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Made in Algarve

O que é regional é bom!

Fechamos o ano com uma reportagem sobre produtos regionais do Algarve. Falamos sobre pessoas empreendedoras que dão vida a novas ideias e reinventam a tradição. Conheça Luís Sequeira, produtor de medronho de Silves, autodidacta que junta mel e chocolate à sua aguardente de medronho para criar bombons a que chama “mon cherry à algarvia”. Conheça o casal João e Isalinda Louro, que trocaram Lisboa pelo Algarve e criaram um projecto de compotas e chutneys artesanais que é hoje um sucesso na mesa de portugueses e espanhóis.
Bruno Filipe Pires, Edição 657 (16 Dez 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

É um invulgar caso de êxodo urbano. O casal João (40) e Isalinda Louro (51) trocaram Lisboa pelo Algarve há pouco mais de um ano e meio. Ele veio primeiro, para trabalhar em vendas no sector imobiliário. Acabou por não durar muito. A esposa veio depois. Entretanto, neste (curto) espaço de tempo criaram um pequeno projecto de produção artesanal que hoje está presente em mais de 50 lojas dentro e fora do país.

“Começámos a constatar que à nossa volta, na Ferradeira, entre Faro e Estói existem muitas hortas que ainda utilizam métodos de produção bastante tradicionais. Juntando isso a um hobby meu de longa data, que é a produção de compotas para amigos e familiares”, nasceu a ideia base para os «Sabores da Avó Linda». Conforme nos explica, o nome é uma homenagem à mãe e à avó de Isalinda, com quem aprendeu as receitas que utiliza e cumpre à risca.

“Não há segredo nenhum na produção dos nossos doces. É fruta, açúcar e água. Esperamos que se tornem espessos porque ficam horas ao lume. Não é possível reproduzir estes processos num ritmo industrial”, acrecenta João Louro. “Funcionamos em muito pequena escala. Os nossos lotes nunca têm mais de 15 frascos, 20 no máximo”.

Depois do êxito de uma primeira experiência numa feira em Lisboa, no Natal de 2008, o casal encontrou a motivação para se profissionalizar. Ao contrário do que é habitual, contam que o processo de licenciamento foi rápido e sem grandes entraves burocráticos. Desde o princípio, “o nosso grande objectivo é promover todos os produtos da região, da fruta aos vegetais. E também que tudo o que fosse necessário para desenvolver o nosso projecto tivesse origem local”, explica-nos Isalinda Louro. É o caso, por exemplo, das pequenas caixas de madeira que utilizam na apresentação de algumas compotas. São feitas individualmente por um carpinteiro farense e cuidadosamente pintadas à mão pela própria Isalinda.

Apesar da concorrência de inúmeros produtos industriais semelhantes, alguns muito mais baratos, o casal não tem tido mãos a medir para responder às encomendas. “Muito surpreendentemente encontrámos espaço para nós fora dos círculos gourmet. Numa primeira fase pensámos em procurar lojas nas zonas mais ricas do Algarve”, que poderiam mais facilmente estar interessadas, e assim, permitir rentabilizar esta iniciativa. “É mentira. O nosso projecto é sustentado pelas pessoas mais normais que há. Pessoas que não querem coisas massificadas”, diz João Louro.

Outro aspecto inovador do trabalho deste casal é a produção de chutneys – algo invulgar na gastronomia portuguesa.

“Isso surgiu por uma paixão nossa. Costumávamos comprar uns feitos pelas freiras do Convento dos Cardais no Príncipe Real, em Lisboa”.

Começou por ser “uma coisa marginal” e houve pessoas que só não “vomitaram nas feiras” porque é má educação. Actualmente, o chutney de melão com gengibre é um êxito bastante apreciado por alemães e ingleses. Já os algarvios preferem o chutney de vegetais com pimentos verdes e vermelhos, com forte sabor a orégãos e manjericão. “Agora temos também outra linha, das compotas agridoces feitas com vinagres balsâmicos”, informa João Louro.

Outro produtor que tem inventado novos produtos regionais é Luís Silvestre, 51 anos. Tem a sua adega na aldeia do Talurdo, em plena serra de Silves. Uma herança de familiares, da parte do sogro, que remonta a 1713.

Autodidacta, é produtor licenciado desde 1995, embora tenha começado a destilar muito antes. Há dois anos lançou os chocolates com medronho - o “mon cherry” à algarvia. Recentemente lançou um produto chamado “melada”.

Este Verão orgulha-se de ter criado aguardente de batata-doce de Aljezur. “Quando tive esta ideia disseram-me que não era possível, que outros já tinham tentado” sem sucesso. Para além de vários licores, produz ainda aguardente de alfarroba, figo e mel.

Também para este produtor, a “qualidade” é a principal preocupação. Um dos maiores custos de produção é o vasilhame. Algumas das suas garrafas são feitas à medida em Itália.

“Na Marinha Grande”, a Meca portuguesa do vidro, “fecham-se fábricas e enviam-se pessoas para o desemprego porque não são capazes de fazer uma garrafa personalizada”, diz.

“Hoje fala-se em pequenas e médias empresas, mas na realidade, em Portugal trata-se qualquer cliente à escala industrial. Se eu precisar de fazer sacos com a minha marca, sou quase que obrigado a encomendar uma quantidade gigantesca” para conseguir um preço competitivo. Na opinião de Luís Sequeira, o mercado português não é capaz de se adaptar à sua própria dimensão. Uma vez “sugeriram-me que fizesse 80 mil sacos. Isso era capaz de dar para o resto da minha vida”. O outro problema é a matéria-prima. Tal como outros produtores, gasta milhares de euros em medronho que não se conseguem contabilizar como despesa, “porque as pessoas que se dedicam à apanha não passam facturas”.

“São pessoas antigas que se dedicam a esta actividade. Estou convencido que se não houver incentivos para trazer gente nova de volta à agricultura, isto acaba daqui a poucos anos”.

Sequeira acredita que cabe às autarquias criarem programas de incentivo para “puxar as pessoas para o campo” e inverter a desertificação.

Por outro lado, “as próprias entidades oficiais deveriam apostar nos produtos regionais. Por exemplo, poderiam oferecer aquilo que se faz na sua terra nas alturas festivas”, sugere.

Mas o que acontece “é que se oferece whisky importado”. “Na própria Assembleia da República gastam-se bebidas estrangeiras”, lamenta. Este produtor sabe que enfrenta um problema de escala no que toca à aguardente de medronho. “Para o nosso país, o que se produz é suficiente. Mas se houvesse mais gente a produzir, poderia abrir-se uma porta para o exterior” e dar um novo fôlego à economia. “Tenho tido muita procura por parte de consumidores e de lojas no estrangeiro, mas para passado um mês ou dois entrar em ruptura de stock não vale a pena”, conclui. A solução para este e outros problemas é “mudar a mentalidade das pessoas”...

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