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Projecto Madrugada

Um bravo novo amanhecer

Madruga, uma palavra repleta de musicalidade, que significa o período de tempo imediatamente antes do nascer do sol: um bravo novo amanhecer, uma tela em branco onde tudo é possível. Foi este o nome escolhido para um projecto multicultural pioneiro concebido para ajudar todos os que no Algarve sofrem de doença limitadora. A ideia é apoiar as pessoas e as suas famílias e dar-lhes todas as ferramentas necessárias para enfrentarem o mais confortavelmente possível esse período difícil. A etapa número um da primeira fase inaugurou na passada semana, na Praia da Luz, perto de Lagos. Falamos com dois dos membros fundadores do projecto Madrugada e ficou a saber das razões muito humanas que estão por detrás desta ambiciosa iniciativa sem fins lucrativos.
Natasha Donn, 10 Jun 2009 02:00, Sem Comentários »
Natasha Donn
António José Marcela & Alison Blair

“Tudo partiu de uma senhora encantadora chamada Mo”, explicou a psicóloga progressista, Alison Blair. “Mo tinha uma forma de cancro bastante complicada e eu estava a ajudá-la nos aspectos emocionais, nomeadamente em como lidar com o problema – e foi então que me apercebi da dificuldade que existe aqui para os que sofrem de limitações e doenças graves. Têm tão pouca informação disponível – tão pouca ajuda voluntária a todos os níveis. Geralmente, as pessoas a quem se diagnostica uma doença grave ficam em estado de choque. Pois deixam de ter autonomia. Ficam a imaginar no que se irão tornar; por exemplo, existem algumas alternativas ou serviços complementares aos prestados pelos hospitais e pelo estado? Este pode ser um período bastante traumático. E, neste caso em particular, quando informaram Mo do que basicamente era, já nada podia ser feito. E apercebi-me que o Algarve necessitava de um centro de cuidados paliativos, de um refúgio onde os doentes em fase terminal pudessem ser tratados com dignidade, na companhia da sua família – e até dos seus animais de estimação se quisessem”.

António José Marcela, um empresário de Lagos, era patrão e amigo de Mo. A sua ligação a esta causa prende-se com o facto de ter visto dois dos seus tios sofrerem de formas de cancro violentas. Um deles está actualmente em fase terminal, em casa. Ficou sem o maxilar, que a doença levou e tudo o que recebe do estado são atenuantes para dor.

“É terrível”, considera António José. “Quando tudo isto começou, levámo-lo até Lisboa para fazer tratamento – na altura só tinha uma mancha no queixo, mas depois fizeram-se todos os exames, etc. Três meses depois já nada podia ser feito. Fiquei tão frustrado. Quis saber mais sobre o que estava a acontecer, sobre o que podíamos fazer, mas parecia que os médicos nunca estavam disponíveis. Acabei por aprender um pouco mais através da Internet – mas a situação de ter o meu tio em casa, tão doente, a pesar menos de 40 quilos e incapaz de falar e comer, é tão desesperante.”

Em Novembro passado, quando Mo faleceu, António José Marcela e outros amigos – partindo da ideia de Alison Blair de criar um centro de cuidados, fundaram a Associação Madrugada. Em Fevereiro deste ano, surgiram com um manifesto, um esboço do seu projecto em duas fases e já tinham um sem número de profissionais dispostos a contribuirem com a sua especialidade.

“Está tudo a acontecer tão rápido”, diz Marcela, sorrindo. “E esse é um sinal muito bom. Estamos em processo de candidatura ao estatuto de caridade, como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), e no dia seguinte a ter apresentado os papéis recebi uma chamada da Segurança Social a dizer “ excelente ideia, boa sorte”.

E com o passar da palavra, outros profissionais de saúde também começam a oferecer os seus serviços.

“Temos dois especialistas locais em cuidados paliativos e teremos também outro de Lisboa, juntamente com uma enfermeira em oncologia e uma enfermeira estagiária altamente qualificada, acrescentou Marcela. “É uma experiência excitante – estamos a entrecruzar culturas. Este lugar será para todos – não apenas para um idioma, não apenas para uma só mentalidade. Este trabalho tem que ser feito”.

Com experiência em vários ramos de negócio, Marcela tem consciência do número de profissionais necessários para satisfazer os requisitos burocráticos. “Continuamos à procura de pessoas para fazerem parte do chamado “Conselho Fiscal”. Creio que o que precisamos é da ajuda de um director financeiro de uma empresa portuguesa”.

Ávida crente no poder da visualização positiva, Alison Blair está mais do que confiante de que esta ajuda virá.

E a chave para a concretização de toda a ideia é o terreno – que precisa ser doado.

“De preferência, um hectar – algures num local agradável e pacífico, mas com bons acessos, acrescenta.

Um edifício (sem quaisquer custos) na Praia da Luz, já foi cedido ao grupo para fins administrativos e a loja de caridade do projecto abriu muito recentemente, e está prestes a reunir fundos para financiar o futuro centro de aconselhamento.

“Este é o primeiro grande passo de uma longa jornada”, explicou Alison. “Assim que tivermos fundos, poderemos começar a oferecer serviços: enfermagem ao domicílio, dieta e aconselhamento complementar, etc. Estamos a falar de um novo começo para as pessoas – estamos a abrir um novo dia aqui!”

Para mais informações sobre esta iniciativa que segundo salientam os organizadores “estará acessível a todos”, visite o sítio online da associação Madrugada em: http://www.madrugada-portugal.com, e-mail: info@madrugada-portugal.com, ou telefone 964951570.

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