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Miguel Gonçalves Mendes

José & Pilar por um olhar algarvio

Chama-se Miguel Gonçalves Mendes, tem 32 anos, nasceu na Covilhã mas cresceu em Olhão. O jovem realizador tem conquistado a atenção da imprensa brasileira e espanhola com o seu último trabalho, o documentário «José & Pilar». O filme estreou comercialmente a 18 de Novembro, dois dias depois da data em que Saramago, o prémio Nobel da Literatura português faria 88 anos. Mostra o dia-a-dia do casal Saramago em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo. Mas o filme é sobretudo um retrato surpreendente de um casal empenhado em mudar o mundo – ou, pelo menos, em torná-lo melhor. Em exibição diariamente no Algarcine, do Ria Shopping de Olhão, às 18h30 até dia 7 de Dezembro.
Bruno Filipe Pires, Edição 655 ( 2 Dez 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

Fez um filme sobre os bastidores da vida de José Saramago. Como surgiu a ideia?

Miguel Gonçalves Mendes: Não me chateia repetir, porque isto é mesmo verdade. A mim irritava-me profundamente a imagem que existia sobre ele, de um tipo antipático, arrogante, carrancudo, traidor da pátria e comunista. Questionava-me quando lia os livros que ele escrevia, como é que alguém que coloca tanta Humanidade nas suas obras e personagens, poderia ser assim? Quis tirar isso a limpo. E depois entendi que havia outro aspecto que nunca tinha sido explorado, a importância da sua mulher, não só enquanto pessoa que ele amava, mas também enquanto alguém com um papel fulcral na divulgação e internacionalização da obra dele. Nenhum retrato do José Saramago ficaria completo sem um retrato da Pilar, que ainda por cima é uma personalidade fortíssima.

Como descreve «José e Pilar» a alguém que ainda não o tenha visto?

Acho que é um filme que foge um pouco aos cânones tradicionais do documentário. E que é simplesmente a história de um homem que quer escrever um livro e tem medo de morrer, porque acha que não vai conseguir fazê-lo. É a história de alguém com um grande desejo de vida. O filme é absolutamente temporal, passa-se entre 2006 e 2008, desde que Saramago tem a ideia para o livro «A Viagem do Elefante» até à sua apresentação no Brasil. Uma coisa muito bonita que o Saramago disse quando viu o filme, é que este é muito mais do que algo sobre eles os dois, é sobre a vida e sobre as relações humanas. Também coloca em confronto as relações com os fãs e com a imprensa e acaba por ser um grande espelho do mundo alucinado em que vivemos.

O filme custou cerca de 400 000 euros... certo?

Tive alguns apoios. E quando eu já estava na bancarrota total, acabei por conhecer o Fernando Meirelles, realizador de «Blindness» que se interessou e entrou no projecto. Ele viu a primeira versão do filme em Lisboa, que tinha seis horas e gostou muito. Depois, demorámos um ano e meio nas montagens. Ainda se colocou a hipótese de pegar nessas seis horas e fazer uma série televisiva, mas não há dinheiro. Agora tenho de seguir em frente.

Já tem planos para próximos filmes?

Sim, tenho para 20 projectos de ficção que quero fazer. Agora é decidir qual é o mais financeiramente viável e qual é que pode ser concretizado. Os documentários acabaram para mim.

Porquê?

Não é por mal. Mas todos os meus filmes demoram imenso tempo a fazer. Este demorou quatro anos e são processos muito dolorosos, até emocionalmente. A ficção, não. Só é preciso uma boa história. O documentário, por muito que haja um guião, a realidade encarrega-se de mostrar que não vai ser bem assim… Portanto, muito de um documentário nasce na mesa de montagem e é o triplo do esforço para se construir a narrativa que se pretende. É muito desgastante.

E a somar a isto, há o desinteresse do público e do circuito comercial neste tipo de projectos...

Sim, mas isso é o que eu chamo uma pescadinha de rabo na boca. Os responsáveis dos cinemas não colocam os documentários em cartaz porque acham que não vai haver público. Mas também quando o fazem, ninguém vai ver. E temos que contar com os inúmeros anti-corpos que há contra o cinema português, o que é lamentável e injusto. As pessoas têm que perceber que o cinema bom e mau existe em qualquer parte do mundo.

Acredita que há preconceito contra o cinema português?

As pessoas recusam-se a ver cinema português. Recusam-se.

E lá fora?

Vêem quando lá chega, o que é raro. Nos Estados Unidos, metade do orçamento global de um filme é gasto em marketing. Aqui, isso nem sequer é considerado.

Que faz você e os seus colegas realizadores para contrariarem esses preconceitos?

Eu lamento desiludir, mas eu traço o meu caminho sozinho. Não acredito em corporativismos de classe alguma. Acho que em Portugal somos todos uns grandes filhos da mãe uns para os outros. Existe uma coisa chamada inveja e quem tiver sucesso é um alvo a abater. É lamentável, mas toda a gente nivela por baixo nas atitudes. Enquanto isto continuar a acontecer não vamos chegar a nenhum lado enquanto povo. Esta falta de solidariedade, esta falta de saber o que é o bem-comum, faz com que não saibamos o que queremos enquanto país. Estamos sempre em processo de auto-destruição. Quando vou a debates, apenas vejo retórica, lamentos e não passa de uma grande perda de tempo. Penso que nos demitimos de agir.

Mas o filme tem a ver com um Nobel da Literatura, o segundo português. Deveria despertar o interesse do público, ou não?

Sim, mas não desperta. É indiferente ter tido boas críticas. Criou-se uma tal barreira entre o público português e o cinema português que é impossível. O poder político permitiu instalar na sociedade o raciocínio que nós somos todos uns dependentes de subsídios e que andamos aqui a viver à conta do Estado. Isso é a maior aldrabice de todos os tempos. Trabalhamos em condições absolutamente precárias e já é um milagre que se produza alguma coisa. E mais. As pessoas aqui esqueceram-se que o que determina um povo é a sua cultura e a ciência. Não é o Cristiano Ronaldo, que daqui a uns anos ninguém vai saber quem é. Quem continua a existir hoje, apesar de tudo é o Camões, que já soma 500 anos. O caso do Saramago é absolutamente inspirador. É um caso histórico de alguém que vem de uma aldeia, que não foi à Universidade, que não fazia parte das elites culturais e que de repente começa a escrever aos 60 anos de idade e ganha um prémio Nobel. É a história de alguém que vem do nada, e que fazia mais pela divulgação de Portugal em 10 minutos que 10 anos de políticas do Ministério da Cultura. Isso posso eu garantir. Claro que isto não se perdoa neste país.

Há muita gente que condena o Saramago por ter ido viver para Lanzarote e por ter casado com uma espanhola…

Também há quem ache que foi a melhor coisa que ele fez na vida. Porque se tivesse ficado cá, nunca teria passado do apartamento na Madragoa e nunca seria o maravilhoso escritor que é.

Há alguma leitura política no filme?

O filme não é um panfleto político. Mas também nunca achei que os seus livros o fossem. A única coisa que eu não queria fazer era uma espécie de elogio ao homem.

Fez este filme para quem?

Para toda a gente. Tentei que fosse o mais universal possível. Não é um auto-elogio, mas o filme é tão honesto e acho que será inspirador para muita gente que sairá da sala com vontade de lutar. Isso deixa-me feliz. Uma das coisas que me aconteceu no final deste trabalho, foi deixar de ter pena de mim próprio.

Em Espanha, foi convidado o Juiz Baltazar Garzón, figura de peso, polémico, tanto pela positiva como pela negativa, para o lançamento do filme. Porquê esta escolha?

Não foi minha, foi do festival.

Em Portugal convidaram alguma figura pública para o mesmo efeito? Se não, porquê?

Não... nem pensámos nisso. Nem havia necessidade.

Achas que o filme teria outro impacto e outra aceitação se o tivessem feito?

Não sei... nunca saberemos.

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