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Ana Cristina Oliveira

Um palco chamado Algarve

Palavras, palcos, sonhos e filosofias são a essência de Ana Cristina Oliveira (Lisboa 1963). É professora, dramaturga, actriz e animadora teatral. Para além das aulas, coordena o grupo de teatro escolar «Tapete Mágico». Publica com regularidade críticas à actualidade cultural do Algarve e ainda arranja tempo para escrever textos dramáticos. No Sábado, dia 14 de Março, apresenta na Biblioteca Municipal de Faro, o seu mais recente livro «Segredos do Levante» - uma colecção de peças para um palco chamado Algarve.
Bruno Filipe Pires, 12 Mar 2009 01:00, Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

Não são segredos, mas sim quatro peças que Ana Cristina Oliveira imaginou. Em comum, têm o facto de falarem sobre o Algarve. Não a região turística e sazonal que conhecemos hoje, mas um lugar cujas memórias se perdem no espaço e no tempo.

O livro “é um projecto que já tinha há alguns anos. Escrevi o meu primeiro texto para teatro em 1994 para a associação «Ideias do Levante» de Lagoa. Na altura, queríamos fazer uma coisa nova. E estava a nascer o projecto do parque do Sítio das Fontes de Estombar.

É um sítio de muitas lendas, e eu e os outros sócios, fomos lá recolher histórias de moleiros que por ali viviam”, recorda.

“Além disso, temos no Algarve a mitologia das mouras encantadas, que sempre me fascinou, e que quisemos associar ao texto. Assim nasceu a peça «Memorial do Moleiro»”, que inaugurou o teatro amador da associação «Ideias do Levante» e abre o livro.

Depois desta primeira experiência na escrita dramática, em 1995 foi ensinar Filosofia para a Escola Secundária Pinheiro e Rosa em Faro. Para além das aulas, encontrou gente e vontade para fundar um grupo de teatro – ambos material fértil para a criatividade.

“Desde então não tenho parado de escrever. Sobretudo para os meus alunos. E agora achei que seria oportuno compilar todas essas peças, para ficarem disponíveis para outros grupos de teatro escolar poderem trabalhar”, revela.

Tudo nasce com uma ideia e bastante pesquisa histórica, até porque se tratam de peças com carácter pedagógico. Mas há ainda um cunho pessoal, uma marca, algo transversal.

“Diria que as personagens femininas se destacam claramente”, diz.

Os cenários dos seus textos são Lagoa, Portimão, Lagos e Faro. Em cada lugar, numa determinada época histórica, há um drama no feminino.

“Há a história da Joaninha, uma mulher que se suicida porque o marido, um moleiro de Estombar, não tem tempo para ela. Há uma mulher de Lagos que não quer que o marido parta para a Índia no tempo dos Descobrimentos. Há ainda a Maria Adelaide, que é uma jovem que foi amigada com um grande senhor da terra e passa a vida à espera que ele a assuma como esposa. Há a história de duas freiras que fundaram um convento com a ajuda de uma Rainha”, considera.

Para além da escrita original, Ana Oliveira tem-se interessado pela realidade cultural da região. Recentemente, publicou o estudo «Meio Século de Teatro no Algarve – uma viagem pelo teatro da região de 1960 a 2006».

Uma investigação que para além dos factos, lhe ensinou várias lições. “A maioria das pessoas que chegam ao Algarve julgam que não há nada. Isso não é verdade. Se calhar não se fala o suficiente daquilo que existe e daquilo que existiu. Foi isso que me motivou para querer saber mais”, diz.

“Verifiquei que a partir de 2000, nasceram quase duas dezenas de grupos de teatro, fruto de vários contextos, e também do público universitário que veio estudar para o Algarve, com muita vontade de fazer coisas criaram novos grupos. Alguns ainda estão no activo”, diz.

Contudo, hoje, não esconde alguma desilusão. “Já tive mais esperanças relativamente ao estado do teatro de hoje em dia. No fundo, há quatro companhias profissionais, embora a ACTA seja a única estrutura com um financiamento e uma organização que permite dar trabalho a 15 pessoas. Os outros não têm ainda meios para prestar esse serviço”.

Por outro lado, a nível amador acha que “é preciso que haja mais interacção, mais iniciativas conjuntas de formação e de intercâmbio de ideias”, diz. “Há uma rede de solidariedade interessante quando algum grupo precisa de adereços ou material. Contudo, acho se há mesmo amor pelo teatro, acho que é preciso haver mais co-produções, haver uma circulação mais dinâmica entre vários grupos”, diz.

Esta não vai ser a última edição. “Tenho uma gaveta cheia de textos que escrevi ao longo dos últimos 15 anos, em diversos contextos. Por exemplo, utilizei o teatro para fazer chegar aos alunos os conteúdos filosóficos, de uma forma mais orgânica. Outros, foram até convites e encomendas. Recordo que o Instituto Português da Juventude me convidou para desenvolver um projecto sobre sexualidade na adolescência. Acho que deveriam também estar editados e disponíveis como ponto de partida para outros grupos utilizar. ”

«Segredos do Levante» será apresentado pela historiadora Graça Ventura e terá a participação do Grupo Coral «Outras Vozes».

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