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Edição 714
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Guillaume Leroux - Monte da Casteleja

A festa das vindimas

É novamente altura das vindimas… Finais de Agosto/princípios de Setembro é por tradição o período em que as vinhas de todo o Algarve se enchem de apanhadores de uvas e em que começa a azáfama nas adegas. Para os principais produtores da região, este é um ano especial. É a primeira vez que se vêem oficialmente representados no Guia dos Vinhos do Algarve, e que são celebrados no parque de exposições da FATACIL – Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria, ainda a decorrer até Domingo, 30, em Lagoa. Para a vinha da Quinta do Monte da Casteleja, refugiada de tudo e de todos, perto de Lagos, este ano é também o primeiro em que se pode dizer que os seus vinhos são verdadeiramente biológicos. Quando a colheita de 2009 for engarrafada e estiver pronta para seguir para o mercado (2011), os rótulos já terão finalmente o selo vinho orgânico pelo qual o seu produtor, Guillaume Leroux tanto lutou desde que plantou as suas videiras há nove anos atrás. Afim de assinalar este marco, e de viver em primeira mão a experiência de uma vindima tradicional em ambiente familiar – visitámos os trabalhos numa manhã quente de final de Agosto.
Natasha Donn, Edição 590 (27 Ago 2009), Sem Comentários »
Natasha Donn
A Vindima

07h30. Carros e carrinhas começam lentamente a chegar a esta quinta agrícola de três hectares, a pouca distância de Lagos. Neles é transportado o extraordinário grupo de voluntários de várias nacionalidades, que decidiu abdicar do seu Domingo para ajudar a família Leroux a colher a sua casta mágica especial. São desde alemães, franceses, uma cabeleireira sueca, dois artistas holandeses, um jovem casal espanhol, uma britânica, um jovem viajante neo-zelandês, membro do World Wide activities on organic farms (WWOOFer) – uma rede mundial de voluntariado ligada à permacultura - e até alguns americanos. Alguns já se conhecem, outros são velhos amigos – e uns não conhecem sequer uma única pessoa. Para Christine e Alexandra, ambas de Nova Iorque, “esta é uma experiência totalmente nova”.

Para mais tarde está reservada uma caneca de café preto de boas-vindas. Todos os recém-chegados recebem um balde e um par de tesouras para depois serem enviados em missão para a vinha solarenga. Debaixo de um céu azul brilhante, mais de um hectar de uvas esperam pela apanha. São as uvas desta casta “Bastardo” que são usadas para produzir os cada vez mais populares vinhos tintos Monte Casteleja. Na verdade, o “Bastardo” é uma casta antiga, mas em extinção por toda a parte devido à sua susceptibilidade à doença e à sua baixa produção. Porém, estas características potencialmente negativas não preocupam Leroux, pois sabe como lidar com as doenças e não está interessado em produzir uma grande quantidade de uvas.

“Estive anos a investigar a melhor forma e as melhores castas de uvas para utilizar aqui. Fiz disto uma paixão. Quero criar produtos únicos. Não me interesso pela quantidade, mas apenas por produzir vinhos com personalidade e com a qualidade que as pessoas procuram. Vinhos que mostrem o verdadeiro aroma algarvio”.

E ao longo destes cinco anos em que tem vindo a produzir vinhos na quinta que herdou dos avós, esta sua ambição tornou-se numa realidade.

“Todo o trabalho árduo está a ser retribuido”, confessa sorrindo a esposa e apoiante dedicada, Maria.

“Cada vez mais e mais pessoas aqui vêm para comprar os vinhos directamente a nós. E estamos bastante atarefados a abastecer as garrafeiras.

Como diz Maria: “se gostarmos de vinho biológico – tal como da comida biológica – faz mais sentido comprar “local”. Assim as uvas não têm que viajar e beneficiam do aroma da sua própria região!”

Ao longo dos mais de 14 anos em que tem estado casada com um produtor de vinhos, Maria tornou-se numa verdadeira enóloga. “Quando nos conhecemos pela primeira vez eu nem gostava do sabor do vinho”, brinca. “A pouco e pouco aprendi o significado de apreciar um bom vinho”.

Maria está encantada pelo facto do marido se ter tornado finalmente um verdadeiro produtor biológico. “Isso significa que podemos colher e comer as uvas directamente da videira”. Quando o sol aquece em plena vindima, alguns de nós provam as uvas e cortam os cachos com a tesoura.

Pelas 10h00, as uvas já não são a única coisa a derreter. O tagarelar animado do início da manhã abranda. Alguns cantam para si, outros limpam as sombrancelhas e suspiram. Mas que dia para se trabalhar ao sol!

Pouco depois das 13h00, vinte pessoas têm já mais de 3.000 quilos de uvas apanhadas. O que se traduz em cerca de 1.800 litros de vinho tinto. Foi uma manhã excelente – uma colheita recheada pouco habitual... e os voluntários mal conseguem deslocar-se até à mesa do almoço!

O ritmo desacelera. O trabalho árduo termina...é tempo para a parte mais divertida. Convívio, vinho, saladas deliciosas e um passo número dois antecipado: o esmagamento das uvas com os pés.

As crianças que até então estavam em baixo perfil, surgem agora para apreciar a comida e a atmosfera agradável à sombra. Alguns adultos dormem uma soneca, outros sentam-se em redor a contar histórias, trocando anedotas. Guillaume liga o tractor para transportar todas as uvas até a adega. “Lá dentro estão 35 graus...elas não querem ficar mais tempo ao sol!”, conta. As crianças aconchegam-se na parte detrás.

Os mais pequenos são os primeiros a irem para o lagar. De calças arregaçadas para cima, divertem-se com a sua nova carga de responsabilidades, enquanto Leroux começa a deitar as caixas de uvas para dentro da máquina, onde lhes serão removidos os caroços. A Maria chega em fato de banho com alguns CDs. Um dos convidados começa a usar um contentor de plástico como tambor para marcar o ritmo e o caos controlado do pisar das uvas torna-se num verdadeiro swing.

É assim que os meses de trabalho duro, os anos de experiência, e as tradições culturais tão antigos quanto a Humanidade se juntam de novo sob a forma de uma alegre celebração.

Os pés dos mais velhos enchem os outros lagares. As duas nova-iorquinas continuam a parecer como se tivessem acabado de entrar numa festa de celebridades, enquanto os recém-chegados convidados de Espanha olham toda actividade e animação com surpresa.

Foi um dia fabuloso. O pisar das uvas vai continuar assim por mais duas a três horas: esmagar as uvas, libertá-las do ácido tanino e a cor rica na pele.

“Não vou voltar a olhar para uma garrafa de vinho sem antes me lembrar de tudo isto”, diz sorrindo Christine, que deverá regressar a Nova Iorque no princípio de Setembro.

Uma experiência vinícola verdadeiramente memorável...

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