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Como poupar e utilizar água no dia-a-dia?
Simples como a Água

O assunto é preocupante. “Estima-se que no futuro, dois terços da humanidade não terão água potável”, disse Francisco Ferreira, professor universitário e vice-presidente da «Quercus». Na perspectiva dos ambientalistas, em Portugal, “não estamos a usar bem a nossa água porque desperdiçamos demasiado”, considerou.
Uma ideia confirmada por Maria do Céu Almeida, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) que sublinhou a dificuldade em estudar objectivamente o uso da água no País. É difícil, porque os vários distribuidores nas regiões, usam diferentes estratégias para facturar e gerir a água.
Sabe-se apenas que, segundo dados genéricos de 1999, o uso urbano da água em Portugal destina-se em 43 por cento ao uso doméstico. A outra grande fatia - 40 por cento são perdas nas redes. Gasta-se 9 por cento em usos comerciais. Cerca de 6 por cento da água disponível nas cidades portuguesas é gasta para fins públicos.
Estima-se também que numa casa normal, entre 28 a 31 por cento do total de água consumida é gasta no autoclismo. A máquina de lavar roupa gasta entre 32 a 37 por cento e as torneiras gastam 16 por cento – segundo os números do LNEC.
Existe, contudo, um «Programa Nacional para o uso Eficiente da Água».
Foi criado em 2001 e aprovado oficialmente em 2005. Tem por objectivo, até 2015, racionalizar este recurso, mas por questões de ordem burocrática, está parado.
Por isso, está nas mãos de cada cidadão tomar a iniciativa. Como? Um exemplo prático é dado pelo projecto experimental «ecofamílias», que envolveu 10 famílias do Algarve voluntárias.
Começou em 2007 e ao fim de um ano, conseguiram uma poupança de cerca de 48 por cento nos seus gastos totais de água.
“Foi extremamente útil para perceber como é que as famílias usam a água e qual é o potencial de poupança que se pode ter. E também para percebermos como é que podemos mudar os comportamentos no futuro e implementar estratégias”, disse-nos Francisco Ferreira.
A «Quercus» quer agora continuar este projecto noutras zonas do País, e monitorizar também os consumos de electricidade e hábitos de mobilidade.
“A água continua a ser muito barata, e isso leva ao desperdício. As autarquias devem evitar as perdas, mas é fundamental que cada pessoa perceba que trocar o duche por um equipamento eficiente, faz toda a diferença”, considerou Francisco Ferreira.
No projecto «ecofamílias», a poupança foi possível graças à adopção de novos hábitos, mas também de equipamentos.
Por exemplo, chuveiros “economizadores” que debitam entre 6 a 7,6 litros por minuto, sem qualquer perda de conforto, em vez dos 12 a 15 l/m convencionais. Hoje, há no mercado redutores de caudal que se adaptam a qualquer torneira, a preço muito acessível.
Armando da Silva Afonso, da Associação Nacional para a Qualidade nas Instalações Prediais (ANQIP), sublinhou o trabalho que tem sido feito para a poupança de água.
Por exemplo, esta associação sem fins lucrativos tem estudado e certificado cerca de 70 a 80 por cento dos autoclismos que existem no mercado nacional para ajudar os cidadãos a escolher soluções mais ecológicas.
Ao longo do programa falou-se ainda de soluções para aproveitar a água das chuvas, e de alguns exemplos de boa gestão das redes municipais (controlo de perdas).
Por outro lado, o seminário também deu uma panorâmica do uso da água na região.
A engenheira Sandra Dias, técnica da «Águas do Algarve SA.», apresentou uma “Análise dos consumos de água para abastecimento público no Algarve”.
Actualmente, a região dispõe de uma rede moderna, chamada Sistema Multimunicipal de Abastecimento de Água (SMAAA), que fornece este bem a 15 municípios. O sistema é gerido pela empresa «Águas do Algarve S.A.»
Monchique ainda não é abastecido, mas prevê-se que esteja ligado ao Sistema já no início de 2010.
Actualmente, serve uma população que varia entre 3770 a 59160 habitantes por município. Contudo, a sazonalidade e turismo influenciam bastante a demografia da região. Assim, estima-se que a população total servida ronde os 400 mil na época baixa, e um milhão e meio de pessoas durante o Verão, no pico da época alta.
Actualmente, o Sistema abrange 2 centros de controlo de operações, 4 estações de tratamento de água (em Alcantarilha, Tavira, Fontainhas e Beliche).
A qualidade da água é constantemente monitorizada em 250 pontos ao longo do Sistema. Anualmente, são realizadas aproximadamente 125 mil análises a mais de 14 mil amostras.
Em termos de dimensão, o sistema abrange 450 quilómetros de condutas, 16 reservatórios (de 63 305 metros cúbicos), e 63 pontos de entrega (nome dado à infra-estrutura onde é entregue a água potável aos reservatórios municipais).
Só para se ter uma ideia, o SMAAA movimentou 69,217 milhões de metros cúbicos de água em 2007, e 68, 356 milhões de metros cúbicos em 2008. Nesse ano, o caudal médio diário (o volume de água a circular no sistema diariamente) rondou os 187 277 m3/dia.
Se olharmos os dados mais recentes disponíveis, referentes a 2008, é possível encontrar um consumo muito diferente nos 15 concelhos do Algarve.
O maior consumidor foi o concelho de Loulé, que Sandra Dias justificou, devido à sua dimensão geográfica.
Contudo, é também aqui que existem vários campos de golfe que podem contribuir para o colocar no topo da lista, consumindo 19 por cento da água. Logo a seguir, Albufeira consumiu 17 por cento da água disponível no Sistema em 2008.
O município de Alcoutim é aquele a que se fornece menor volume de água, apenas 0,2 por cento.
O SMAAA contabiliza até agora, um investimento de cerca de 240,3 milhões de euros estando ainda previsto realizar aproximadamente mais 68,9 milhões em obras e melhorias.
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ACTUALIZAÇÃO:
Água: basta de preços pouco claros
A revista PROTESTE analisou tarifários da água e volta a apontar assimetrias no País. A Associação Portuguesa para a Defesa Do Consumidor (DECO) apela a todos os portugueses para exigir tarifários e facturas da água mais transparentes.
Urge garantir preços mais justos e equitativos dada a disparidade de preços para o mesmo consumo, exige a publicação de defesa dos consumidores. As diferenças podem atingir os 200 euros anuais, para consumo igual. O cálculo do consumo é desigual, com escalões muito diferenciados e métodos de facturação que não contribuem para um uso eficiente da água.
É necessário cumprir a lei: as tarifas devem ser justificadas para se perceber o valor na factura. Por lei, é proibido cobrar pelo contador.
Entre os tarifários analisados, há entidades a cobrar uma tarifa fixa de abastecimento com várias outras designações, mas indexada ao calibre do contador, numa tentativa clara de contornar a lei.
Se, na factura, encontrar uma taxa fixa sem explicação prévia do valor, pode aderir ao protesto. Num clique, exija à entidade gestora um pedido de explicações. A DECO acompanhará as reacções. Para tal, envie a resposta da entidade à associação. Passe a palavra a amigos e familiares.
As entidades gestoras devem ser transparentes a divulgar o tarifário de abastecimento, saneamento e resíduos, insiste a DECO.
O recém alargamento do ex-IRAR, agora Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), para todas as entidades abastecedoras, é um passo positivo para uma maior e desejável harmonização.
Regras e métodos comuns em todo o País impõem-se. Só assim se conseguirá preços mais justos e equitativos assentes nos mesmos critérios de cálculo.
A ERSAR já emitiu uma recomendação a definir algumas regras (facturação progressiva em função do consumo, com número definido de escalões, por exemplo).
Mas é preciso ir mais longe: há aspectos a melhorar e tornar a recomendação vinculativa a todas as entidades gestoras, tanto às concessionadas já reguladas pela ERSAR, como a outras de gestão directa ou delegada.
É necessário ainda aprovar um verdadeiro regulamento tarifário.
Análise completa aos 45 tarifários (pdf)
A água algarvia analisada pela «Quercus»
“Um dos principais problemas que o Algarve tem, a nosso entender, é que se deixou contaminar vários lençóis de água subterrânea, com a sanilização e a poluição por nitratos, devido às actividades agrícolas.
Por isso, resolveu-se apostar em barragens. É uma aposta arriscada, porque os caudais variam muito e é difícil controlar a qualidade da água. Isso deve-nos fazer reflectir que houve um erro no uso das águas no Algarve nos últimos anos. Não se conseguiu preservar as águas subterrâneas e agora tem que se construir empreendimentos que têm sempre impactos ambientais e uma gestão nem sempre fácil”, disse Fernando Ferreira ao nosso jornal.
“Acho que actualmente o Algarve está focalizado nas duas barragens de Odeleite e Odelouca e não pode limitar apenas a essas soluções, que já são de recurso àquilo que seria desejável. Acho que é preciso trabalhar a longo prazo, na diversidade de soluções e em três frentes – o uso eficiente da água existente, recuperação dos aquíferos, e a gestão tão correcta quando possível das barragens que são o grande fornecedor de água para consumo humano”.







