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Estação de Radar da Fóia
De Olho no Céu

“Boa tarde nosso comandante, dá licença?”. A nossa visita não começa às portas de uma instalação classificada, mas sim à mesa de um dos vários restaurantes a caminho do topo da serra de Monchique, onde os turistas admiram a vista com adjectivos ingleses. Sentamo-nos à mesa com o capitão Engenheiro Luís Telha, que desde Agosto de 2006 é o responsável pela estação de radar da Fóia. O prato do dia é frango assado. A cada seis meses, há um concurso para fornecer as refeições para a vintena de homens que compõem esta unidade – pequena, mas bastante técnica e especializada. Se não fosse pelas fardas, ninguém daria pela sua presença. Calmos, calados, reservados. O perfil necessário para trabalhar num radar? “Estas coisas convém que hajam, mas que ninguém dê por elas”, ironiza o capitão Telha. Um militar com um percurso interessante. Entrou para a academia militar em 1992 e tirou o curso técnico de engenharia electrónica, computadores e telecomunicações. Esteve alguns anos envolvido em projectos aeronáuticos, como a instalação de sistemas ILS (Instrument Landing System). Trata portanto, o radar por tu. “Sim, convém que o responsável tenha bons conhecimentos para poder resolver os problemas e compreender realmente o que os seus técnicos lhe estão a falar”, diz.
Mas afinal, que fazem ali em cima? A reposta para esta pergunta é pouco entusiasmante. A missão prioritária da unidade é manter o radar em funcionamento. Ou seja, basicamente, fazem manutenção. Lá em cima não existem salas de controlo de guerra, nem nada do que o cinema se habituou a associar a este tipo de instalações. Aliás, existe uma consola, mas só serve para efeitos de manutenção e apenas é ligada nessas alturas.
“Logo na década de 50, o objectivo da FAP, para além da aviação, foi o controlo do espaço aéreo”. Na verdade, a indexação dos terrenos da Fóia para uso militar remonta ao tempo do Estado Novo. “Mais tarde, nos anos 70, no âmbito da NATO, iniciou-se um projecto conhecido por Sistema de Comando e Controlo Aéreo de Portugal (SICCAP). Mais tarde, colocaram-se radares aqui, em Paços de Ferreira/Serra do Pilar e Montejunto”, explica.
“Este foi criado em 1991. Foi o primeiro de dez a instalar nos países da NATO do sul”, recorda. Desde então, tem sofrido vários upgrades. Mas isso não significa que estes militares têm uma vida fácil. “É um sistema bastante complexo, que envolve um radar principal e vários secundários”, revela.
A maioria dos problemas é resolvido no local, mas por vezes há a necessidade de convocar o fabricante norte-americano. “Ainda assim, temos uma taxa de operacionalidade recorde dentro da NATO”, diz. O radar está quase sempre a funcionar. Uma situação excepcional aconteceu em 2003 quando os incêndios fora de controlo dizimaram parte da mancha florestal de Monchique. O radar teve de ser desligado de emergência por causa do fumo e do calor.
A imaginação local atribuiu a este lugar uma série de mitos. Dizia-se que escondia mísseis. Outra lenda é a do complexo subterrâneo que supostamente se esconde por debaixo das instalações. “Tivemos que fazer um dia aberto para acabar com essas histórias. Mas como, por razões de segurança e funcionamento do equipamento, algumas portas tiveram mesmo que ficar fechadas e houve quem ficasse desconfiado”, conta.
No momento de entrarmos, a curiosidade aguça-se. Que se esconde aqui, afinal? Devido às normas da NATO, não somos autorizados a fotografar o interior. De facto, pouco haveria para alimentar a objectiva. Um corredor branco e estéril conduz a uma série de gabinetes e escritórios. Compactos, funcionais. A sala maior guarda vários componentes em stock. Há um pequeno bar para o pessoal. As restantes salas guardam os geradores a Diesel, as baterias, uma oficina por debaixo da antena e pouco mais. Os componentes do radar estão no exterior numa espécie de contentores chamados “shelters”. À nossa visita, estavam a receber obras de manutenção.
Quando está em pleno funcionamento, o radar consome uma média de 500 euros de electricidade por dia. A maioria do consumo energético destina-se às máquinas que arrefecem os componentes electrónicos. De regresso ao interior, vemos uma porta com uma fechadura de alta segurança. Se a tivessemos atravessado, teríamos visto rádios, repetidores, um pequeno arsenal de espingardas automáticas e um arquivo classificado trancado a cadeado.
Em relação às radiações electro-magnéticas emitidas por um radar desta potência, Luís Telha indica uma luz de aviso ao fundo do corredor. “Quando está acesa, não é possível subir à redoma precisamente por esse motivo”. No exterior e à volta do complexo, garante que tudo cumpre a legislação e normas em vigor, e que há sensores de monitorização.
A Vigilância do céu
Na fronteira entre o Atlântico, a Europa e África, Portugal é um espaço de transição internacional e uma porta de acesso a várias fronteiras. Cabe à Força Aérea Portuguesa a missão de detectar todas as aeronaves que entram/violam o espaço aéreo de soberania nacional e verificar se as mesmas estão ou não identificadas. E intervir em conformidade, se necessário. Chama-se a isto policiamento aéreo.
“A nossa responsabilidade é manter a inviolabilidade do espaço aéreo português”, explica o Tenente-coronel Telmo Reis, comandante do Centro Reporte e Controlo de Defesa Aérea de Monsanto, Lisboa. Numa primeira fase, este processo é feito através do acompanhamento permanente do Air Traffic Control (ATC) civil – o serviço que organiza fluxo de tráfego nos céus. Para além disso, a FAP dispõe de meios próprios. O céu nacional é controlado pelas Estações Radar de Fóia (ER1), de Paços de Ferreira/Serra do Pilar (ER2) e de Montejunto (ER3).
Este conjunto forma o Sistema de Comando e Controlo Aéreo de Portugal (SICCAP), que desde há 6 anos para cá, funciona em pleno.
Em breve, chegará às ilhas. Primeiro à Madeira (Pico do Areeiro) e futuramente aos Açores (estima-se entre 2011 e 2015). Nas regiões autónomas permitirá apoiar as missões de interesse público, como a busca e salvamento no Oceano. E outras que envolvam a necessidade de comando e controlo de meios aéreos, como a fiscalização das pescas, defesa do ambiente, derrames de crude e combate ao narcotráfico.
Aliás, esta é uma questão que muito preocupa os militares, sobretudo aqui no sul do país. Telmo Reis recorda um caso mediático que aconteceu na noite de 30 de Janeiro de 2005, no Aeródromo civil de Beja. Na pista habitualmente usada para trabalhos agrícolas, um avião “Piper Cherokee Six” descolou rumo a Marrocos. Um vôo clandestino e furtivo com o objectivo de tráfico de estupefacientes. Contudo, as coisas correram mal. No regresso, a Polícia Judiciária deteve em flagrante os homens com 277 quilogramas de haxixe e várias armas de guerra a bordo. “O que eles não sabiam é que estiveram permanentemente a ser seguidos e acompanhados por um caça da Força Aérea Portuguesa”, revela Tenente-coronel Telmo Reis, talvez o militar melhor informado sobre tudo o que se passa nos céus nacionais.
O Centro de Reporte e Controlo de Monsanto recebe em tempo real a informação de todas as estações de radar do SICCAP. Aí, durante 24 horas por dia, por rotina, uma equipa de 16 militares monitoriza os dados que são transmitidos por fibra óptica e microondas e que podem ser sobrepostos. No que toca à capacidade operacional, o SICCAP é perfeitamente capaz de partilhar dados com outras redes de radar europeias (por exemplo, a espanhola e francesa), assim como com os aviões Boeing E-3 da NATO.
A FAP dispõe ainda de caças F-16 MLU prontos para entrar em acção em caso de ameaça. Todos estes meios são essenciais para que Portugal cumpra os seus compromissos internacionais e responda aos novos e crescentes desafios em matéria de segurança e defesa num mundo cada vez mais complexo e em constante mudança.







