostrar porquê.

Escreveu o original em Inglês, que entretanto já está publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos. Como tem sido a aceitação? Já recebeu feedback?

Tem sido bem recebido até agora.

É um livro crítico ou simplesmente informativo?

Pretende ser um retrato do país, descrevendo-o e explicando-o, de forma entretida e informativa. Não faz juízos de valor. Todos os países têm os seus pontos fortes e pontos fracos.

É jornalista e actualmente correspondente da AP. Portugal é um país interessante para os media estrangeiros? Ou é apenas por causa da crise?

Não se escreve tanto sobre Portugal como agora desde o 25 de Abril de 1974, que foi a última vez que Portugal, por causa da possibilidade de um regime comunista, ameaçou o bem-estar do resto da Europa. Normalmente é uma luta chamar a atenção para Portugal. Tem pouco poder económico e – consequentemente – diplomático e está longe dos grandes centros de decisão.

Como vê a sociedade portuguesa de hoje, sobretudo os extremos, jovens e idosos?

A vida está difícil para todos, mas especialmente para os mais vulneráveis. Portugal está numa encruzilhada e tem de decidir para onde quer ir.

Sei que aprecia a incrível capacidade para improvisar soluções dos portugueses. E quais são as que mais gosta?

A capacidade de adaptação, flexibilidade, coragem, resistência às dificuldades, e a simpatia.

Por outro lado, é sabido que não gosta do comportamento ao volante dos portugueses. Que mais?

Custa-me ver a passividade perante coisas inaceitáveis, a todos os níveis. Também é preciso que comecem a falar não só dos direitos, mas também dos deveres, por exemplo, o dever de ser um bom cidadão, um bom trabalhador, um bom estudante, e por aí fora.

E que diz da burocracia nacional?

Mais um obstáculo, entre muitos, que tem de ser removido.

Há tempos li num jornal que não é Portugal que precisa de ser salvo, os portugueses é que precisam de ser salvos dele. Concorda?

Não concordo. A nova abordagem tem de ser de baixo para cima - isto é os portugueses têm em seu poder a possibilidade de mudar. A pergunta é se querem?

Qual é a sua opinião sobre a classe política portuguesa?

Tenho de manter a minha imparcialidade, mas todos têm de mudar.

Acha que o nosso sistema é verdadeiramente democrático?

O sistema é. Os portugueses é que não se inscrevem na actividade democrática. A democracia não se resume a ir votar de vez em quando.

Há verdadeiros tesouros no país – o peixe, o vinho, o azeite. No entanto, têm pouca projecção internacional. O que falha?

O marketing português foi sempre mau. Não sabem vender-se. Mas também é um problema de economia de escala.

Temos sol, um país de contrastes. Que mais falta aos portugueses?

Têm de mudar de atitude quanto baste. É preciso encontrar fontes de riqueza, de gerar riqueza. Mas não podem perder a sua alegria de viver.

No seu livro há contextualização histórica do país. Pessoalmente, qual é o episódio que mais o fascina?

É difícil escolher entre tantos episódios, muitos deles danosos. Talvez o terramoto de 1755.

Uma última pergunta – à luz da sua experiência, como perspectiva o futuro de Portugal e dos portugueses?

Vejo o futuro com esperança e fé no povo português, mesmo sabendo que poucos (portugueses) concordam comigo.

Obrigado pela entrevista!

Obrigado pelo interesse!

Barry Hantton é um apaixonado por Portugal, no entanto, admite que no estrangeiro se mantêm alguns estereótipos negativos relativamente ao português. Essa foi uma das razões pelas quais resolveu escrever o livro, que revela uma sociedade e um país moderno. A parte mais difícil é explicar caraterísticas genuinamente portuguesas, como o ‘desenrascanço’.

O jornalista inglês defende que nos últimos anos as atitudes e as mentalidades mudaram completamente, sobretudo ao nível das gerações mais novas e acredita no potencial do país para vencer as dificuldades actuais.

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