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Maria Gabriela de Sousa Silva
O professor que o adolescente deseja

“Normalmente, diz-se que o adolescente não quer saber de nada, é preguiçoso, é malcriado, não trabalha, só quer passar de ano sem esforço, quer é telemóveis e roupa de marca. E quer um professor que não exija nada deles”.
O estereótipo está enraizado. E na verdade, só se fala em adolescentes quando são notícia em desacatos, ou protagonizam um acontecimento extraordinário do género.
Contudo, Maria Gabriela de Sousa Silva, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE-IUL, tem uma outra visão da juventude dos dias de hoje.
Uma visão que resolveu partilhar numa colecção que soma já quatro livros. Nascem da investigação académica e da sua própria experiência pessoal.
“Deixei de ter intervalos de aulas há muitos anos, porque fico quase sempre a falar com os alunos, e nessas conversas, acabaram por surgir muitos temas importantes da vida e das preocupações dos adolescentes”, conta.
O mais recente “é um livro que tem a ver com o conceito de professor que os adolescentes querem ter na escola” e que quebra o cliché do ser preguiçoso e sem vontade de aprender.
“Na maioria dos casos, encontrei muitos adolescentes que querem ver um professor com qualidade. Um professor que sabe, que é competente. Para além disso, exigem que o professor seja alguém que os entende. Que sabe escutá-los. Que não os desvaloriza. No fundo, não querem um professor que está ali apenas para cumprir um horário”, diz.
A autora chegou a este perfil através de várias entrevistas a alunos. De forma sucinta, o mestre ideal “é um profissional, é competente, é um educador. E é uma pessoa na qual eles se revêem. É uma referência para a vida.”
Mas não seria este, apesar de um pouco idílico, o perfil normal que se espera de um professor?
A resposta está longe de ser simples.
Em muitas das licenciaturas destinadas a formar professores para o ensino, as disciplinas pedagógicas e didácticas ocupavam normalmente um lugar de pouca importância no conjunto de cadeiras do curso. Algo que ainda hoje é frequente e que “é preciso rever com urgência”, confirma Maria Gabriela de Sousa Silva. Por outro lado, é preciso referir que houve uma fase na história recente da sociedade portuguesa, em que “entravam para professores muitas pessoas que não arranjavam emprego noutro lado”, diz.
Durante muito tempo, “o ensino recebia toda e qualquer pessoa, muitas vezes com uma formação muito desajustada da que seria necessária”.
E portanto, pessoas sem qualquer aptidão pedagógica para ensinar, iam parar às salas de aula das escolas. “Ainda hoje encontramos casos assim”, confirma.
Os clássicos – ler ou não ler?
“Uma das minhas grandes lutas continua a ser a escolha de leitura apropriada para os vários níveis de ensino”, diz a professora farense da Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa.
Através de cerca de mil inquéritos feitos a alunos em diferentes anos lectivos das Escolas Secundárias, Maria Gabriela Silva escreveu uma tese de doutoramento única em Portugal.
Hoje, está publicada em livro. Tem por título «Ler e Amar na Adolescência» e tem prefácio de Maria Lúcia Lepecki e Daniel Sampaio. Mostra que os livros de leitura obrigatória influenciam o (instável por natureza) equilíbrio emocional dos jovens.
Na verdade, “acontece que grande parte das obras acaba por mostrar aspectos da vida da forma mais negativa possível. O amor acaba por ser qualquer coisa de terrível que acontece na vida das pessoas – porque, ou são amores contrariados, proibitivos, ou levam à morte, ao suicídio e à separação de famílias. Por isso, aquilo que os nossos adolescentes levam para a vida real e autêntica é uma carga muito negativa do sentimento mais maravilhoso que existe na vida”, considera.
Por exemplo, o tema de fundo das 720 páginas do clássico «Os Maias», que o escritor português Eça de Queiroz publicou em 1888 (para além da crítica social ao século XIX) é o amor incestuoso entre um casal de irmãos.
Este é um dos livros que os alunos do 11º ano têm de ler, obrigatoriamente, numa idade em que se desenvolvem os afectos e se “começam a viver as primeiras paixões”.
“O que sugiro é que haja um grupo de análise e reflexão que estude esta problemática a nível do Ministério da Educação, com um leque de pessoas que conheça bem a adolescência. Só assim se poderá escolher, em conformidade, as obras adequadas àquela faixa etária”, recomenda. Professores, na companhia de psicólogos, pediatras, sociólogos, poderiam formar estes grupos de reflexão.
Por outro lado, a investigadora planeia descobrir também, que coisas andam os mais pequenos a ler desde a escola primária.
Será que alguém sabe?
Convulsões sociais
Outra discussão que se tem criado à volta da figura do professor é a questão, se este deve ser também um educador, no sentido mais lato, de ensinar (boas) maneiras e civismo. Maria Gabriela de Sousa Silva crê que sim.
“Eu defendo que um professor não é apenas professor da disciplina, mas é também um educador. A escola não pode, nem deve, divorciar-se desse papel! Hoje temos alunos a viver mais tempo na escola que em casa. Eles entram de manhã cedo e quando acabam as aulas, preferem ficar na escola com os amigos, do que ir para casa onde não está ninguém”.
“O que mais me preocupa é que hoje, eles já vão revelando qualquer coisa daquilo que desejam ser mais tarde, e não vêem como poderão construir esse futuro.”
“Dentro das mochilas muitas vezes, não vão só livros. Vão sonhos desfeitos e dramas familiares.”
“Eles querem acreditar, mas sentem desde logo as dificuldades nas suas casas – pais desempregados, com problemas para pagarem os empréstimos da habitação, do carro, etc. Começam a prever a vida através das dos próprios pais”, diz.
Em relação à Educação Sexual, considera que já não se justificam polémicas.
“Respeito as ideias das outras pessoas, mas acho que a sexualidade é uma coisa que faz parte integrante do ser humano. E por isso deve ser entendida com a dignidade que merece. Muitos professores ainda estarão inibidos e pouco preparados para falar nisso. Mas as várias disciplinas que temos – o Português, a História, a Física e a Química, a Matemática - poderão ajudar em muito a introduzir o tema através de exemplos e rubricas concretas. E claro, adequá-la aos nossos dias, com uma linguagem correcta e com respeito pelo assunto e pelos alunos”.
Finalmente, a professora de 58 anos considera que para se minimizarem os problemas de indisciplina nas escolas, “os professores têm de voltar a ser valorizados” pela sociedade em geral. “Hoje, o professor é visto como indivíduo menor, que está na escola, tem que cumprir as ordens superiores, o Programa, e pouco mais”, conclui.








