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DECO Faro

O Algarve real

2009 começa com a palavra crise na mente dos algarvios, e provavelmente, na carteira também. Mas na verdade, quais são as suas reais consequências no quotidiano? Ao olhar à volta, surge o contraditório. Carros de luxo contrastam com as estatísticas crescentes de desemprego. Há quase tantos sinais exteriores de riqueza como famílias em dificuldades. Para tentar perceber que problemas os algarvios enfrentam, fomos ao encontro de Ana Pedro, coordenadora da delegação de Faro da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO), que tem observado de perto a fase negra da realidade social da região.
Bruno Filipe Pires, 8 Jan 2009 01:00, Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires
Cristina Afonso, jurista
, Ana Martins, secretariado, e
Ana Pedro, coordenadora da delegação da DECO em Faro.

Crédito fácil, vida impossível

Não será novidade se lhe dissermos que “neste momento, o Algarve está numa situação problemática”. O diagnóstico é de Ana Pedro, coordenadora da delegação da DECO em Faro e responsável pelo gabinete de apoio ao sobreendividado. Espalhados um pouco por todo o país, estes gabinetes têm como função apoiar os consumidores e ajudar a resolver problemas com o crédito. Através de uma rede de contactos privilegiados junto das instituições bancárias, muitas vezes conseguem, por exemplo, renegociar prestações ou pagamentos em atraso. Na prática, atendem casos difíceis diariamente. Por outro lado, também não é novidade que as origens da falta de dinheiro são anteriores ao turbilhão da crise financeira internacional. E simples de localizar. Com a chegada dos grandes centros comerciais à região, chegou também o acesso a todo o tipo de bens e serviços. Para os comprar, nem foi preciso pagar na hora. “Nesse sentido, as pessoas foram iludidas para o crédito fácil, para o consumo fácil, a vida fácil”. Ao longo dos últimos anos, “o que se conseguiu foi a desmaterialização do dinheiro”, observa. “De repente, é possível comprar tudo o que apareceu no Algarve. Mobiliário do mais avançado, roupas de marca, produtos tecnológicos e telemóveis a preços acessíveis, mas que na verdade não o são”, considera. “Há um grande incentivo para a celebração de contratos de crédito, associados à aquisição de determinados produtos de consumo. As pessoas olham para a prestação inicial como sendo a definitiva para sempre. Mas por via da crise e do aumento excessivo dos juros, o que se verifica é que as prestações aumentam muito e as pessoas deixam de conseguir fazer face às obrigações que assumiram”, explica Ana Pedro.

Cultura da comparação

Ou seja, a satisfação imediata de desejos de consumo está assim, na base de muitos dos problemas de dinheiro dos algarvios. E porquê? “Porque habituaram-se de tal forma a que o vizinho do lado tenha, que toda a gente pensa e acha que também tem direito a ter tudo. Noto muito isso aqui no gabinete de apoio ao sobreendividado, quando pedimos às pessoas para preencherem um formulário. Uma espécie de ginástica mental para vermos quais as suas despesas e rendimentos. Chega uma altura, que, em estado de desespero, muitas me dizem que não têm dinheiro para comer. Olho para o formulário e vejo, por exemplo, a despesa com a televisão por cabo”. Em média, são €50 ou mais. “Então, pergunto, porque não usar esse dinheiro na alimentação? Muitas ficam indignadas, como se aquilo fosse um serviço absolutamente essencial para as suas vidas”. Infelizmente, “vivemos numa cultura da comparação” e de status social, considera.

Crise igual para todos?

Contudo, o culto do status caminha a passos largos para falência. Advogada de formação, Ana Pedro não tem dúvidas que os sinais exteriores de novo-riquismo que se pavoneiam hoje um pouco por todo o Algarve (país) têm os dias contados.

A queda já começou. “Há muitas famílias aqui em Faro, que durante anos viveram muito bem, a maioria com rendimentos provenientes de negócios, que neste momento estão em dificuldades. São pessoas habituadas a ter em casa o último televisor de plasma da loja, a conduzir o último modelo de carro de luxo”, observa. “Atenção, estamos a falar de pessoas que hoje recorrem a nós, que não ganham o ordenado mínimo. Garanto-lhe que neste momento é a classe média alta que está com mais dificuldades”, esclarece.

Mas “quanto mais se tem, mais se gasta.” O problema é “quando chega uma fase de estagnação económica e as despesas são mais que muitas”, diz. Em breve, muita gente terá que reaprender a ser e mudar de mentalidade. “Vai, vai. Já estão a ganhar essa consciência, com todas as consequências negativas que têm tido nas suas vidas”, conclui.

A prisão da habitação

A par do consumo excessivo, dos créditos pessoais com juros astronómicos e da mania das grandezas, há outro problema e esse sim – um verdadeiro drama social – a assombrar muitos algarvios. Trata-se do crédito à habitação. “2009 vai ser um ano muito problemático. Repare, em 2008 assistimos aqui a muitas situações de incumprimento bancário. Tantas, que os bancos têm vindo a passar os processos de gabinete para gabinete, porque não sabem muito bem como hão-de reagir a tudo isto. Tenho aqui pessoas que estão há um ano sem pagar a casa e os bancos ainda não fizeram nada. Isto porque não são imobiliárias e não lhes interessa ficar com os imóveis todos. Mas estas situações não se vão arrastar por muito mais tempo”, diz. “Em 2009 vamos ver a resolução de muitos destes casos”.

E depois? Vão morar onde? Arrendar casa? Ana Pedro lamenta a realidade e a falta de alternativas. “Estamos no Algarve, junto à costa. As rendas aqui nada têm a ver com o resto do país, pois os senhorios pensam – arrendo apenas no Verão e vejo um lucro acrescido, ou arrendo também no resto do ano, mas com uma renda não muito baixa? Nós sofremos muito isso”. Todas as semanas, chegam pessoas à delegação de Faro da DECO para entregar as chaves de apartamentos que não conseguem pagar. A maioria são jovens, mas não só. “O que acontece também é que neste momento basta uma alteração mínima no agregado familiar para destabilizar completamente a gestão do orçamento doméstico”.

Os alvos mais fáceis

A crise está ainda a causar outros danos colaterais. Sem querer revelar pormenores, a coordenadora manifestou-se muito preocupada - “há empresas que estão a propor aos colaboradores contratados, uma redução de 25 por cento no salário sob pena de perderem o emprego”, revela. Uma proposta que apesar de ser completamente ilegal é cada vez mais frequente, e que poderá provocar mais uma onda de choque a quem já tem rendimentos baixos, ou está em dificuldades. Em relação a outra “tendência” de mercado actual é a “oferta” de cursos de idiomas. “As entidades que incitam à compra desses cursos que chegam a casa por via postal, sabem que estamos numa época de crise e que muitas pessoas estão desempregadas ou foram despedidas. Sabem que muitas gostavam de se valorizar profissionalmente, e que consideram que se calhar, investir naquele curso é uma mais-valia”. Mas na realidade, o que acabam por adquirir é um financiamento a crédito de “quantias astronómicas”. Por outro lado, há quem ainda continue a cair nalguns clássicos. “Os colchões ortopédicos, os cartões milagrosos de viagens de férias que cobram juros altíssimos”, continuam a fazer vítimas. Este ano, a DECO também observou o drama de muitos idosos perderem as suas poupanças investidas em aplicações financeiras falhadas. Refira-se que de Janeiro a 14 de Novembro de 2008, a DECO de Faro, atendeu 1187 casos nas suas diversas valências.Num panorama nacional, em 2008 a DECO recebeu 8758 solicitações de famílias sobreendividadas e foram abertos 2034 processos.

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