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Um problema da pesca no Algarve
Pescar... para vender ou deitar fora?

“As rejeições acontecem em todas as artes. É impossível apanhar apenas o que se pretende. Existem muitas espécies que não tem interesse comercial e por isso são logo rejeitadas. Outro problema tem a ver com o tamanho. Muitas vezes, são capturadas espécies que não têm dimensão legal para serem comercializadas e também são rejeitadas. Isso é um grave problema porque vai interromper a renovação de stocks”, explica Sónia Olim que anda há 11 anos a investigar o problema das rejeições na costa algarvia. Um percurso que iniciou em 1998, no grupo de investigação «Biopescas» (Biodiversidade nas pescas) coordenado pela professora Dr.ª Teresa Cerveira Borges.
As primeiras conclusões do grupo indicam que das mais de 900 espécies capturadas pelas principais artes de pesca a actuarem no Algarve, cerca de 69 por cento são sempre rejeitadas, e 27 por cento são frequentemente rejeitadas. Na altura, os investigadores ficaram surpreendidos com a riqueza biológica das águas algarvias. E em 2007 editaram um livro, onde são identificadas 300 entre cerca de um milhar de espécies que mais frequentemente são rejeitadas pelos pescadores. Antes destes estudos, pouco ou nada se sabia sobre este assunto.
Desde 2007, Sónia Olim desenvolve o seu doutoramento com o tema “Estudo Bio-sócio-económico das capturas acessórias e rejeições no arrasto de Crustáceos na costa do Algarve”. Ou seja, foca a sua atenção numa das artes de pesca mais problemáticas e devastadoras da actualidade.
“A maior parte desta frota vem de Aveiro e opera ao largo do Algarve. Actualmente, estes barcos podem ficar até 2 dias no mar. São obrigados a fazer uma paragem de 6 a 8 dias, mas tirando isso estão sempre a pescar. Saem de madrugada, regressam, descarregam e voltam a sair. São embarcações de 20 a 30 metros, muito modernas. Não é uma pesca artesanal. É industrial. Estamos a falar de barcos muito modernos, com 5/6 anos, com radares, sonares, comunicações, e todos os meios”, diz.
A bordo, Olim tem observado a maneira de operar. “Trabalham por lances, que é uma operação de pesca. Um lance começa a partir do momento em que a rede é lançada até ao que é recolhida. Cada lance pode ir de 6 a 12 horas. O barco está sempre em movimento. Com o tempo, a rede vai ficando cheia, capturando o que os pescadores querem - a gamba, o camarão vermelho e o lagostim - e o que não querem também”, diz.
“Tudo o resto que vem na rede é chamado captura acessória. Se o peixe for bom e de qualidade, aproveitam e vendem uma pequena quota. Mas maioritariamente, tudo o resto é deitado fora – desde várias espécies de estrelas-do-mar, equinodermos, muitas espécies de tubarões, raias, e grandes quantidades de outros crustáceos que não são comercializáveis”, diz.
Quando a rede de arrasto é recolhida, a separação do que interessa é feita a bordo pelas mãos hábeis dos pescadores. “É lógico que a captura depende da profundidade, que vai entre os 200 e os 800 metros de profundidade. A pesca não é uma ciência exacta. Há lances em que tudo corre muito bem e 60 por cento da captura é aproveitada. Enquanto que noutros, a situação inverte-se”, diz.
Segundo a investigadora, em certos anos, cerca de 80 por cento do arrasto de crustáceos era simplesmente jogado fora. Quais as consequências para o ambiente?
“Em termos de estudos, existem muito poucos. Mas o que nós sabemos é que estamos a alterar a cadeia trófica. Estamos a enviar para o fundo muitos organismos mortos”. No arrasto, “o que chega à superfície vivo é muito pouco. E a probabilidade de regressar ao mar com vida é ainda menor. É como se estivéssemos a semear o fundo do mar com espécies já mortas. Estamos a mexer com o equilíbrio de um ecossistema”.
“Na minha opinião, isto é uma coisa má. Estamos a beneficiar espécies necrófagas, como os crustáceos. Mas haver mais alimento disponível não significa que hajam mais crustáceos, porque estão a ser pescados ao mesmo tempo”, considera.
“Nesta fase do meu estudo, o que posso dizer é que realmente as rejeições são muito elevadas. Existe uma mortalidade muito grande, quer de organismos comerciais, quer de não comerciais”, diz.
Contudo, o problema pode ser minimizado. “No norte da Europa, este tipo de estudos são considerados prioritários. Há países em que é proibido deitar seja o que for para o mar. Tudo aquilo que é capturado, independentemente de ser comercial ou não, tem que ser trazido para terra. Isto permite ter uma contabilização correcta dos recursos naturais. E não há desperdícios”.
“Na Noruega, onde há problemas com as tartarugas e cetáceos (golfinhos, baleias), todas as embarcações de arrasto tem dispositivos para reduzir as rejeições. São obrigatórios. Desta forma, conseguem optimizar todo o processo. Reduziram as rejeições, e aproveitam tudo o que é capturado, por exemplo, para a indústria das farinhas de peixe e rações alimentares”. Ou seja, existem oportunidades de negócio até para o que é rejeitado.
Então, por que não se tomam medidas semelhantes em Portugal? “Não é apenas uma questão legal. É um problema mais complexo. Se calhar há um pouco falta de interesse. É uma questão de visionismo, de sensibilidade. Repare, não se ouve falar em rejeições. É um assunto que é pouco estudado, é pouco divulgado. Quer queiramos ou não, a opinião pública preocupa-se apenas com aquilo que conhece”, conclui.







