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Os primeiros passos

Descubra a Via Algarviana (I/IV)

Quem faz uma viagem, tem muito que contar. Mas por onde começar? Fazer a travessia do Algarve a pé, de nordeste a sudoeste em 13 dias, é uma viagem absolutamente invulgar. E contra as forças do tempo. Alguns dias antes de nós, um grupo de 24 caminhantes da associação ambiental «Almargem», 44 pessoas em bicicleta, e outras dez a cavalo partiram para a Via Algarviana - a rota pedestre que começa em Alcoutim e termina no Cabo de São Vicente. Nós os três - Laila, Sara e Uwe – aproveitámos as férias da Páscoa para percorrer em conjunto os cerca de 340 quilómetros desta travessia. Para o autor desta crónica, é a segunda caminhada desde 2008.
Uwe Heitkamp, Edição 572 (23 Abr 2009), Sem Comentários »
Uwe Heitkamp
Hugo Stumpf e Sara Pittalis

Ás vezes era fácil. Em algumas situações críticas, em que não havia sinalização, seguíamos no encalço dos excrementos dos cavalos. No décimo dia de caminhada, a sul de Marmelete, no concelho de Monchique, estes vestígios conduziram-me até o deserto de uma “floresta” de eucaliptos – que nem sequer se pode chamar de floresta. Os proprietários das terras começaram a arrancar as raízes dos eucaliptos – a cortar o mal dos incêndios pela raíz. Mas norte da Mealha, deparei-me com quilómetros e quilómetros de novas plantações de eucaliptos.

As pessoas têm má memória. Em Agosto de 2003, um incêndio vindo de Casais e alimentado por uma floresta de eucaliptos, alastrou-se rapidamente a Marmelete e a Aljezur. No espaço de poucas horas, as chamas atingiram proporções gigantescas, de mais de 30 quilómetros até Aljezur e Odemira. Centenas de habitações foram queimadas. E apesar disso, ainda hoje, em Marmelete existe apenas um carro de bombeiros, e inúmeros novos bosques, repletos de jovens eucaliptos. Em pleno trilho deparei-me com um depósito de árvores cortadas. À direita e à esquerda, encontro metros e metros de troncos empilhados. Deixaram as caixas que traziam os cerca de 8.000 jovens eucaliptos a meio da rota, bem como os sacos cor de laranja dos adubos químicos. Mais parece uma lixeira. Começa a chover. Visto a minha capa de chuva e continuo a caminhar. Em Monchique governa-se contra a natureza.

Quem quer conhecer o verdadeiro Algarve, ou melhor, ficar com uma imagem real do estado em que se encontra a nossa região, que tire 14 dias do seu tempo para percorrer a antiga rota peregrina de Alcoutim ao Cabo de São Vicente. No concelho de Loulé, entre Salir e Alte, o caminhante encontra uma população de sobreiros, oliveiras e alfarrobeiras centenárias. Um cenário maravilhoso, que forma uma espécie de guarda de honra e que nos impressionou no sábado de Páscoa. Encontrámo-nos com Hugo Stumpf, o pioneiro do turismo no Algarve. Apesar dos seus 70 anos de idade, percorreu facilmente connosco os 17 quilómetros de Salir a Alte.

Stumpf integra o pequeno grupo de amantes locais da natureza, que conhecem tão bem os caminhos de Santiago de Compostela como a Via Algarviana. A Primavera dá-nos a conhecer um mar de ervas e flores: giestas amarelas, lavanda com as suas pétalas azuis, lírios cor de rosa, o verde da hortelã, tomilho, rosmaninho e orquídeas selvagens. São umas férias maravilhosas para os olhos e também para o nariz. Da Via Algarviana emerge um aroma inigualável: o perfume forte e ligeiro, doce e acre, selvagem e dócil da natureza persegue-nos dia e noite.

A Via Algarviana proporciona também várias melodias para a alma e os ouvidos: o rouxinol embala-nos no sono. De manhã, o ruído do cucu anda de árvore em árvore e acompanha-nos. As cotovias e poupas vêm sempre ao nosso encontro com o seu cantarolar. Abril e Maio são geralmente os melhores meses do ano para se descobrir o verdadeiro Algarve. É a época em que as andorinhas construtoras – especializadas em ninhos de barro – constroem os seus ninhos tanto horizontais como verticais por debaixo das telhas das casas.

No segundo dia da nossa caminhada, a meio de uma manhã de calor, encontramo-nos ainda a nordeste do Algarve e atravessamos a Ribeira da Foupana, em Palmeira, na fronteira entre os concelhos de Castro Marim e Alcoutim. Colocamos os nossos sacos a um lado, despimos as calças e tomamos um banho refrescante nas águas claras da ribeira. À tarde chegamos à pequena aldeia de Furnazinhas. A Casa do Lavrador oferece uma cama para pernoitar ao caminhante. Aqui, onde os poucos habitantes ainda praticam a agricultura tradicional, não existe nenhum minimercado, centro comercial ou restaurante. Em Furnazinhas, os habitantes vivem principalmente da criação de animais: cabras, ovelhas, porcos, galinhas, bem como do que cultivam: batatas, feijões, milho, cenouras, tomates, pimentos, alho. Encontramos sobretudo uma população idosa. O êxodo rural é um tema actual. A maioria dos jovens quer viver na cidade. Esquece-se da alimentação saudável e natural: pois o leite já não tem origem nas vacas, mas nas estantes dos supermercados, e a electricidade vem das tomadas.

Saiba mais na próxima semana sobre a nova travessia da Via Algarviana.

Via Algarviana II/IV - Onde pernoitar – o que comer?

Via Algarviana III/IV - O equipamento indispensável

Via Algarviana IV/IV - Altos & baixos

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