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Faro

O Mensageiro

É uma figura que intriga quem passa. Um homem solitário exibe cartazes com mensagens bíblicas, um pouco por todo o Algarve - e mais recentemente, em Faro. Extremismo ou simplesmente expressão de uma fé muito forte? Ou será um mensageiro incompatível com uma era que perdeu a espiritualidade? O certo é que ao vê-lo, poucos são os que ficam indiferentes – quer se goste ou não, quer se concorde, ou não. Natural de Faro, com 32 anos de idade, António José Correia sabe que o que faz é passível de gerar controvérsia, e por isso, aceitou explicar-nos por que motivo sai assim para a rua...
Edição 679 (26 Mai 2011), Sem Comentários »

Fala com uma convicção inabalável. Já fez um pouco de tudo, viveu quatro anos em Inglaterra, onde um dia, por consequência dos excessos de então, tentou por termo à vida no mar. Conta que se salvou quase por milagre e no regresso a casa, resolveu recuperar a fé e reequacionar a sua vida. Agora, considera-se um evangelista de rua - algo que é comum noutros países - mas que não encontra

muitos semelhantes em Portugal. É ainda voluntário activo numa associação social sem fins lucrativos de intervenção em grupos de risco e não lhe faltam planos para espalhar a sua fé.

Algarve 123: Está ligado a alguma igreja em particular?

António José Correia: Sim, mas este é um projecto meu.

Quando é que começou a sair para a rua?

Há cerca de um ano e tal. Foi uma decisão minha. Já passei por muitos lugares, aqui no Algarve e em Espanha. Mas actualmente, fico na minha cidade.

Porquê?

Senti um chamado. À minha maneira, tal como todas as pessoas sentem à maneira delas, eu tenho uma intimidade com Deus, que me pôs esta missão no coração.

O que tenta transmitir?

A minha mensagem inicial foi uma mensagem de amor. Só que as pessoas, muitas delas, não estão viradas para Deus e então revoltam-se quando vêem uma mensagem destas. Quando comecei, as pessoas sentiam-se confrontadas, como se estivesse ali alguém a mostrar aquilo que elas não queriam ver.

Então, já teve problemas por expressar assim a sua fé?

Sim. Já fui maltratado pelas autoridades. No início, eu tinha de lhes explicar biblicamente o meu ponto de vista.

Em Portugal existe liberdade religiosa e de expressão. São direitos consagrados na constituição…

É verdade, mas no entanto, essa foi uma realidade. Realmente é uma nação onde existe liberdade religiosa, mas a polícia veio várias vezes pedir-me a identificação. Mas repare, se eu fizesse isto à força, se levasse aos outros aquilo que acredito à força, não estaria a ser honesto, porque a Bíblia diz que devemos respeitar os nossos governantes.

E as pessoas em geral, como reagem?

Já fui maltratado. Algumas apitam para dar de vaia. No início,chamavam-me nomes e blasfemavam. Diziam-me para ir para casa. Já me tentaram matar por atropelamento, por duas vezes, pessoas diferentes.

Mas também tem experiências positivas?

Actualmente vêm pessoas de todo o mundo falar comigo. Já me deram alimentos, dinheiro. Às vezes oram comigo.

E que dizem pessoas de outros credos quando o encontram?

Encorajam-me, dão-me força. Outras delas, tentam levar-me para as suas religiões. Dão-me panfletos.

E que faz, joga fora?

Não. Guardo tudo numa gaveta em casa, porque respeito, claro.

E se alguém lhe disser que não concorda com o que você faz?

É uma questão de conversarmos. Já aconteceu.

E os seus amigos e familiares próximos?

No início pensavam que era uma brincadeira minha, que era louco. Agora já aceitam e sabem que não é assim.

Houve uma ruptura nalgumas relações?

Não, tenho bastantes irmãos e irmãs e dou-me bem com todos eles.

Já lhe deram alguma alcunha, provavelmente pejorativa?

Sim, o “profeta de Faro”. Mas eu não sou um profeta. Espalhar o envangelho está escrito na Bíblia, está ao alcance de qualquer pessoa...

Então é isso que legitima as suas acções?

Claro que sim.

Como é que chegou até aqui?

Fui convertido a cristão há cerca de três anos. Mas só comecei a sair à rua depois.

Mas como é que se vê a si próprio?

Sou um evangelista de rua. Um missionário na minha cidade. Do meu conhecimento, existe um senhor nos Estados Unidos e uma rapariga na Inglaterra. Deve haver

mais pessoas, mas não sei. Actualmente, em Portugal não tenho conhecimento…

Que ganha com isso?

Não ganho nada. O meu salário é ver as pessoas felizes. E quem quiser, a converter-se. Mas não me falta nada.

De onde vem a sua fé?

Um dia quando era criança, e a minha mãe levou-me à igreja evangélica. Ouvia as histórias bíblicas e ficou a semente. Mais tarde, por minha livre vontade deixei tudo

e comecei a andar por outros caminhos. Comecei a fazer coisas erradas. Comecei a roubar em casa, e depois na rua. Se não fui preso para uma cadeia, foi porque Deus teve pena de mim. Tive muitos problemas no tribunal. O meu maior problema foi quando comecei a pegar em carros e motas, punha a vida dos outros em risco por causa das dependências. Foi assim.

E depois?

Felizmente, encontrei o meu caminho.

Há mais casos como o seu?

Muitos.

Não há pessoas que confundem a sua fé com fanatismo?

Talvez haja. Mas se há, ainda não me disseram na cara.

E no Algarve, onde é que já esteve com as suas mensagens?

Já estive em Portimão, em Almancil, em Quarteira, em Olhão, em Vilamoura, em Lagos.

É você que faz os materiais?

Sim, sou eu que faço os materiais, que escrevo, que produzo tudo. Futuramente, haverá um novo cartaz, que será maravilhoso. É uma mensagem de esperança.

Vai viajar?

Não, vou continuar em Faro.

Até quando é que acha que a sua fé vai durar?

Vai durar enquanto for uma pessoa humilde disposta a ouvir e ajudar os outros.

Que outras ideias tem?

Gostaria de colocar mensagens bíblicas nos transportes públicos, para as pessoas lerem e reflectirem sobre as suas vidas. Também estou a trabalhar em pequenos

filmes, realizados por mim, para colocar no youtube. Gostaria muito de estudar e de me formar num centro bíblico, em Portugal ou no Brasil.

Como vê as outras religiões?

Existem muitas outras doutrinas, mas uma coisa é certa. A Bíblia tem mais de 3500 anos de existência. Passou por fogo, passou por guerras, passou por reis que mandaram destruí-la, mas ela ainda está cá para ensinar e corrigir o que está mal, porque é um livro de ensino. Penso que se toda a gente tivesse este livro para se reger, não existiriam metade das asneiras e das coisas que acontecem actualmente...

Obrigado pela entrevista.

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