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Happy Dog Center

Hotel para cães

Numa altura em que hoteleiros se queixam da crise e de quebras nas receitas, há quem veja luz ao fundo do túnel. Basta encontrar a clientela certa para ter sucesso. É assim que Afonso Horta, 28 anos, explica o investimento de mais 45 mil euros num nicho de mercado ainda pouco explorado no turismo algarvio - um hotel para cães.
Bruno Filipe Pires, Edição 571 (16 Abr 2009), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires
Afonso Horta

Numa zona rural próxima de Alcantarilha, o Happy Dog Center disponibiliza “quartos” individuais, actividades de lazer, alimentação e actividades de exercício físico. Segundo este jovem empreendedor, a ideia é que os hóspedes de quatro patas passem uma agradável estadia durante a ausência dos donos. Aqui não há época alta, e os preços são iguais durante todo o ano.

Imagine que precisa de viajar, passar uma temporada noutro país, em lazer ou negócios. Onde vai deixar o seu amigo canino de estimação? Terá o seu vizinho coragem para cuidar do seu cão de guarda, pouco dado ao convívio com estranhos? São questões normais e pontuais na vida de qualquer pessoa que tem um cão. E cuja solução pode ser um problema complicado.

“O projecto envolve um hotel e uma escola. São duas coisas distintas. A parte do hotel tem a ver, sobretudo com a comunidade estrangeira residente no Algarve. Isto é, pessoas que têm maior mobilidade e precisam de viajar entre países com frequência. Por exemplo, pessoas que viajam a Inglaterra, Alemanha e Holanda duas, três ou mais vezes por ano. Muitas vezes, têm em suas casas, cães de grande ou médio porte que fazem companhia e guarda”, explica.

“Cada vez que precisam de se ausentar, têm dificuldade em encontrar alguém devidamente habilitado para lidar com estes animais. É sempre uma situação complicada de gerir, e traz alguns riscos”. “Portanto, pensei em criar um serviço para responder a esta necessidade”, conclui.

Por outro lado, o hotel também se destina aos veraneantes portugueses que gostam de passar as suas férias no Algarve. Se o alojamento não aceitar a presença de animais, podem ficar aqui durante a estadia. E até receber a visita dos donos. “Sim, essa situação aconteceu agora durante as férias da Páscoa. Apareceram aqui pessoas de Lisboa e de Setúbal, que vieram cá passar uma semana e preferiram trazer o cão. Sabem que está próximo deles, e ficam mais tranquilos”, diz.

Afonso Horta estudou Antropologia em Lisboa e não pensou de início, dedicar-se à gestão hoteleira. Mas a ideia foi germinando. “Trabalhar ao ar livre com animais é algo que sempre me interessou”. Além disso, ao longo dos estudos académicos, aprendeu teoria sobre a interacção social dos animais. Paralelamente na capital, frequentou também, uma escola de treino de cães.

Assim, a ideia ganhou forma num terreno que este jovem de Faro possui no concelho de Silves, próximo da estrada da estação ferroviária de Alcantarilha. Começou as obras em Agosto passado e está quase tudo pronto para funcionar a cem por cento.

Aqui há uma pequena recepção para os hóspedes. Os critérios de admissão são simples. “Aceitamos todos os cães, desde que não venham com doenças transmissíveis e que ponham em perigo os outros, nem com agressividade”, explica.

O hotel tem capacidade para 15 hóspedes. “Existem maiores, para 50/60 cães. Mas achámos que isso é uma vertente industrial. Preferimos ter qualidade e receber menos”. Ou seja, Horta defende um conceito equivalente ao que seria um hotel rural, no mundo humano. “Sim, é o número ideal para pudermos passear os cães à vontade, e não ter aqui uma grande confusão”, brinca.

A taxa média de ocupação, até aqui tem sido uma média de 6, 7 animais por semana. Tal como numa unidade para gente, cobra-se uma diária. Custa €15 e inclui alimentação e todos os tratamentos, como os passeios várias vezes ao dia, adequados à idade e à forma física do animal. Para além de Afonso Horta, trabalha aqui a tempo inteiro a austríaca Veronika Fischereder, que soma uma vasta experiência em trabalhar com cães.

“O ideal é que as pessoas tragam alguns objectos com o cheiro dos donos. Isso é muito importante para acalmar o cão durante a estadia. E se possível, que o tragam antes da estadia para nos conhecerem e ao espaço”, explica.

Por outro lado, Afonso Horta também é treinador, e daí a vertente da escola, que tem tido muito êxito. Que procuram os donos? “Tudo depende muito da nacionalidade. Os portugueses, geralmente, querem o cão melhor comportado. Mas muitas vezes só cá vêm quando o cão é um desastre. Isto é, quando já mordeu em alguém, quando está incontrolável, ou quando destrói a casa toda. Para os portugueses, o treino é o último recurso”, explica.

Porquê? “Na minha opinião é uma questão cultural”. Até recentemente, em Portugal, “quem treinava cães sobretudo em Portugal eram as forças policiais e militares. Era uma forma agressiva e violenta de treinar”. Por outro lado, o cidadão comum, cultiva o laxismo. “Para muita gente, a relação com o cão é sem regras, não tem os mínimos de boa convivência”, lamenta.

Contudo, agressividade e outros problemas, têm solução. Horta recomenda que sejam os donos, sob sua orientação, a treinar os próprios cães. “É uma questão de melhorar a comunicação entre ambos”. Há vários programas para diferentes objectivos.

E o cão ainda é o melhor amigo do homem? “Sei que é o animal que melhor se molda à nossa personalidade. De repente, nós humanos passámos a viver em apartamentos, num mundo moderno. O cão tem uma enorme capacidade de se adaptar, e se for educado, pode viver connosco em qualquer situação”, conclui.

E medo da crise? “Não. Há muitas pessoas que têm uma relação especial com os seus cães e por isso vão sempre recorrer a um serviço onde saibam que os animais estão em boas mãos”, considera. “Além disso, quando se cria o próprio negócio, trabalha-se melhor e com outra dedicação”, conclui.

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