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Edição 714
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Lixo

Dilema a ritmo acelerado

“O consumo dos recursos naturais do planeta, quer pelo mundo rico industrializado, quer por alguns dos países pobres em rápido crescimento, está a tornar-se insustentável. Estamos a esgotar o capital natural do mundo a um ritmo superior à sua capacidade de renovação, e a comprometer o futuro dos nossos filhos. Também o próprio consumo em si, não é equitativo – 20% consome aproximadamente 80% do que o planeta tem capacidade para nos fornecer. Um claro exemplo dos nossos usos e abusos está nas quantidades crescentes de lixo que geramos”.
Antonio Lambe, Edição 642 ( 2 Set 2010), Sem Comentários »
António Lambe

Esta semana, convidámos o ambientalista António Lambe a partilhar connosco os seus pontos de vista sobre o problema constante da eliminação de resíduos, que está rapidamente a chegar ao seu ponto de ruptura. Os aterros sanitários estão a atingir os seus limites de capacidade bem mais depressa do que inicialmente estimado, e os nossos índices de reciclagem são vergonhosamente pobres. Se estiver interessado em fazer frente a este problema, e em dar o seu contributo para o futuro, continue a ler....

O conceito desperdício não existe na natureza – tudo é reutilizado e reciclado. Praticamente tudo é regenerado. Na nossa sociedade, contudo, é um problema maior e crescente.

De acordo com um estudo do Eurostat (2008), nas famílias europeias produz-se anualmente mais de meia tonelada de lixos domésticos por pessoa. As consequências deste desregramento são sérias. Aparte dos recursos destruídos – 40 % que são enterrados em aterros sanitários e 20% que são incinerados - existem muitos outros efeitos nocivos.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estima que a cada ano mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo morram de problemas associados a sistemas inadequados de depositação de resíduos.

O efeito nas plantas e animais é, obviamente, muito pior. A superfície e as águas subterrâneas são contaminadas por efluentes. O ar é poluído por óxido de nitrogénio (NOx), dióxido de enxofre (SO2), dioxinas, poeiras finas que penetram nos pulmões, e emissões de substâncias que esgotam a camada de ozono.

E depois ainda existe o odor. Que pode ser tão mau que os residentes perto do aterro sanitário do Barlavento, em Portimão, cujos imóveis vão perdendo valor de mercado ao mesmo tempo que uma montanha de lixo cresce no horizonte, se vêem obrigados a manter as suas janelas fechadas, mesmo nas noites de maior calor.

A perda da biodiversidade e a proliferação de espécies invasivas – nas dezenas de milhar de toneladas de lixo que actualmente flutuam nas correntes do oceano – são outras das consequências.

Existe ainda uma outra preocupação mais recente: as alterações climáticas. Enquanto o papel, os alimentos e outros resíduos biodegradáveis se desfazem nos aterros, o metano, um conhecido gás de efeito-estufa com um potencial de retenção de calor de quase setenta vezes mais que o dióxido de carbono – é libertado.

Quando os plásticos e têxteis são queimados nas incineradoras, o óxido nítrico - quase 300 vezes mais potente que o CO2 – é emitido.

Reconhecendo a maioria destas ameaças, em 1975, a União Europeia declarou ilegais as lixeiras comuns (muito mais poluentes), para as quais estava destinado a maioria dos resíduos sólidos – principalmente nos Estados membros mais pobres no sul.

Com a ajuda dos fundos de Bruxelas, nos anos de 1990, Portugal começou a construir mais de 40 aterros sanitários, dois dos quais processam agora as 355 mil toneladas de resíduos anuais de todo o Algarve – o mais alto valor regional a nível nacional.

Oficialmente, é atribuida grande importância à campanha dos três R's -Reduzir, Reutilizar, Reciclar -na gestão de desperdícios– mas o lixo não parece ser uma prioridade.

As acções de sensibilização e consciencialização da população são modestas, ao mesmo tempo que os pedidos da comunidade para a colocação de Ecopontos, nos sítios onde o lixo pode ser separado, são muitas vezes ignorados.

Uma comunidade do concelho de Silves, por exemplo, há dois anos que aguarda por um Ecoponto.

De igual modo, não tem havido nenhum encorajamento governamental para que as empresas reduzam os resíduos de embalagens – e os supermercados continuam a entregar indiscriminadamente sacos de plástico gratuitos aos clientes.

As autoridades competentes poderiam, também, criar incentivos fiscais para promoverem os conteúdos recicláveis nos novos produtos.

Mas o problema não é apenas por parte do governo. Nós, cidadãos, também lhe temos que dar resposta. E, recentemente este ano, os cidadãos souberam aderir em massa à iniciativa nacional «Limpar Portugal».

Milhares de voluntários recolheram toneladas de lixo e entulho espalhado por todo o país. A resposta foi sem precedentes, histórica e promissora no país com os mais baixos índices de participação cívica do continente. Porém, desde então este grupo tem-se revelado inactivo, em vez de tomar partido da opinião pública e incentivar a realização de mais inciativas do género.

Como resultados destas lacunas oficiais e públicas, os índices de reciclagem e compostagem em Portugal são desapontantes. Enquanto que países como a Áustria, Alemanha e Holanda separam e reutilizam grande parte dos seus resíduos, 70%, 65% e 60%, respectivamente, Portugal enterra e queima nada mais que 17% do seu lixo.

O esforços nesse sentido são tão escassos que a maioria dos aterros sanitários estão a atingir as suas capacidades a um ritmo mais acelerado do que era esperado.

Muitos dos leitores poderão já estar a ajudar a desacelerar este processo ao separarem o seu lixo doméstico por três ecopontos (vidro, papel e embalagens plásticas e metálicas), mais do que depositando tudo no mesmo contentor como lixo não classificado. Mas existem dúvidas que persistem quanto ao que deve ser depositado onde, e um problema maior enfrentado pelas autarquias é a incorrecta separação do lixo: embalagens de sumo no contentor do papel, por exemplo. Seguem-se algumas indicações quanto a alguns materiais menos óbvios que suscitam dúvidas:

Embalagens:

As embalagens de cartão“Tetra” ou “Brik” (embora principalmente de papel, contêm plástico e alumínio).

Pacotes de biscoitos com revestimento em plástico, a menos que primeiro se separe o papel das camadas de plástico.

Garrafas de plástico do óleo alimentar, bem secas e pacotes de manteiga razoavelmente limpos; sacos de plástico com etiquetas em papel (tais como os produtos de padaria); sacos de plástico trançados (para batatas, cebola, etc); outros sacos de plástico, de preferência reutilizados várias vezes; sacos de fertilizantes para jardinagem.

Papel:

Caixas de detergente em cartão podem conter asas de plástico;

Vidro:

A tampas de metal e plástico das garrafas de vidro e jarras devem ser retiradas, embora seja preferível depositar no contentor das embalagens.

Lixo indiferenciado:

Papel celofane; papel plástico; papel de alumínio (infelizmente. apenas a Hungria recicla menos alumínio que Portugal). Sacos de cimento vazios e outro material de construção, e recipientes de plástico que continham óleos do motor e aditivos não podem ser reciclados (ainda) por causa dos resíduos que contêm.

Monstros:

Este é o termo utilizado para os diversos, muitas vezes objectos de grandes dimensões tais como electrodomésticos. Nesta categoria também se incluem os produtos de jardinagem e agricultura, tais como tubos de plástico da irrigação, revestimento de estufas, bem como latas de tinta, a menos que estejam limpas. Cada MUNICÍPIO tem diferentes formas de tratar estes resíduos, pelo que devem ser consultados sobre a forma mais adequada de os eliminar.

Recomendações gerais

- Por favor, tenha em atenção a ordem dos três R – Reciclar vem por último. Reduzir é o melhor.

- Pratique ao máximo a compostagem em casa. Os desperdícios de alimentos são a principal fonte de odores e de líquidos potencialmente poluentes nos aterros.

- Dobre as embalagens de cartão e as latas antes as depositar no ecoponto para poupar espaço.

- Existem poucos ecopontos para as baterias standard, mas algumas lojas de maior dimensão disponibilizam contentores para o efeito.

- Nunca deite óleos do motor nos canos. Todas as oficinas de mecânica dispõem de recipientes próprios para o efeito.

O planeta de cuja saúde nós dependemos, está sob ameaça. Algumas dessas ameaças, tais como os danos causados na camada de ozono, são de difícil compreensão. Outras, tais como as alterações climáticas parecem remotas e poucos de nós as controlamos, e muitos menos querem aceitar que é urgente alterar os nossos comportamentos se no futuro quisermos deixar um planeta habitável à nossas crianças.

Por outro lado, gerir responsavelmente o lixo que produzimos torna o problema bem mais fácil de resolver. Prontos para este modesto desafio?

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