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«Deep Divex 2010»

Trabalhos de Fundo

Pela primeira vez, Portugal recebe o exercício internacional de mergulho profundo militar «Deep Divex». Organizado pela Marinha Portuguesa, decorre entre 27 de Agosto e 8 de Outubro, entre cinco e a dez milhas a sudoeste de Portimão. Mergulhadores de Portugal (país anfitrião), Bélgica, Canadá, Estónia, Noruega, Itália, Holanda, Suécia e EUA (estes últimos quatro no papel de observadores) treinaram uma série de operações navais nas águas algarvias. Estivemos a bordo do N.R.P. Almirante Gago Coutinho, e contamos-lhe tudo o que vimos acima do nível do mar.
Bruno Filipe Pires, Edição 647 ( 7 Out 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires
A partida do porto de Portimão.

Faltam poucos minutos para as 10 horas da manhã e já o N.R.P. Almirante Gago Coutinho está a meio caminho da zona de mergulho, a 10 milhas náuticas (cerca de 18 quilómetros) a Sudoeste de Portimão.

Enquanto navega, os líderes das equipas de mergulhadores apertam-se numa sala de reuniões improvisada para assistirem ao supervisers briefing do dia.

O oficial da Marinha Portuguesa, Paulo Franco dá instruções em inglês e fala sobre os exercícios planeados, a decorrer entre os 75 e os 79 metros de profundidade.

À semelhança das operações reais, o mergulho profundo tem sempre um objectivo muito bem definido – trabalhar. Os portugueses vão simular a recuperação de um piloto preso num helicóptero que se despenhou no mar. Vão utilizar um sonar de busca (pinger) para localizar a aeronave. Os canadianos vão em busca de um engenho explosivo de guerra.

Têm de identificar o que é primeiro, e depois desactivá-lo debaixo de água. Têm ainda que içar a mina até à superfície. As equipas de mergulhadores estónios e noruegueses vão em auxílio de um submarino em dificuldades (operação conhecida por subsunk simulator).

No total, há 5 cenários de treino diferentes. Cada demora em média 2 horas a completar. No final, os participantes discutem e trocam experiências, que é o grande objectivo do «Deep Divex 2010». O outro é treinarem a capacidade de nações diferentes trabalharem em conjunto, em equipas mistas e em cooperação.

São um total de cerca de 80 participantes de nove nações, Portugal inclusivé.

Cada nacionalidade tem o seu material próprio e age de modo independente – embora muitos procedimentos sejam standards comuns a todos. No mar, as equipas são acompanhadas por um bote de apoio (green boat) e um bote de emergência (red boat).

Acidentados e heróis

“O mergulho militar está na fronteira das capacidades fisiológicas do ser humano. É feito com equipamentos muito sofisticados, sujeitos a avarias”, descreve Gouveia e Melo, comandante da Esquadrilha de Subsuperfície da Marinha (submarinos e mergulhadores) Portuguesa e coordenador do «Deep Divex 2010».

Foi o que aconteceu com a equipa belga, a 30 de Setembro – falha de equipamento. “Um dos mergulhadores teve perda de consciência a cerca de 78 metros de profundidade. O outro elemento, para o salvar, fez uma subida de emergência para a superfície, que é um procedimento muito arriscado. É de realçar o altruísmo desse mergulhador para salvar o colega. E de facto salvou-o, pois já estava em pré-afogamento”, sintetiza Gouveia e Melo.

Os mergulhadores acidentados passaram 6 horas a descomprimir os efeitos da subida rápida, nas duas câmaras hiperbáricas a bordo. Depois, foram evacuados de helicóptero do INEM para o Hospital da Marinha, em Lisboa. “Não estão em risco de vida, nem em risco de perder nenhuma das suas faculdades”, garantiu-nos Gouveia e Melo. Ossos do ofício?

Na popa do navio, o Comandante Conceição, observa atentamente os exercícios. Tem 40 anos, curiosamente é de Portimão e iniciou a carreira militar em 1998. “A ansiedade é uma permanência.Esta é uma actividade de risco e só esse pensamento já provoca uma quantidade de adrenalina superior”, diz.

Conceição é o chefe dos três grupos de mergulhadores da Marinha Portuguesa – que totalizam cerca de 105 operacionais. “Há uma bateria de testes médicos e psicotécnicos ao qual o candidato tem que se sujeitar e depois fazer um curso de 9 meses”.

Heróis? “Estamos preparados para actuar em qualquer meio aquático”, diz. Na maioria têm menos de 30 anos de idade e realizam em média, 500 missões por ano, grande parte de cariz civil. Pela natureza do seu trabalho, Conceição diz que os mergulhadores se distinguem pela grande “camaradagem” e “espírito de grupo”.

Já Gouveia e Melo lembra que “aconteceram recentemente incidentes em que esta capacidade de mergulhar abaixo dos 50 metros foi essencial”. Foi o caso do naufrágio do barco de recreio «Super-Águia II», em Junho passado, ao largo do Furadouro (Ovar), em Aveiro. Mergulhadores da Marinha resgataram do interior o corpo de um dos tripulantes.

Conforme referiu informalmente Gouveia e Melo, é muito importante para as famílias recuperarem o seu falecido. Além disso, o resgate do corpo é muitas vezes fundamental para se poder reclamar o pagamento de seguros. Finalmente, o mergulho destes profissionais pode ajudar a esclarecer as causas que provocaram os acidentes (aspecto pericial). A recuperação de objectos valiosos, ou a recolha de provas de tráfico de droga são outros exemplos de serviço público.

Sobre o Algarve, Gouveia e Melo considera que “as condições climatéricas e oceanográficas são de excepção”. E que o exercício «Deep Divex» tem “uma repercussão internacional muito grande, a nível das marinhas e da comunidade do mergulho”, o que pode dar um empurrão indirecto ao turismo da região.

Operações navais num navio de ciência

“É a primeira vez que este navio está a ser utilizado para apoio a mergulho”, revela Bessa Pacheco, comandante do N.R.P. Almirante Gago Coutinho. Este é um dos quatro navios hidro-oceanográficos da Marinha portuguesa. Foi construído em 1985, em Tacoma, Washington. Fazia parte de um lote de 22, utilizados durante a guerra-fria para detectar os submarinos soviéticos. Desde que foi colocado no activo, em 2007, já realizou cerca de 13 000 horas de navegação. Em 2009, fez 3500 horas de navegação, o equivalente a oito meses de missão. Tem uma guarnição de 34 elementos e 15 camas para cientistas.

É movido por motores eléctricos, deslocando umas respeitáveis 2300 toneladas, a uma velocidade máxima de 10 nós (18 Km/h). Isso é também uma vantagem para a ciência porque “não coloca ruído no meio-ambiente”, nem “faz muita vibração” e assim não perturba o trabalho dos inúmeros e ultra-sofisticados sensores electrónicos a bordo. Particularmente útil neste exercício, foi o sistema de posicionamento dinâmico (uma espécie de piloto automático que mantêm o navio no sítio desejado) que “dispensa estar fundeado para colocar equipamentos com segurança na água”.

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