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Associação Salvador apoia deficientes

A vida é para todos

Em Portugal, a grande maioria das pessoas portadoras de deficiência motora não possui os recursos financeiros necessários que lhes permitam ter uma vida com qualidade. Muitas, simplesmente porque necessitam de se deslocar em cadeira de rodas, vivem enclausuradas em suas casas devido à falta de acessibilidades sendo-lhes vedados direitos básicos de dignidade humana. Contudo, estas pessoas também sonham. Têm projectos de vida, objectivos e ambições que querem alcançar. É por isso que a Associação Salvador está a promover, até 18 de Novembro, a acção «Qualidade de vida». A ideia é apoiar financeiramente as iniciativas profissionais de quem não quer aceitar os preconceitos da sociedade. Salvador Mendes de Almeida, presidente e fundador desta associação, apresenta detalhadamente este projecto esta sexta-feira, 23 de Outubro de 2009, às 15 horas, no Centro de Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel. Vem ao Algarve porque uma das protagonistas recentes desta iniciativa é Elsa Ramos, fotógrafa, 33 anos, de Tavira, que venceu a edição de 2008. Conheça a sua história, que é afinal, um exemplo de coragem para todos.
Bruno Filipe Pires, Edição 598 (22 Out 2009), Sem Comentários »
Salvador Mendes e Elsa Ramos

O tempo parou num dos primeiros dias de Janeiro de 2004. Eram cerca das 13h20. Elsa Ramos não se lembra bem do que se passou. Ia almoçar com a família, quando o comboio lhe bateu violentamente no carro, mesmo à porta de casa, na Luz de Tavira. Consequência, ficou paraplégica aos 27 anos de idade.

Antes do acidente, Elsa já trabalhava há quase 7 anos em fotografia, uma paixão que se manteve sempre acesa.

“Desde que me lembro, sempre gostei de fotografia. Tive a minha primeira máquina aos 12 anos, uma 123 de cassetes. Fiz uma formação no Instituto Português da Juventude e comecei a trabalhar. Fazia trabalho de estúdio, atendia clientes, e fazia muitas reportagens”, conta.

Após a tragédia, passou os três anos seguintes de baixa médica, em tratamentos e fisioterapia de reabilitação.

“O meu patrão sempre me disse que queria que eu continuasse o meu trabalho. Mas quando chegou a hora de regressar, disse que não queria fazer obras”, ou seja adaptar o posto de trabalho às novas necessidades de Elsa.

“Não estava disposto a isso. Disse-me que se eu quisesse voltar ao trabalho, tinha de ir para lá como aquilo estava”, lamenta.

“A Segurança Social pagava-lhe as obras e ele teria regalias”. Ainda assim, o preconceito falou mais alto.

Um dia, uma médica do Centro de Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel, falou-lhe na Associação Salvador e no projecto «Qualidade de vida».

“De início, não acreditei muito”, confessa. Mas incentivada pela médica do Centro, acabou por achar boa ideia e candidatou-se.

A ideia era poder ter um estúdio de fotografia digital em casa, para conquistar a independência financeira que lhe foi negada. Já tinha ideia do que queria, um equipamento que rondava os 4000 euros. Fez uma candidatura e acabou por ganhar.

Passados seis meses de ter recebido o equipamento, Elsa já realizou várias reportagens de casamentos, baptizados e eventos sociais, trabalho que continua a fazer com gosto e profissionalismo.

Hoje considera que o maior obstáculo são os degraus de certas igrejas, mas com ajuda consegue ultrapassar as dificuldades.

A seu ver, os grandes problemas enfrentam-se no dia-a-dia. As acessibilidades são um enorme problema na maioria das cidades algarvias. “As pessoas que podem caminhar normalmente não reparam, mas é muito difícil para alguém em cadeira de rodas conseguir andar em qualquer rua. Estão cheias de buracos e carros mal estacionados”, lamenta.

Elsa Ramos, hoje uma jovem de 33 anos, não tenciona desistir. Actualmente está a frequentar um curso de multimédia na associação «Existir», em Loulé, que está a correr bem e que acredita ser uma mais valia importante para a sua actividade profissional.

Para 2009, o projecto «Qualidade de vida» tem uma verba disponível de 50.000 euros, podendo ser distribuída por uma ou mais candidaturas, em função do critério do júri (constituído por um médico, um psicólogo e um membro da Associação).

Destina-se a pessoas com paraplegia, tetraplegia ou com mobilidade reduzida que se deslocam em cadeira de rodas no seu dia-a-dia. Os candidatos podem pedir qualquer tipo de apoio, desde que fundamentem a necessidade do pedido, no seu projecto pessoal.

Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, explica as razões que levaram a associação a que preside, a criar esta iniciativa.

“Estamos constantemente a receber pedidos de ajuda financeira, o que é normal, porque as famílias passam dificuldades, porque a deficiência acarreta custos muito elevados. Não é política da associação ignorar estes pedidos, por isso, sentimos necessidade de criar um processo de candidatura que nos permitisse, de forma organizada, analisar os pedidos, e atribuir apoios, de forma justa, tendo em conta, por um lado as necessidades das pessoas, mas também a sua motivação para a mudança”, conclui.

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