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Joaquim Manuel Pinto Serra lança livro

Educação à antiga?

Nas últimas semanas, o país tem assistido a uma onda de protestos contra as actuais políticas educativas. A escola é hoje um lugar de controvérsia e desconforto. Os professores estão sobrecarregados em tarefas burocráticas, cada vez mais divorciadas da realidade do país. São obrigados a seguir modelos educativos que não conseguem realizar. Hoje, os alunos recebem computadores, mas mal sabem ler um clássico ou fazer cálculos mentais. Onde começa a actual crise da Educação? Para onde caminhamos? Numa altura em que actualidade escolar indigna a sociedade, o médico psiquiatra e escritor louletano, Joaquim Manuel Pinto Serra, lançou um pequeno livro que é um convite à reflexão. Escrito em co-autoria com a antiga professora primária Maria Armanda Tavares Belo, «Uma professora ao canto do olho» é um diálogo entre gerações, que aborda problemas antigos ainda hoje por resolver.
Igor Duarte, Edição 553 (11 Dez 2008), Sem Comentários »
Joaquim Vieira

Tudo começa com uma nota biográfica. O livro baseia-se nas memórias de uma professora que começou a dar aulas nos anos 40 do século XX. Poderia ser uma história normal.

Mas, numa altura em que o país pouco mais oferecia aos seus cidadãos, do que a instrução primária, a postura pedagógica destes mestres era determinante para o futuro de várias gerações de portugueses.

Muitos têm recordações frias do tempo em que a régua e os castigos físicos eram banais. Outros, como Joaquim Pinto Serra, recordam que aprenderam as primeiras letras, com alguém que recorda como uma extensão da própria família.

“Eu tive a sorte de ter uma jóia de professora e tenho realmente uma boa recordação. Estudei na antiga escola Conde Ferreira, em Loulé. Que além de ser um edifício bonito, era uma escola por onde passaram muitas centenas e dezenas de alunos. E que realmente tivemos pena que a tivessem destruído”, diz.

“Hoje em dia, há uma maneira muito fácil de preservar essas coisas”, ironiza. Para Pinto Serra, que está actualmente aposentado da carreira hospitalar, mas que se tem dedicado à escrita, este “é um livro de afectividade, que os professores já mereciam e que pretende valorizar o papel destes profissionais na sociedade”.

“Antes encaravam-se os professores de uma maneira completamente diferente. Existia uma relação de proximidade. Carinho, amor. Coisa que agora não existe”, lamenta.

Para além desta motivação, deixa um alerta para uma realidade que persiste. Vejamos as palavras da professora Maria Armanda - “Acabei o curso do Magistério Primário em Julho de 1946, na cidade de Faro. Fui colocada em São Brás de Alportel, num sítio chamado Almargens. Já dentro da sala de aulas, com as janelas abertas, fiquei ainda mais perturbada: algumas cadeiras partidas, a cadeira da professora apenas com uma perna e o quadro, em vez de lousa, era de madeira pintada de preto. A tinta tinha desaparecido e em muitos espaços não se poderia escrever. Tudo estava sujo, cheio de pó e o ar irrespirável. Começara a chover e fazia frio. Tinha que colocar baldes e alguidares dentro da sala de aulas, pois chovia quase como na rua.”

Maria Armanda Tavares Belo, natural de Faro e hoje com 82 anos descreve assim a sua primeira experiência profissional. Foi docente durante quarenta anos em várias escolas nacionais.Um percurso que anotou e que está na base do livro.

No passado, o cenário em muitas escolas portuguesas era assim - edifícios antigos, o grosso dos alunos vinham de famílias pobres, rapazes e raparigas eram separados e o retrato do presidente da república e do chefe de estado, com o crucifixo ao meio fazia parte da mobília, símbolo máximo dos castos valores da ditadura.

Na altura, considerava-se que quatro anos de escolaridade seria suficiente para a vida. O liceu e a universidade estavam reservados para as elites. Para os filhos das figuras do regime, muitos dos quais, que hoje estão à frente dos destinos do país.

Hoje, já não se ensina a tabuada e o alfabeto com austeridade e mão de ferro. Os métodos mudaram. Mas, de norte a sul, muitas crianças ainda recebem a instrução primária nas deprimentes escolas construídas por Salazar.

No interior, e nas zonas rurais de praticamente todos os concelhos algarvios, as escolas que ainda têm alunos, lidam com problemas antigos.

Casas de banho sem condições, falta de verbas para material escolar e de limpeza, carência de assistência social e de políticas de intervenção comunitária são alguns exemplos que o vivalgarve apurou em conversa com pais e educadores presentes no lançamento do livro.

Ou seja, em pleno século XXI, em Portugal, a carências sociais continuam sem resposta. Há efectivamente, crianças e jovens com um percurso escolar marcado pelas dificuldades financeiras dos pais.

O insucesso escolar é disfarçado em estatísticas enviadas para a União Europeia. O ensino especial, continua sem verbas e a marginalizar os que têm necessidades especiais.

Recentemente, Isilda Gomes, governadora civil de Faro, disse aos jornalistas que há 3 000 deficientes no Algarve. Será que o número inclui as crianças e jovens que ficam em casa, por falta de vagas nas instituições de ensino que os acolhem? É impossível responder à questão.

Contudo, ao ler «Uma professora ao canto do olho», facilmente se conclui que a indisponibilidade para a mudança de mentalidades também é uma tradição que persiste. Por exemplo, em 1974-1975, já se falava nas aulas de Educação Sexual, tema que ainda hoje está no centro das discussões entre professores, alunos e o Ministério da Educação. E continua tabu.

Hoje, os professores manifestam-se contra o modelo de avaliação que o governo quer impor. Entendem que é demasiado burocrático. E que a papelada exige demasiado tempo, o que prejudica a sua disponibilidade para ensinar.

Só há poucos dias é que Maria de Lurdes Rodrigues, a actual ministra da Educação, se mostrou receptiva aos protestos da classe docente. Se é assim em democracia, veja-se o que escreve a antiga professora primária.

“Com frequência, recebiam-se ordens, absolutamente impossíveis de cumprir”, sublinha.

Ainda a propósito da disciplina tabu, escreve “recebemos uma ordem em que tínhamos de dar aulas de Educação Sexual…Ora nós, professoras (…) ficámos preocupadas… Não sabíamos como fazê-lo. (…) é lógico que eu concordo com as aulas de Educação sexual. Hoje, é no que mais se fala… mas, naquela época, a palavra sexo era tabu. (…)”.

De referir, que o livro “não tem uma história”, segundo nos contou o autor Joaquim Manuel Pinto Serra.

“Arranjámos duas personagens, a de um avô e o neto. O avô representando os tempos antigos e o neto a geração actual. São diálogos à mesa de café que pretendem sobretudo mostrar as diferenças entre o que era o ensino antigamente e agora”.

Que diferenças? A antiga professora responde - “Enquanto exerci o magistério até 25 de Abril de 1974, os programas eram muito mais completos e exigentes do que agora. Dava-se História de Portugal com grande pormenor. Actualmente, há quem não saiba o nome do nosso primeiro rei nem quem era Camões. Sabem apenas que o dia 10 de Junho é feriado”, escreve a professora nos seus manuscritos. Uma posição demasiado conservadora? A decisão é sua...

Editado pela «Mar da Palavra», o livro está desde já nas livrarias com preço de capa de 15 euros.

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