| Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário. | Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um. |
Eco-aldeia Tamera, em Odemira mostra...
Como travar o deserto no Sul?

“Não, uma paisagem aquática não é o mesmo que uma barragem. É precisamente o contrário. A água não é desviada dos terrenos e armazenada num único ponto, mas mantida nas áreas, de forma descentralizada, de modo a que a massa de terra envolvente possa voltar a ficar saturada.”
Sepp Holzer já respondeu a essa pergunta muitas vezes. Este agricultor de montanha austríaco ganhou a alcunha de rebelde agrário devido à determinação com que se mantém fiel aos seus métodos invulgares. Depois da sua própria quinta nos Alpes, foi bem sucedido em recuperar a natureza em grandes áreas, na Escócia, na Rússia, em Espanha, na América do Sul e desde há alguns anos também em Portugal.
“A seca neste país não é uma catástrofe natural. É o resultado de uma exploração errada da terra. A desarborização, o excesso de pastagem e as monoculturas são responsáveis pela diminuição da vegetação e pelo início da desertificação”, explica.
Ao passar pelo Sul de Portugal, o austríaco só quer fechar os olhos. “O que vejo aqui, dói. A paisagem está despojada, o solo e as plantas estão expostos sem protecção nenhuma contra o sol ou o vento. Nenhum animal se sente bem assim, e mesmo se eu fosse agricultor aqui, sentir-me-ia completamente perdido. Devido ao excesso de pastagem, o solo está drenado e já só crescem plantas rasteiras, com pouca qualidade. Os agricultores desistem. A geração seguinte vai para as cidades e as mais belas quintas portuguesas entram em decadência. A terra cai nas mãos de especuladores para finalmente ser abandonada de vez. No entanto, Portugal podia ser um país rico, se as pessoas voltassem a aprender a ler no livro da natureza.”.
Sepp Holzer conhece uma alternativa. “Água é vida. Água é informação, água é o capital”, diz. Se a chuva só cai durante uma estação do ano, o agricultor tem de aprender a mantê-la na terra. Não através de barragens gigantes, antes pelo contrário, de forma descentralizada, através de muitas pequenas bacias de retenção de água, tal como a natureza nos mostra.
“Quem trabalha um terreno e deixa escoar a chuva de Inverno, age como alguém que está continuamente a guardar dinheiro num mealheiro, mas não repara que este está aberto em baixo”.
Com a sua diversidade paisagística, a disponibilidade de água e o clima temperado, Portugal é ideal para uma exploração em harmonia com a natureza. Na prática, esta ideia tem sido demonstrada pela equipa de Ecologia de Tamera, Odemira.
“Quando adquirimos o terreno há 15 anos, os resultados dos erros ecológicos saltavam à vista: encostas desflorestadas, sobreiros moribundos e monoculturas de eucaliptos. Durante o Inverno e a Primavera os campos transformavam-se em pântanos e durante o Verão tornavam-se áridos, com um grande risco de incêndios”, explica Silke Paulick, a coordenadora da equipa de Ecologia.
Hoje, uma cadeia de lagos e lagoas ajusta-se à morfologia ondulada. Nos terraços junto às margens florescem jovens árvores de fruto. Nos canteiros elevados crescem hortaliças, alfaces e milho em abundantes culturas mistas.
Aquando da sua primeira visita em Março de 2007, a análise de Sepp Holzer foi clara – “este terreno foi mal explorado durante gerações. Aqui já não resultam pequenas medidas, temos de tomar medidas drásticas.”
Então, o plano foi criar um projecto modelo para a recuperação da paisagem natural. Que permitisse o cultivo de alimentos saudáveis em grande escala, e também a reflorestação natural. Foram criadas várias bacias de retenção de água. Lagos e lagoas, onde até os animais selvagens voltassem a encontrar comida e protecção, e onde a massa terrestre pudesse gradualmente voltar a absorver água.
Uma das agricultoras de Tamera, Silke Klüver, diz – “Agora colhemos mais fruta e legumes junto às margens do que antes em toda a horta. A rega proveniente das bacias de água nas proximidades é muito simples. A pausa nas culturas de Verão por falta de abastecimento deixa de ser necessária. Os numerosos visitantes ficam com a impressão que os lagos sempre ali estiveram”.
“Se parece natural, é porque está bem feito”, afirma Sepp Holzer. Lagos angulosos ou perfeitamente redondos são um erro. “A água é um ser vivo. Tem de ser capaz de mover-se para se manter viva e saudável.”
A forma dos lagos, as margens baixas com vegetação, as diferentes profundidades e as linhas sinuosas favorecem o movimento da água e assim a sua capacidade de auto-limpeza.
A poeira e o húmus são levados pelo vento e pela ondulação até às zonas pouco profundas, onde são absorvidos pelas plantas aquáticas como fertilizante natural. Para além disso, aí vivem patos e diversos peixes e, os nenúfares que crescem à beira da água, juntamente com outras plantas, são preciosos pelo seu valor comercial.
“Quem trabalhar com a natureza em vez de estar contra ela, encontrará sempre algo que possa comercializar de forma rentável – sejam eles produtos agrícolas ou até o valor do repouso numa paisagem recuperada”, diz Sepp Holzer
Mas o mais importante da paisagem aquática é a recuperação da Natureza. Com o seu microclima diversificado, estas paisagens também oferecem um novo habitat para animais selvagens e para as plantas.
E passados quase três anos, o solo está de tal modo saturado com água, que a equipa de Permacultura pode começar com a reflorestação, evidentemente, de culturas mistas.
Vizinhos, agricultores, engenheiros hídricos e defensores do ambiente seguem o desenvolvimento com atenção. Porque, se o projecto continuar a apresentar efeitos tão positivos, poderá ser um modelo para todo o Sul de Portugal.
“Imagine que 1000 proprietários resolvem criar uma paisagem aquática destas no Alentejo. Além da recuperação do ecossistema, ia haver muitas pessoas que poderiam encontrar bases económicas fundamentais. Encontramos aqui uma receita contra a desertificação”, diz Bernd Müller, colaborador responsável do projecto de Permacultura.
Tamera é um centro internacional de pesquisa para a paz e um local de formação com cerca de 160 colaboradores e estudantes. Possibilita um «Dia Aberto» quatro vezes por ano. Em 2010 acontecem aos Sábados - 5 de Junho, 4 de Setembro, e 27 de Novembro.







