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Grandes superfícies versus lojas tradicionais

Comércio tradicional, que futuro?

É um cenário diário. Mesmo em tempo de crise, filas de carros e pessoas fazem romaria aos hipermercados do Algarve. Ao mesmo tempo, as principais ruas do comércio da maioria das cidades algarvias definham, cada vez mais desertas. Lojas vazias, montras fechadas, papéis a dizer “vende-se”, “trespassa-se” e “aluga-se” confirmam a agonia do comércio tradicional. Efeitos da actualidade económica, ou de toda uma profunda crise de valores? Na verdade, o que levou as pessoas a voltarem costas às lojas de sempre? Que rumo para uma actividade que, segundo dados da ACRAL, emprega 26 por cento da mão-de-obra da região? Fomos à procura de respostas.
Bruno Filipe Pires, Edição 559 (22 Jan 2009), Sem Comentários »
Carlos Paiva
O Estacionamento fácil e gratuito, a concentração e variedade de produtos e serviços são o argumento forte das grandes superfícies.

O desânimo pode ser geral. Mas não é certamente para todos. Começamos com um exemplo atípico. Pedro Gonçalves, 36 anos, é um jovem empresário baseado em Portimão, que apostou com sucesso no comércio tradicional. Ou melhor dizendo, na reinvenção deste conceito.

Em Agosto de 2007, Gonçalves abriu a «mercearia bio». A ideia é simples. Apenas vende produtos biológicos certificados. As portas da loja estão abertas na Internet, onde os consumidores de todo o Algarve podem fazer as suas encomendas. Com apenas mais um colaborador recentemente admitido e uma carrinha refrigerada, a «mercearia bio» abastece semanalmente centenas de famílias, lojas gourmet e até chefes de cozinha de vários restaurantes da região. Só o ano passado, a facturação atingiu os 120 mil euros.

“Como é evidente, acho que vão sempre existir grandes superfícies comerciais. Mas da minha experiência, acredito as pessoas, num futuro mais ou menos próximo, vão procurar cada vez mais o comércio tradicional. Pela relação de proximidade com os produtos que compram, e pelo atendimento personalizado”, diz Pedro Gonçalves, licenciado em gestão hoteleira. As suas palavras encontram fundamento na pequena loja em que é administrativo, distribuidor (faz mais de 1500 quilómetros por semana), gestor de armazém e até vendedor de porta-a-porta.

“Nós conseguimos fazer a ponte entre o produtor e consumidor, de tal forma que os laços são muito mais estreitos. Todas as semanas aconselhamos o que temos fresco e qual a origem dos produtos”, diz.

Quando interrogado se comprar na mercearia é mais caro que consumir no hipermercado, Gonçalves desdramatiza. “É mais caro. Mas não necessariamente para pessoas com mais dinheiro. Temos muitos clientes que são pessoas com uma vida normal. Não têm carros de luxo à porta, nem vivem em grandes casas. Canalizam os seus recursos para uma alimentação mais saudável”, que em média, pode custar entre 80 a 100 euros por semana.

Toda a informática da «Bio» foi comprada no comércio local. “Num hipermercado, pouparia até 20 por cento dos custos”, informa, mas depois teria complicações acrescidas na manutenção.

Este argumento, da relação de proximidade exclusiva do comércio tradicional, também é defendido por Gilberto Sousa, presidente da Associação de Comércio e Serviços do Algarve (ACRAL), que soma um universo de 3470 associados.

“Sim, há sempre vantagens. O preço das grandes superfícies é ilusório. Não é mais barato. Além disso, as pessoas sabem que no comércio tradicional, se alguma coisa não correr bem serão atendidos como toda a atenção, pois prestam-lhes uma assistência pós-venda totalmente diferente”, defende. “É que infelizmente, há uma ideia errada de que os Centros Comerciais correspondem a um conceito de desenvolvimento, o que é absolutamente errado porque significam a descapitalização da região. Porque significam a eliminação de postos de trabalho. Porque significam o fim do empreendedorismo dos jovens que se querem lançar por conta própria na área do comércio, e se vêem confrontados com uma concorrência, muitas vezes, até desleal”, explica.

Mas a realidade não é assim tão romântica. “Ainda há uma grande inaptidão que só tem contribuído para afastar as pessoas”, lamenta Pedro Gonçalves. “Aqui em Portimão, por exemplo. Que vemos no comércio tradicional? Vemos horários muito pouco flexíveis. Não me digam que estar aberto ao almoço é uma questão de legislação?”, interroga. “Depois também é uma questão de simpatia. Muitas vezes vou a lojas e vejo que os proprietários não são pró-activos. Os colaboradores têm pouca formação profissional, ou então, não estão motivados para lidar com o público”.

“Poderia haver muitas inovações fáceis de implantar para socorrer o comércio tradicional, mas infelizmente, vejo que as pessoas agarram-se à crise e à conjuntura e não procuram soluções para ultrapassar os seus problemas”, considera. Talvez por isso, de acordo com Gilberto Sousa, fecharam 9 mil estabelecimentos comerciais em Portugal durante o ano passado. Mas e no futuro?

“Não queremos ser pessimistas. Compete-nos incentivar os empresários a resistir, a modernizarem-se, a reverem a forma de gestão das suas empresas. Mas obviamente, que estamos apreensivos”, diz o presidente da ACRAL, que defende reformas profundas na legislação comercial. Por outro lado, Gilberto Sousa diz “não compreender os autarcas” que têm minado os centros das cidades algarvias com parquímetros, e taxas de estacionamento que afastam ainda mais os potenciais clientes do comércio tradicional.

Finalmente, Pedro Gonçalves não teme a actual crise. “Sentimos o mercado a fervilhar. Há imensas oportunidades de negócio”, diz. Em breve, o empresário espera expandir o negócio, abrindo uma rota para o Alentejo, outra para a Madeira e possivelmente uma rede de mercearias «Bio». À maneira tradicional…

Ganância ou atalhos para o lucro?

Há ainda outro motivo para a decadência do comércio tradicional na região. “No Algarve têm-se vindo a abusar muito do consumidor, quer do português, quer do estrangeiro”.

Com a desculpa de ser uma região turística, muitos comerciantes inflacionam até “o preço dos produtos normais de consumo” do dia-a-dia, considera Ana Pedro, coordenadora regional da DECO em Faro.

“Acaba por ser uma questão de ganância, no sentido em que o comerciante português quer levar o menos tempo possível para conseguir aquilo que outro congénere europeu tem a paciência de esperar – de construir um negócio, de deixar implantar, de praticar preços para conquistar clientela. O comerciante português quer esse processo o mais rápido possível”. Uma espécie de atalho para o lucro. Só que essa estratégia já não funciona. Hoje, “os consumidores não conseguem acompanhar os preços altos e além disso estão cada vez mais esclarecidos”. Talvez seja altura de mudar...

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