| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um. |
Algarve já tem linces

Passavam poucos minutos das 16h00, quando António Cantizano, 42 anos, parou o jipe branco da «Junta de Andaluzia» em frente à nova casa do lince ibérico no Algarve.
Preocupado com o seu passageiro felino, este motorista com experiência em transportar animais exóticos, não se poupou a esforços para garantir o bem-estar do lince – pendurou o casaco na janela para bloquear o sol, ligou o ar condicionado para o refrescar, e não parou de suspirar até ver o animal fora da jaula de 85 centímetros.
A viagem correu tranquilamente, sempre sob os cuidados de Iñigo Sanchez, o veterinário espanhol que acompanhou o lince ao longo dos mais de 300 quilómetros, sem paragens, desde o Zoobotânico de Jerez de la Frontera até Silves.
Chegar até aqui não é tarefa fácil, com vários jornalistas e convidados a perderem-se no caminho até à Herdade das Santinhas. As placas informativas tiveram que ser retiradas, devido à afluência de público ao local, julgando poder ver estes animais ameaçados ao perto. Isso não é possível. O protocolo de bio-segurança obriga a que não hajam visitas aos centros de reprodução. Além disso, esta é uma espécie muito sensível ao ruído e ao stress, e segundo apurámos, são tratados com um mínimo de intervenção humana.
Esta fêmea não nasceu em cativeiro. Chegou a Jerez em Janeiro de 2006, depois de ter sido recolhida na Serra Morena, bastante ferida. Com os tratamentos necessários conseguiu recuperar totalmente e hoje pesa cerca de 10 quilogramas. Nunca teve crias. Aliás, suspeita-se que a influência do ambiente urbano das imediações do Zoobotânico tenha contribuído para o insucesso.
Após a chegada, e um atraso que criou expectativa e nervosismo em todos os presentes, Azahar foi cuidadosamente introduzida numa área cercada com cerca de 8000 metros quadrados e várias estruturas para os linces se refugiarem e exercitarem.
Até ao final da semana, chegarão aqui mais 4 felinos. O último animal chegará no dia 1 de Dezembro, até totalizarem 16 linces.
Apenas alguns altos responsáveis de entidades oficiais portuguesas e espanholas puderam entrar no cercado para acompanhar os primeiros minutos do lince no Algarve. Antes, tiveram que esterilizar o calçado e vestir fatos de protecção para prevenir qualquer contaminação biológica para o animal.
À distância, o grosso dos jornalistas acompanhou tudo através de um computador que recebe imagens em tempo real das várias câmaras de videovigilância espalhadas pelo cercado.
Este é um dos instrumentos de trabalho indispensável para a bióloga Catarina Ferreira, 31 anos, responsável por estudar e monitorizar o comportamento dos linces. Os primeiros momentos de Azahar foram de agitação, pelo que deverá precisar de atenção especial nas 48 horas seguintes.
No total, trabalha aqui uma equipa jovem e muito especializada de 9 pessoas – 5 tratadores, 2 veterinários, 1 administrativa e uma bióloga. O director é Rodrigo Serra, 34 anos – um especialista em felinos ligado a este projecto ao longo dos últimos 5 anos.
Em relação à futura introdução do lince na natureza, Tito Rosa, presidente do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) diz que “não é possível dar uma data. Não basta libertar os animais. É preciso criar condições para que possam viver de uma forma auto-sustentável e para isso é preciso trabalhar muito”, avançou.
“Neste momento, há um estudo em curso coordenado pelo ICNB que analisa em várias áreas, factores como a disponibilidade de coelho bravo, e outras variáveis de forma a chegar a uma conclusão sobre que áreas serão as mais apropriadas”, adiantou Rodrigo Serra.
Existem quatro áreas onde o lince poderá vir a viver em estado selvagem, a maioria em zonas fronteiriças com Espanha – a serra da Malcata (Beira Interior), a serra de São Mamede (Alto Alentejo, distrito de Portalegre), a zona de Barrancos (Baixo Alentejo), o vale do rio Guadiana e aqui no Algarve, nas serras do Caldeirão e de Monchique.
“A principal condição é a existência de alimento. Outro é a vegetação. Finalmente, e muito importante são as populações que vão conviver de perto com o lince no seu território, embora não o vejam porque é um animal extremamente fugidio”, disse Tito Rosa. “Os caçadores devem aprender que o lince não é um competidor”, concluiu.
Mas antes, há vários desafios a vencer. A relação dos linces entre si, o novo meio e os novos tratadores vai demorar tempo. A reprodução também não é tarefa fácil. Tenta-se fazer os pares com base em critérios genéticos, mas é preciso que haja química entre os animais.
Em declarações ao nosso jornal, Rodrigo Serra gostaria que houvesse crias ainda este ano. Mas acredita que isso apenas acontecerá na próxima época reprodutiva, entre Janeiro a Julho.. A gestação desta espécie demora cerca de 2 meses, e atingem a idade de independência entre 7 a 10 meses. Podem viver até 16 anos. Na vizinha Espanha, existem 75 linces em cativeiro e cerca de 250 na natureza.
Recorde-se que este centro nasce para compensar os impactes ambientais da barragem de Odelouca, promovida pela «Águas do Algarve». Foi uma imposição da União Europeia para que se pudesse concluir esta obra que esteve suspensa durante três anos. Inaugurado em Maio passado, o centro está implantado numa área de 150 hectares, e custou cerca de 11,1 milhões de euros.








