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Altos & baixos

Descubra a Via Algarviana (IV/IV)

Não existe método melhor para perder algum peso que a Via Algarviana. Esqueçamos de tudo com que a publicidade nos ilude sobre esse tema e que só nos faz gastar dinheiro desnecessário. Caminhar é a cura mais natural, saudável e barata para escapar do beco sem saída da civilização, com todas as suas tentações. Com a movimentação das pernas, inicia-se a redescoberta do meio de deslocação mais lento, desde a invenção da roda. Com uma caminhada nasce um ritmo - de três, quatro ou cinco quilómetros por hora. E além disso, a cor verde contribui para o bem estar profundo e para o nosso restabelecimento: o verde sossega a mente, cura a hipertensão arterial e conduz o corpo e a alma de volta à serenidade. Caminhar é uma das melhores terapias para trazer os banqueiros stressados, os gerentes com esgotamento e os políticos hiperactivos de volta à vida real.
Uwe Heitkamp, Edição 575 (14 Mai 2009), Sem Comentários »
Uwe Heitkamp

Quem deseja percorrer os 340 quilómetros da Via Algarviana, pode fazê-lo de seguida. E para tal necessitará dentre 13 a 14 dias. Porém, também é possível completar todo o percurso em pequenas etapas diárias, aos fins-de-semana e feriados. Quem aproveita para fazer esta travessia durante as suas férias; quem vem do estrangeiro e não domina a língua portuguesa, deverá procurar um guia que tenha talento para as línguas, ou então juntar-se a um grupo, para não ficar a morrer de fome no final de um dia, ou para ter a certeza de que encontra alojamento. Pois o interior algarvio têm conseguido até agora resistir, bem sucedidamente, à doença do turismo: poucas estradas alcatroadas, escassos hotéis e restaurantes.

Diário: Mas a Via Algarviana também apresenta pontos fracos. No 11º dia de caminhada chego a Bensafrim, uma pequena aldeia do concelho de Lagos, por uma estrada muito movimentada. Aqui, quem vem da natureza, irá sentir-se pela primeira vez verdadeiramente em stress. O trilho estreito vai desembocar numa estrada nacional (alcatroada): autocarros, automóveis, camiões, são encontros indesejados. Depois surge a autoestrada e a chuva. Nas proximidades não existe nenhuma árvore para servir de abrigo, apenas asfalto e betão por toda a parte. Que alternativas existem nesta situação? O melhor abrigo é debaixo da ponte. Aí se aguarda que a chuva pare. Dias antes vivi uma experiência semelhante, em São Bartolomeu de Messines, concelho de Silves. Foi sair da natureza e entrar no caos do mundo dos nossos motores e gases poluentes. Messines e Bensafrim são pontos absolutamente fracos da Via Algarviana. Por isso, ainda bem que são apenas eles as excepções...

Regiões diferentes, diferentes costumes. Conhecer o interior do Algarve a pé é um verdadeiro desafio e em si uma controvérsia. Pois o turismo existe apenas no litoral. Embora a região esteja emergentemente dependente dos turistas e sobretudo porque se dedica de alma e coração ao turismo, trata muitos dos seus visitantes que trazem dinheiro, como uma vaca que se ordenha para retirar o leite e que depois é remetida simplesmente a um canto, no esquecimento. Uma oferta agradável de hotéis e restaurantes com uma boa relação qualidade-preço, a par de um serviço simpático e profissional – é o que muitas das vezes os visitantes procuram em vão no Algarve. Será porque a maioria das pessoas perdem a vontade de trabalhar por salários que rondam os 700 euros? O litoral, nas zonas de Vilamoura, Albufeira, Armação de Pêra, Praia da Rocha, etc, foi convertido em autênticos palácios de betão. A Via Algarviana poderia tornar-se numa verdadeira alternativa, em pura oposição à oferta massiva das operadoras de turismo Neckermann, TUI, Olimar, Thomas Cook, Thomsons e First Choice. As caminhadas nas férias são um nicho para as pessoas que querem retornar à natureza – e que por isso evitam o litoral betonizado como quem foge da peste. Os habitantes também não estão dispostos a pagar preços astronómicos por uma cama e um pequeno-almoço, em crassa oposição aos rendimentos na região.

Diário: tão depressa quanto a ponte da autoestrada, em Bensafrim desaparece do campo de visão, retorna-se à natureza. Caminho por uma floresta de sobreiros, que só foi cortada há três anos. A natureza transforma-se numa floresta maravilhosa; à direita e à esquerda troncos nodosos cresceram oblíquos. Sigo por um pequeno trilho encoberto por carvalhos que fazem sombra. Cheira a cogumelos e a musgo. O matagal está limpo dos arbustos que se incendeiam como pólvora; prevenção de incêndios. Pequenos sobreiros crescem entre os grandes; árvores centenárias tem entre si plantas jovens que acabam de brotar dos carvalhos. São florestas raras no Algarve. A caminho do Barão de São João encontro uma das melhores pensões de toda caminhada: a Pensão Monte Rosa.

14 dias de caminhada aproximam-se do fim. Iniciada em Alcoutim, na fronteira com Espanha, os primeiros cinco dias de caminhada atravessam o tranquilo, mas selvagem sotavento algarvio; os concelhos de Castro Marim, Tavira e Loulé. São subidas e descidas permanentes. Outro verdadeiro ponto alto é a passagem de Cachopo, por Alcaria Velha até ao Barranco do Velho pela ribeira de Odeleite. Depois, o cenário da Serra do Caldeirão transforma-se para dar lugar às suaves colinas de Salir e Alte. Chega-se às barragens do Funcho e do Arade no concelho de Silves. Daí caminhamos para o interior da Serra de Monchique. Sobe-se e sobe-se, também em direcção ao tecto do Algarve: o cume da Picota e depois a Fóia (900 metros de altitude). Encontramos rebanhos de ovelhas e cabras, vacas selvagens que pastam aqui e ali, cães que ladram para nós e águias que fazem o seu círculo, lontras, raposas, javalis e muitos outros animais, e também pessoas que vivem a sua vida sem pressas: sem horários, sem prazos, sem telemóveis e sem automóveis. Um mundo que mostra o modo de vida tradicional: a agricultura e o artesanato. A caminhada termina abruptamente no Cabo de São Vicente. As ondas do atlântico rebentam ao alto; as rochas são íngremes. Quilómetros e quilómetros de praias vazias na Primavera. Aí, onde se ergue o mais potente farol de Portugal, termina o velho mundo. A caminhada é a meta!

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