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Ivo Brochado
Podologia - mãos que tratam dos pés

“Não. No geral, as pessoas não cuidam bem dos pés. Não têm noção da importância do pé no seu dia-a-dia”, considera Ivo Brochado.
Quando algo está mal, “normalmente recorre-se a calistas, pedicuras e a curiosos, que no geral não têm nenhuns estudos aprofundados de anatomia, fisiologia, bioquímica, farmacologia”, lamenta.
Na verdade, existe uma grande diferença. Os podologistas são técnicos de saúde especializados nas podopatias (doenças dos pés) que as tratam segundo uma abordagem clínica e multidisciplinar, e não segundo critérios estéticos ou de beleza.
“Muitas vezes, não se pode tirar tudo. Um calo é uma protecção do organismo. É como a febre. Quando algo de mal se passa com os nossos pés, quando há uma pressão excessiva num dos pontos, o que acontece é que o pé cria uma camada de pele (hiperqueratose). O que é que as pessoas fazem? Vão ao calista tirar o dito calo. É claro que isso dá alívio, porque o calo causa um processo inflamatório. Mas não é solução, e o organismo volta a colocá-lo passado algum tempo”, explica.
“Tive uma doente que teve 30 anos a sofrer dos pés. Tinha duas calosidades enormes, uma coisa brutal, por causa de uma deformidade. Recorreu a todas as especialidades e os médicos não sabiam qual o problema. Bastaram duas palmilhas personalizadas, feitas à sua medida para aliviar a pressão e resolver o problema.
A senhora ligou-me a chorar, pois há muito tempo que não sabia o que era caminhar sem dores. Portanto, há soluções”, garante.
Mas até os problemas mais comuns podem ser complicados. “Aparecem-me pessoas que pensam que têm calos. Muitas vezes são papilomavírus humanos, vulgarmente chamadas verrugas. Esses vírus transmitem-se de pé para pé e para outras pessoas”, diz.
Por outro lado, “grande parte da população portuguesa tem fungos nos pés. Na pele, dá comichão, incomoda e por isso as pessoas procuram ajuda. Nas unhas é apenas inestético. As senhoras pintam por cima e isso disfarça. Os senhores não se importam. Estamos aqui a falar de um problema de saúde pública”, acrescenta.
O pé sofre com o sendentarismo da vida moderna que atrofia os músculos, mas sofre ainda mais com a moda - especialmente no feminino. “Há sapatos de tacão alto, demasiado apertados que são uma coisa terrível”, diz.
“Um estudo norte-americano recente indica que 9 em cada 10 mulheres que usam saltos altos irão sofrer de deformações e de dores osteoarticulares ao longo da vida”. Ainda assim, “muita gente prefere sofrer hoje ou daqui por uns anos, que mudar de calçado”. Os homens, normalmente, sofrem problemas relacionados com o calçado de trabalho.
Já que se fala de moda, Ivo Brochado sabe que há quem considere o pé a parte menos bonita do corpo. “É verdade. Porque também há muita gente que não quer saber. Se calhar ao longo da vida, sempre obrigaram o pé a caminhar dentro de sapatos não adequados às suas medidas. Claro que um dia, ao olharem para o pé, vêem que está com joanetes, está com dedos em garra, com dedos encavalitados. Realmente, isso não é bonito”.
Apesar da Podologia ser uma área muito abrangente, Ivo Brochado tem um especial interesse pelo chamado «Pé diabético» - problema que atinge doentes com diabetes mellitus. O excesso de açúcar no sangue causa a chamada neuropatia diabética (lesões que afectam o sistema nervoso periférico), e portanto, estes doentes deixam progressivamente de ter sensibilidade nos membros inferiores ou nas extremidades (mãos).
São “pés que nas situações mais banais, como quando há uma pedra dentro do sapato, podem ficar sujeitos a grandes danos. Uma pessoa com a sensibilidade intacta tem de parar imediatamente para retirar aquele pequeno objecto. Um diabético, se calhar anda, durante um tempo indeterminado, com isso.”
Brochado trabalhou no Hospital de Santo António, Porto (onde surgiu a primeira consulta do país em pé diabético, no princípio dos anos 80). Viu “situações absurdas e difíceis de imaginar”. “Vi uma carica de cerveja, com as pontas viradas para cima. Comprimidos. Peças de Lego dos netos. Chegou-me um dia um indivíduo com um prego espetado de uma ponta a outra. Parecia Jesus Cristo crucificado. Não conseguíamos tirar-lhe o sapato. Estava literalmente pregado ao pé”, recorda.
O pé diabético não tem cura, mas tem prevenção, antes que se perca totalmente a sensibilidade. É um trabalho que envolve educar doentes e profissionais de saúde.“Neste momento, ando pelo Algarve e Alentejo num projecto dirigido a médicos e enfermeiros que engloba formação teórica e formação prática, durante a qual vou fazer o rastreio dos pés dos diabéticos daquelas unidades de saúde”. Já aconteceu no Centro de Saúde de Faro com bastante sucesso (cerca de 50 diabéticos rastreados). Nas próximas semanas, terá lugar no de Tavira e Vila Real de Santo António.
Em Portugal, há formação em Podologia desde 1994. Foi dos primeiros países a criar uma licenciatura. Na vizinha Espanha, tem crescido bastante, e actualmente estes profissionais podem prescrever medicamentos. O único problema, que o próprio Ivo Brochado reconhece, é que a podologia não existe, por enquanto, no serviço público de saúde no Algarve. Quem precisar, terá que recorrer ao privado.








