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Rosa Varela dedica livro ao Refúgio Aboim Ascensão

Adopção, um desafio para o amor?

O amor entre pais e filhos é algo muito superior a laços de sangue. E a verdadeira parentalidade não se esgota na biologia, garante Rosa Varela, 38 anos, escritora e professora de Educação Especial, em Ovar. No passado Sábado, dia 23 de Outubro, esteve na livraria «Pátio de Letras» em Faro onde apresentou o seu livro infantil «Porque fui adoptado?». Uma obra cujos lucros da venda revertem a 100 por cento para o Refúgio Aboim Ascensão – uma casa cor-de-rosa na capital algarvia que tem mudado a vida a centenas de crianças ao longo dos últimos 25 anos. Saiba mais.
Bruno Filipe Pires, Edição 650 (28 Out 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

"A grande ideia é mudar mentalidades. As pessoas têm culturalmente impregnado a ideia do ser meu filho porque veio de mim. Isso não é verdade. Costumo dar o seguinte exemplo. Imagine que aconteceu uma troca de bebés numa maternidade, depois de uma cessariana. Qualquer mãe daria o que fosse preciso de si pela vida daquela criança. Mas se calhar não daria por outra criança, que está no colo de outra mãe ao seu lado, e que na realidade, tem o seu filho biológico nos braços. Ou seja, onde é que está o amor? Isto é tudo uma questão emocional, muito mais forte, que uma questão biológica", diz Rosa Varela.

“Se formos buscar a teoria e a mentalidade do nosso país, fácil é ser amado por quem é nosso pai biológico. Porque se entende que é nosso”, diz Rosa Varela. Um lugar comum que tem tido consequências devastadoras, sobretudo quando chega à Justiça.

“Tivemos casos gritantes nos nossos tribunais. Conheço um caso em que um juiz, que ignora todos os pareceres contrários de uma equipa de pedopsiquiatras, e retira uma criança aos seus pais adoptivos para a entregar aos pai biológico. Isto é um crime. Aquele senhor não faz a ideia do que está a fazer. Uma criança que está veinculada a uma familia e depois é afastada, isto é uma violência!”, critica.

“Eu fui adoptada com seis anos, que é uma das idades mais críticas. A minha experiência de vida disse-me exactamente que a partir do momento em que amamos muito alguém de forma incondicional, que é basicamente o que define a relação entre pais e filhos, é uma ligação para a vida”.

Para explicar isto aos mais pequenos, Varela imaginou uma narrativa simples.

"Montei uma história, de uma criança que é adoptada com um ano de idade e que um dia chega à escola e a professora pede fotografias de quando eram bebés, porque estava a dar a reprodução. Ele chega a casa e os pais ficam pedrificados, apesar dos pais aos poucos, lhe terem vindo a falar nisso. Quando o menino se vê confrontado com esta realidade, com a maturidade que já têm, os pais têm então a grande conversa com ele. É esta a história, contada para esclarecer o Dinis, que é o protagonista, e todos os como ele que existem no mundo", sintetiza.

Rosa Varela nasceu em Espinho. É professora de Educação Especial, área em que se licenciou em Julho de 1996. É, desde muita nova, uma apaixonada por Literatura para a Infância, uma acérrima defensora dos Direitos da Criança e uma crítica atenta aos fundamentos legais que sustentam a Lei da Adopção em Portugal.

Um dos motivos que a levou a dedicar os direitos de autor do seu primeiro livro ao Refúgio Aboim Ascensão é porque partilha da opinião do director sobre as famílias de acolhimento. Varela defende que se devem “manter as crianças numa instituição, o mínimo de tempo possível, para serem rapidamente adoptadas”.

"Basicamente, este livro foi feito para esclarecer o coração de muitas crianças, quer tenham sido adoptadas ou não. A principal intenção foi desmistificar um pouco a ideia impregnada que um filho é algo obrigatóriamente vindo de laços biológicos. Não é. Uma pessoa para amar alguém como se ama um filho não é um registo de propriedade, não é um acto biológico. Um filho é uma criança, que algo fantástico, que pode trazer felicidade a qualquer casa, tenha ou não laços biológicos. O livro pretende acima de tudo mostrar às crianças todas que todos podem ser filhos de todos, que é fácil amar. Que é fácil amar uma criança, sem que tenha vindo de nós, da nossa barriga. É fácil porque são crianças e isso basta. É esse o grande objectivo do livro. Fazer com que as crianças sintam que são seres fabulosos, fantásticos e que são fáceis de amar por qualquer pessoa.", defende.

Apesar de ser ela própria adoptada, não há aspecto nenhum auto-biográfico. “Tudo é diferente, tudo é igual”. “Eu fazia parte de uma família biológica disfuncional. Tinha mais irmãos. De todos, fui a única que foi adoptada. Eu não fui abandonada, fui encontrada. Tive a sorte que muitos não têm”, acrescenta.

Os seus pais biológicos “não tinham capacidade para amar por uma má estrutura emocional. Deixaram-me numa ama e não me foram buscar. Uma das filhas dessa ama e o marido ficaram comigo e hoje são o meu pai e a minha mãe”, conta.

"Depois houve ali um período que foi complicada de gerir por todos, porque de vez em quando, os meus pais biológicos vinham-me reclamar. E eu com aquela idade não sabia bem onde pertencia, onde deveria estar. É por isso que sou contra as famílias de acolhimento."

Rosa Varela sente “um profundo respeito” e uma “tristeza” por todos os pais disfuncionais”. “São todos pessoas com grandes brechas emocionais, e embora isso não seja nada bonito, é horrivel, é preciso entender. Era inevitável que os meus pais biológicos não fossem disfuncionais, pela própria família de onde eles vieram.”

“Vamos supor que eu teria ficado com aquela família biológica. Provavelmente estaria morta, como estão dois dos meus irmãos biológicos. Ou então, olhando para a evolução daquela família que ficou para trás, eu não estaria nada bem. Com tanta baixa formação pessoal, social, económica, não teria eu leviandamente também engravidado sem ter consciência do estaria a fazer? Penso que sim. Teria tido culpa? Todos temos culpa, mas individualmente acho que não porque acredito que para se ser feliz é preciso uma grande formação pessoal, muito mais do que formação académica. É isso que vai fazer de nós boas pessoas, capazes de cohabitar com os outros numa relação saudável. E quando isso não existe, está tudo comprometido à nossa volta”. Um exemplo prático?

“Todos os meus alunos têm que ter psicologia. Vêm todos de famílias disfuncionais. Isto é um gasto económico brutal para o país, de dramas humanos, de consequências para a sociedade. Acho que ninguém tem noção da verdadeira dimensão destes problemas”, conclui.

A autora também critica a burocracia do processo de adopção em Portugal. “Basta pensar que se quiser adoptar um filho, com tantos que há por aí, pode-se esperar anos. Estamos a dizer às crianças que esperem também. Repare, a personalidade de uma criança molda-se até aos seis anos de idade. A partir daqui são só aperfeiçoamentos. Que se faz a uma criança que chega a uma casa depois desta idade?”

“E as brechas que isto traz? Como é que ela vai acreditar que vai ser amada dali para a frente? E por consequência, também não se vai amar a si própria. E por consequência, vai ser um ser emocionalmente desiquilibrado. E vai dar mais gastos ao Estado, e tem o potencial de vir a fazer o que fizeram com ela. É um ciclo vicioso. Tem que se apostar nas crianças, na educação e em gerar seres humanos equilibrados.” considera.

"É preciso fazer com que o nosso sistema não seja lento e preguicoso, e que trabalhem arduamente para encontrar os pais que estão anos e anos à espera de poder adoptar", sugere.

Por outro lado, esta é uma questão sempre complexa. Deve ser dada oportunidade apenas a pessoas que "tiverem dentro delas condições para amar um filho que não seja biologicamente deles, sim. Já conheci um caso de uma família de acolhimento, que após uns anos, quando a criança começou a dar problemas, como é normal, foram devolve-la. Isso não se faz".

“Pessoalmente, penso que deve ser dada prioridade às famílias que não são monoparentais. Penso que é muito importante para o desenvolvimento de uma criança, sempre que possível, crescer com um modelo masculino e um feminino. Isso vai permitir-lhe mais tarde interagir mais facilmente na vida e na sociedade, com ambos os sexos.”

Questinada sobre a hipótese de casais homosexuais adoptarem, a autora não alimenta polémica. “Acredito que uma família com duas pessoas do mesmo sexo possam ter tudo para ter uma criança adoptada. Acredito que sim. Mas se perguntar a mim, pelo conhecimento que tenho da psicologia e pela tal importancia de ambos os modelos, acho que seria desejável uma familia hetereosexual”. Contudo se “são pessoas com capacidade para amar, independentemente das escolhas que fazem na vida. Com que direito é que se lhe cortam este direito?”

Por outro lado, Varela também sabe que muitas pessoas procuram o filho perfeito na adopção.

"Não querem adoptar crianças mais velhas porque não querem crianças com vícios, mesmo que depois tenham um filho biológico que se meta na droga. É este o raciocínio."

“Têm que ser todos caucasianos, não podem ter problemas, têm de ter até um ano de idade. Posso dizer-lhe que no ano passado só 5 casais portugueses é que adoptaram crianças com problemas. Estamos a falar dum país com milhões de pessoas. Só cinco!”

“E há crianças nestas condições muito bonitas. O Refúgio Aboim Ascensão tem uma com Trissomia 21. Os meninos com Trissomia 21 são lindos. Se tivesse um filho assim, ia amá-lo tanto, acredite. São doces, meigos, patetas, estão sempre aos beijos e abraços. São pessoas fáceis de amar. Ninguém os quer. Mas as pessoas que têm os filhos assim, e eu conheço quem tenha, não os põem fora de casa”, diz.

O próximo livro de Rosa Varela segue a temática dos afectos e vai chamar-se «A Máquina de fazer abraços», e provavelmente também irá abraçar uma causa.

A Emergência Infantil

“As cadeias portuguesas estão cheias de jovens cuja história é invariavelmente a mesma - aos 3 anos tinham fome, aos 4 levavam tareias, aos 5 viam o pai bêbado bater na mãe”. Infâncias, e mais tarde vidas perdidas porque “não há acolhimento precoce em Portugal. As instituições recebem crianças em regra aos 4, 5 anos”, muitas “sem técnicos nem capacidade técnica de quem as dirige, e por lá ficam”, denunciou Luis Villas Boas, o director do Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, durante a apresentação do livro «Por que Fui Adoptado?».

Na ocasião, defendeu a extinção das “famílias de acolhimento para crianças com menos de 5 anos de idade”. E explicou porquê – “uma criança de um ano que seja entregue a um casal, passado algum tempo, está a sorrir e julga no seu pensamento não-organizado que aquela é a sua mãe. E um dia, a Segurança Social bate à porta e diz dê cá este menino que agora vai ser adoptado. Ou seja, esta criança é abandonada duas vezes. Só que às vezes a adopção falha e o menino vai para uma instituição. A isso chama-se delapidar crianças”.

Em alternativa, Luis Villas Boas defende “um modelo que Portugal teima em não seguir”, apesar de já somar 25 anos e ter mudado a vida a mais de meio milhar de crianças. Chama-se “emergência infantil” é o acolhimento de crianças entre os 0 e 5 anos de idade, em situação de risco (abandono, negligência, maus tratos). Permanecem à guarda do Refúgio, num “ambiente familiar”, em média durante 12 a 15 meses, até serem reinseridos na família biológica quando possível, ou encaminhados para adopção.

Ao contrário do que acontece noutros pontos do país, no Algarve, adoptar uma criança demora em média um ano, porque este processo está “regionalizado”. Por outro lado, o Refúgio orgulha-se de desde 1985, apenas 2 crianças terem sido devolvidas, ainda durante a fase inicial. Luis Villas Boas defende que é preciso que os 19 serviços de adopção do país tenham mais rigor na forma como se entregam crianças aos casais candidatos, para que não hajam “devoluções” nem falhas no processo que, no final, prejudiquem as crianças.

Não se pode continuar a “largar crianças ao colo de casais que nunca as viram na vida”, em apenas algumas horas. “Quando recebemos um casal candidato, este passa 5 dias connosco”, sugeriu, para garantir que tudo correrá bem. “Chama-se a isto veiculação observada, mas o país não quis saber disto para nada”.

Actualmente, o Refúgio tem 84 crianças e capacidade para 95. Entre elas, “temos 16 crianças especiais com doenças crónicas, com doenças raríssimas e com deficiência. O mais velho tem 6 anos, a mais nova tem 2 anos”. Pelo menos metade estão em condições de ser adoptadas.

Mas “não há candidatos diz a Segurança Social de Faro. Não acredito que em 10,7 milhões de portugueses não há ninguém que não quer uma criança com mongoloidismo suave? Ou não há vontade do Estado em ir à procura?”, questionou.

Para Luis Villas Boas, este é um problema grave. “Para onde vão daqui a 4 ou 5 anos? Para parte nenhuma, não têm para onde ir. Porque é que Portugal não pensa em criar instituições especiais para estas crianças?” Finalmente, “é preciso criar nas pessoas a ideia que ser pai adoptivo é igual a ser pai biológico. Não há diferença nenhuma. O que há é a vontade, a capacidade e a determinação”. E o amor...

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