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Faro
O Mensageiro

Fala com uma convicção inabalável. Já fez um pouco de tudo, viveu quatro anos em Inglaterra, onde um dia, por consequência dos excessos de então, tentou por termo à vida no mar. Conta que se salvou quase por milagre e no regresso a casa, resolveu recuperar a fé e reequacionar a sua vida. Agora, considera-se um evangelista de rua - algo que é comum noutros países - mas que não encontra
muitos semelhantes em Portugal. É ainda voluntário activo numa associação social sem fins lucrativos de intervenção em grupos de risco e não lhe faltam planos para espalhar a sua fé.
Algarve 123: Está ligado a alguma igreja em particular?
António José Correia: Sim, mas este é um projecto meu.
Quando é que começou a sair para a rua?
Há cerca de um ano e tal. Foi uma decisão minha. Já passei por muitos lugares, aqui no Algarve e em Espanha. Mas actualmente, fico na minha cidade.
Porquê?
Senti um chamado. À minha maneira, tal como todas as pessoas sentem à maneira delas, eu tenho uma intimidade com Deus, que me pôs esta missão no coração.
O que tenta transmitir?
A minha mensagem inicial foi uma mensagem de amor. Só que as pessoas, muitas delas, não estão viradas para Deus e então revoltam-se quando vêem uma mensagem destas. Quando comecei, as pessoas sentiam-se confrontadas, como se estivesse ali alguém a mostrar aquilo que elas não queriam ver.
Então, já teve problemas por expressar assim a sua fé?
Sim. Já fui maltratado pelas autoridades. No início, eu tinha de lhes explicar biblicamente o meu ponto de vista.
Em Portugal existe liberdade religiosa e de expressão. São direitos consagrados na constituição…
É verdade, mas no entanto, essa foi uma realidade. Realmente é uma nação onde existe liberdade religiosa, mas a polícia veio várias vezes pedir-me a identificação. Mas repare, se eu fizesse isto à força, se levasse aos outros aquilo que acredito à força, não estaria a ser honesto, porque a Bíblia diz que devemos respeitar os nossos governantes.
E as pessoas em geral, como reagem?
Já fui maltratado. Algumas apitam para dar de vaia. No início,chamavam-me nomes e blasfemavam. Diziam-me para ir para casa. Já me tentaram matar por atropelamento, por duas vezes, pessoas diferentes.
Mas também tem experiências positivas?
Actualmente vêm pessoas de todo o mundo falar comigo. Já me deram alimentos, dinheiro. Às vezes oram comigo.
E que dizem pessoas de outros credos quando o encontram?
Encorajam-me, dão-me força. Outras delas, tentam levar-me para as suas religiões. Dão-me panfletos.
E que faz, joga fora?
Não. Guardo tudo numa gaveta em casa, porque respeito, claro.
E se alguém lhe disser que não concorda com o que você faz?
É uma questão de conversarmos. Já aconteceu.
E os seus amigos e familiares próximos?
No início pensavam que era uma brincadeira minha, que era louco. Agora já aceitam e sabem que não é assim.
Houve uma ruptura nalgumas relações?
Não, tenho bastantes irmãos e irmãs e dou-me bem com todos eles.
Já lhe deram alguma alcunha, provavelmente pejorativa?
Sim, o “profeta de Faro”. Mas eu não sou um profeta. Espalhar o envangelho está escrito na Bíblia, está ao alcance de qualquer pessoa...
Então é isso que legitima as suas acções?
Claro que sim.
Como é que chegou até aqui?
Fui convertido a cristão há cerca de três anos. Mas só comecei a sair à rua depois.
Mas como é que se vê a si próprio?
Sou um evangelista de rua. Um missionário na minha cidade. Do meu conhecimento, existe um senhor nos Estados Unidos e uma rapariga na Inglaterra. Deve haver
mais pessoas, mas não sei. Actualmente, em Portugal não tenho conhecimento…
Que ganha com isso?
Não ganho nada. O meu salário é ver as pessoas felizes. E quem quiser, a converter-se. Mas não me falta nada.
De onde vem a sua fé?
Um dia quando era criança, e a minha mãe levou-me à igreja evangélica. Ouvia as histórias bíblicas e ficou a semente. Mais tarde, por minha livre vontade deixei tudo
e comecei a andar por outros caminhos. Comecei a fazer coisas erradas. Comecei a roubar em casa, e depois na rua. Se não fui preso para uma cadeia, foi porque Deus teve pena de mim. Tive muitos problemas no tribunal. O meu maior problema foi quando comecei a pegar em carros e motas, punha a vida dos outros em risco por causa das dependências. Foi assim.
E depois?
Felizmente, encontrei o meu caminho.
Há mais casos como o seu?
Muitos.
Não há pessoas que confundem a sua fé com fanatismo?
Talvez haja. Mas se há, ainda não me disseram na cara.
E no Algarve, onde é que já esteve com as suas mensagens?
Já estive em Portimão, em Almancil, em Quarteira, em Olhão, em Vilamoura, em Lagos.
É você que faz os materiais?
Sim, sou eu que faço os materiais, que escrevo, que produzo tudo. Futuramente, haverá um novo cartaz, que será maravilhoso. É uma mensagem de esperança.
Vai viajar?
Não, vou continuar em Faro.
Até quando é que acha que a sua fé vai durar?
Vai durar enquanto for uma pessoa humilde disposta a ouvir e ajudar os outros.
Que outras ideias tem?
Gostaria de colocar mensagens bíblicas nos transportes públicos, para as pessoas lerem e reflectirem sobre as suas vidas. Também estou a trabalhar em pequenos
filmes, realizados por mim, para colocar no youtube. Gostaria muito de estudar e de me formar num centro bíblico, em Portugal ou no Brasil.
Como vê as outras religiões?
Existem muitas outras doutrinas, mas uma coisa é certa. A Bíblia tem mais de 3500 anos de existência. Passou por fogo, passou por guerras, passou por reis que mandaram destruí-la, mas ela ainda está cá para ensinar e corrigir o que está mal, porque é um livro de ensino. Penso que se toda a gente tivesse este livro para se reger, não existiriam metade das asneiras e das coisas que acontecem actualmente...
Obrigado pela entrevista.








