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A Protecção Civil e a Comunidade
Prevenir antes de remediar

“Estamos à espera de um sismo semelhante ao que ocorreu no ano de 1755”. As palavras são do Engenheiro Carlos Palhares, do Serviço Municipal de Protecção Civil de Lisboa, e um dos oradores do seminário. O responsável não faz futurologia, mas olhando para o passado, está provado que o grande terramoto do século XVIII gerou um tsunami que devastou parte da costa algarvia e da cidade de Lisboa. Sabe-se também que a onda atingiu primeiro o sul e cerca de meia hora depois a capital portuguesa. Quase 234 anos depois, o Algarve continua a ser a zona mais vulnerável em Portugal continental, com a maioria da população concentrando-se junto ao litoral. Paradoxalmente, há hoje dados científicos que provam que a maior parte dos sismos que afectam o País ocorrem a Sudoeste do Cabo de São Vicente.
Prever um tremor de terra ainda escapa ao domínio da ciência. Contudo, já é possível alertar a população para a ocorrência de ondas gigantes no mar – um fenómeno devastador conhecido por tsunami. Um exemplo prático funciona hoje no Japão, país que criou um sistema de alertas e abrigos para a população. “Normalmente, morrem mais pessoas devido à onda gigante, do que ao sismo que a produz”, afirmou Carlos Palhares, recordando o grande tsunami ocorrido na Indonésia em 2004 e que matou cerca de 300 mil pessoas, para além de ter deixado um grande rasto de destruição.
Assim, o responsável sugere que as autarquias considerem desenvolver uma rede de abrigos a colocar em locais estratégicos, ou pelo menos, de um sistema de alertas públicos em caso de um tsunami na costa algarvia.
Se a ideia lhe parece absurda, recorde-se dos resultados preliminares de um estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis no Algarve (ERSA), apresentado em Fevereiro último, numa conferência na Universidade do Algarve. Um sismo com a mesma magnitude do registado em 1755 (8,5 graus na escala de Richter) causaria na região cerca de 3 mil mortos e 27 mil desalojados. “O barlavento algarvio é o território com maior risco sísmico. E a sotavento, um tsunami inundaria as zonas de Quarteira, Faro e rio Guadiana”.
Para além das infra-estruturas, é preciso, sobretudo incutir nas pessoas uma mentalidade de prevenção para atenuar as consequências de uma possível catástrofe. Segundo Carlos Palhares, 90 por cento das pessoas numa crise só pode contar consigo própria, com a família e com as pessoas imediatamente mais próximas (vizinhos, colegas, etc). Num desastre inesperado e de grande dimensão, é a comunidade que sofre o primeiro embate e que tem que tomar as medidas para a sobrevivência.
Nem mesmo as telecomunicações, que na maioria das vezes bloqueiam devido ao elevado tráfego, nos podem ajudar. “Nós estamos demasiado fiados na tecnologia e ela falha”, alerta. O responsável diz que comportamentos simples podem evitar danos colaterais maiores. Bastam alguns passos simples. Por exemplo, ter sempre à mão em casa objectos como um pequeno extintor para combater rapidamente pequenos focos de incêndios, uma reserva de água potável engarrafada, lanterna e pilhas, e estojo de primeiros-socorros. Em caso de hecatombe, estas coisas podem, efectivamente, salvar vidas.
Rute Carvalho, também da Protecção Civil de Lisboa, falou sobre o «Planeamento de Segurança nas Escolas». A especialista sublinhou a necessidade da preparação de planos de emergência funcionais e eficazes. E passar a teoria à prática. “As várias forças de segurança têm que se manter preparadas para actuar. Para isso há que treinar através de simulacros, com o objectivo de testar o serviço e rotinar a articulação entre cada uma das entidades. A capacidade de resposta depende da preparação de todos”, diz.
Recorde-se que no passado fim-de-semana, a Protecção Civil fez um grande simulacro de sismo nos distritos de Lisboa, Setúbal e Santarém. Envolveu mais de 60 entidades diferentes (públicas e privadas) e 2600 operacionais. Entre os vários cenários de crise possíveis, simulou-se a resposta a desabamentos de infra-estruturas, deslizamentos de terra, rebentamento de condutas de gás, incêndios urbanos e industriais.
O exercício serviu ainda para testar pela primeira vez as comunicações do novo Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP). Até 2010, o novo rádio digital deverá estar operacional em todo o país.
Neste momento, está também a ser elaborado um Plano Especial de Emergência de Risco Sísmico para o Algarve, que deverá ser testado algures entre o quarto trimestre de 2009 e no primeiro semestre de 2010. É que um dia pode ser a sério.







