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Caravela da ERTA

As missões da Boa Esperança

Ancorada em Lagos, onde tem o seu próprio cais no canal da Ribeira de Bensafrim, desde 2005, a caravela Boa Esperança continua a atrair as atenções dos veraneantes que visitam a cidade. Feita de 140 toneladas de madeira, é uma réplica moderna da embarcação utilizada pelo navegador Bartolomeu Dias, em 1488, para dobrar o Cabo das Tormentas. Quando foi adquirida pelo Turismo do Algarve, a ideia era usá-la como instrumento promocional. Segundo o comandante José Gravata, 61 anos, tem feito mais que isso. Participou em regatas importantes, tem sido cenário de vários filmes, serve de navio-escola, e para o ano tem mais alguns desafios para navegar.
Edição 688 (28 Jul 2011), Sem Comentários »

O barco em si, já não é novidade. Mas continua a gerar encanto como se tivesse vindo algures do tempo dos Descobrimentos.

O comandante da embarcação, José Gravata, dá um exemplo caricato. Em 2009, uma equipa de reportagem do segundo maior canal de televisão da China esteve de visita ao Algarve.

Por mero acaso, a Boa Esperança estava prestes a largar ferro, para uma curta viagem até Sagres com estudantes a bordo.

O entusiasmo foi tal que “eles pediram-me se nos poderiam acompanhar”, conta o comandante.

Nesse dia, tinham “outros pontos históricos” para conhecer, mas “sacrificaram o itinerário, e foram connosco, contrariando a vontade da pessoa que estava a organizar o percurso”

Três dias depois, “o encarregado de negócios da embaixada da China comunicou-me que 80 milhões de pessoas tinham acabado de ver as filmagens e que tinha sido um sucesso”, conta.

Natural de Faro, José António Gravata é desde sempre um apaixonado pelo mar e pelos barcos.

Ingressou na caravela como piloto, em 2004. Antes estava habituado a navegar num veleiro de 10 metros (a Boa Esperança tem 24 metros).

Contudo, na sua terceira viagem, o então comandante (e sempre muito ocupado director do porto de Lisboa) José Castro Centeno, sugeriu que Gravata o substituísse e assumisse o comando.

“É uma responsabilidade muito grande, quer em termos de navegação nos dias de hoje, quer pelo facto de a caravela funcionar com uma tripulação voluntária. São pessoas que gostam e têm disponibilidade, mas não são profissionais.

Numa viagem longa, nem sempre é fácil ter gente de confiança, daquela que eu sei que defende a caravela se houver mau tempo ou dificuldades, disponível durante tanto tempo. Portanto, isso exige um compromisso por parte de quem se propõe ir”, diz. São necessárias, no mínimo, 17 pessoas na tripulação.

A caravela navega com “velas triangulares, e a partir do momento em que estão abertas é dar folga, subir ou descer”, tudo à força de braços. A vela maior tem oito cabos de cada lado, e a mais pequena, quatro.

Só para dar uma ideia, desatracar esta embarcação é uma tarefa complicada e para fazer sem pressas. “Como o motor auxiliar de 187 cavalos é muito fraco, é necessário aproveitar o vento e a corrente para a fazer largar de um cais. Daí que é necessário muitas pessoas com um mínimo de sabedoria, ou prática, para manejar todos os cabos.”

Curiosamente, “temos trabalhado com reformados, porque é quem está mais disponível. Os mais jovens é difícil, pois têm os estudos”, ou a vida profissional.

Em relação ao conforto, onde antigamente era o porão de carga, há hoje um salão. Tem 22 beliches, três casas de banho e uma cozinha com capacidade de congelação. A caravela tem uma autonomia de 5 a 6 dias no mar, em termos de alimentação, combustível e água.

O comandante tem uma cabine à parte. Existe também um compartimento com quatro beliches, para quando há senhoras a bordo. Mas “nenhuma nunca quer” ocupá-lo. “A existência do sexo feminino a bordo é sempre muito bom, porque dá outra disciplina.

O comportamento do pessoal é mais sossegado, portam-se melhor”.

E “navegar é mais giro”, garante José Gravata.

Originalmente construída para a Associação Portuguesa de Treino de Vela (APORVELA), a caravela foi lançada à água a 28 de Abril de 1990. Só foi adquirida pelo Turismo do Algarve (na altura RTA) em Junho de 2001. Hoje, os tempos são de austeridade, e “há uma procura das entidades em minimizar as despesas.

A caravela tem os seus custos, tal como tem qualquer obra de arte, qualquer monumento, qualquer igreja que se queira manter” em bom estado de conservação.

Actualmente há dois elementos profissionais na tripulação, que se dedicam à manutenção. “Todos os dias há trabalhos para fazer. É um custo muito grande manter um barco de 140 toneladas de madeira.

Todos os anos, tem que sair da água e ir para a doca seca para ser pintado, e as madeiras têm de ser devidamente tratadas”.

Vale a pena? “Eu penso que sim, é um grande chamariz em qualquer lado. Já tivemos experiências, por exemplo, em Saint-Tropez, de pessoas que nem sequer conheciam o país Portugal”, conta o comandante.

“Os estrangeiros que conhecem o nosso país são os povos mais ligados ao mar. A Inglaterra considera que o príncipe Henrique, o navegador era filho de uma inglesa e é por causa disso que Portugal teve a sua importância na época dos Descobrimentos. É também por isso que todo o inglês, minimamente culto, visita o promotório de Sagres, e se puder, a Caravela”.

E mesmo quando navega, José Gravata chega por vezes a assustar-se com as manobras de aproximação que os grandes navios fazem só para verem de perto a embarcação histórica.

“É um barco que já navegou em todo o Atlântico, participou em regatas importantes e até esteve presente no jubileu da Rainha de Inglaterra”, acrescenta.

Por outro lado, a Boa Esperança tem feito carreira no cinema, “como cenário de vários filmes”. Não admira portanto, que na sua passagem pelo Festival de Cannes, em 2008, tenha sido o centro das atenções. Mesmo no meio dos modernos e luxuosos iates, “toda a gente”, entre artistas a equipas de produção de cinema, estive a bordo. “Penso que fizemos uma boa representação de Portugal”.

E no futuro? Em 2012 “temos agora um projecto, com uma produtora francesa que engloba uma visita a 19 portos do Mediterrâneo.” A associação EUROPALIVE pretende “fazer um documentário sobre as paisagens marítimas europeias, e também sobre a música tradicional de cada um dos países que se vai visitar.”

O calendário da viagem inclui uma nova passagem por Cannes, de 8 a 17 de Maio. A caravela irá partir de Lisboa, para depois atracar em Gibraltar, Alicante, seguindo para Marselha, e finalmente Cannes, a 7 de Maio.

Depois seguirá para a Córsega, Sardenha, entrará no Adriático até Veneza, e em seguida visitará três portos - Constança (Bulgária), Roménia (Foz do Danúbio) e Odessa, na Ucrânia. Serão cerca de 4 a 5 meses, ida e volta. Um grande desafio? “Com certeza, e esperamos que não seja o último”…

“A caravela tem como função ou objectivo ser uma escola. Primeiro, para mostrar como é que se navegava há 500 anos, dado que é uma caravela henriquina, mostrar o seu aparelho de vela, e mostrar como é que os portugueses transformaram aquilo que era uma arte, numa ciência.

Todo o aparelho de vela latina está montado como se pensa que eles navegavam à época.

Esta é talvez a primeira embarcação oceânica do mundo, com a qual era possível ir e voltar”, diz José Gravata.

Quando está fundeada, recebe a visita de “grupos organizados de escolas, inclusivamente os tempos livres de Lagos. A caravela possui um protocolo com a autarquia e está ligada a uma série de actividades com o Centro de Ciência Viva de Lagos.

Recebe alunos de todas as idades.” E há interesse? “Sim, um aluno que está a dar História de Portugal e visita a Caravela, sente-se maravilhado. Temos réplicas dos aparelhos que os portugueses utilizavam na altura dos Descobrimentos. Penso que não esquecem mais”.

“Antes de cada viagem, faz-se um grande trabalho de navegação. Tem de se prever todos os portos em que a caravela possa entrar, porque não é um barco que se sujeite muito a maus tempos. Vemos a meteorologia toda, as listas de faróis, é tudo previamente preparado. Mas às vezes aparecem imprevistos”, conta José Gravata.

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