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Creoula, português como o mar

Às 22h00 de 17 de Maio, soltam-se as amarras. Um rebocador auxilia o navio branco a sair da Base Naval de Lisboa, por entre o cinzento militar das corvetas e fragatas de guerra ancoradas no Alfeite. Em ambos os lados do navio, os marinheiros tiram azimutes para calcular a posição do navio no Tejo. Apontam a escala da girobússola ao Cristo Rei, na margem sul. À Rua Augusta, em Lisboa, entre outras referências visuais que surgem na costa.
As manobras do «Creoula» são calculadas com cartas de navegar, réguas, esquadros, compassos. Aparelhos da era digital, como o GPS são remetidos para segundo plano.
“025 a bombordo! Dez graus a bombordo!”, ordena o comandante. “0-2-5, no caminho!”, confirma o homem do leme. Cada ordem recebida é repetida em voz alta, num constante corrigir de rumos e direcções, sem margem para erros.
Uma azáfama que só acalma no momento de cruzar a ponte 25 de Abril - imponente acima dos mastros. Pouco depois, surge a Torre de Belém, tal com a viam os homens a bordo das caravelas, no tempo dos descobrimentos. Tal como a vêm hoje, muitos dos que descobrem o mar a bordo do «Creoula».
Cada vez mais distante, a capital portuguesa desaparece num rasto de luzes ténues. Para trás fica a luz verde do farol do Bugio. São 0h03. Avançamos a uma velocidade de 9 nós pela escuridão. Apesar da tranquilidade das águas, o comandante Nuno Cornélio, 43 anos, manda içar uma das velas na popa para dar estabilidade ao navio.
Aqui e ali, o mar revela marcas da presença humana. Quase a roçar o casco, flutuam bóias de esferovite. São as artes onde os pescadores virão buscar o sustento que a maré dá.
Uma vida difícil que o «Creoula» conheceu na sua faceta mais dura. Concebido para enfrentar os mares do Norte, o último bacalhoeiro à vela português foi construído em 1937, em Lisboa. Ficou pronto no tempo recorde de 62 dias, com base num projecto do arquitecto naval inglês Alexander Slatter.
Em 1973 era o único veleiro a ir aos bancos da Terra Nova, contrastando com os modernos arrastões e sofisticados pesqueiros da altura. Ao longo da sua carreira, fez 37 campanhas de pesca (o equivalente a mais de 10 viagens à volta do mundo) em rotas que o levaram até à costa oeste da Gronelândia e a norte do círculo polar Ártico.
“Iam em Abril e regressavam em Outubro. Nos melhores dias, aqueles homens conseguiam apanhar 6 toneladas de bacalhau. O peixe era trazido para bordo, escalado e salgado à mão. Os fígados eram armazenados à parte para se extrair o óleo”, conta o comandante Nuno Maria d’Orey Roquette Cornélio da Silva, que não esconde a sua paixão pela história do navio e pelos homens que a viveram.
A pesca do bacalhau era feita em 52 pequenas embarcações individuais chamadas “dóris”. Navegavam à vela ou a remos e só regressavam quando estavam atafulhados de peixe, quase a afundar. Muitos homens perderam-se quando o nevoeiro surgia repentino, ou o tempo piorava sem aviso. Há o registo de uma onda que, em 1938, varreu o convés e levou o imediato e quatro pescadores, 23 dóris e até a agulha de marear.
Com tantos perigos, é fácil imaginar o espanto do último comandante do «Creoula» nos seus tempos de pesca, o capitão Marques da Silva, quando lhe disseram que um dos seus tripulantes já tinha ido e regressado 40 vezes! Esses tempos já lá vão. Desde que foi adquirido em 1979, o navio é operado pela Marinha Portuguesa. A sua missão é proporcionar aos jovens e à sociedade civil em geral, o contacto com o mar e a experiência de uma vida a bordo. Anualmente, entre Maio e finais de Setembro, leva a bordo até 51 jovens e 1 monitor responsável de instituições bem diversas. Viajam instalados em beliches triplos nos antigos porões do bacalhau. Designados por “instruendos”, partilham todas as tarefas da vida a bordo juntamente com a guarnição de 37 homens e 2 estagiários.
Trabalho nunca falta. É preciso fazer duas baldeações diárias do convés (a água do mar faz inchar a madeira e reveste-a com cristais de sal), içar as velas, fazer vigias, e claro, as inevitáveis limpezas. É a chamada “faina geral”.
Este ano, por exemplo, o «Creoula» vai receber estudantes da Universidade Itinerante do Mar (modelo de cooperação criado pelas universidades do Porto e de Oviedo, para formar estudantes nos assuntos do mar) ou a Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo do Chapitô, de Lisboa. Mesmo que não enjoem, os instruendos terão que se habituar ao ruído incessante dos geradores de electricidade (e do motor Diesel quando não há vento) que dificulta o sono.
Além disso, a alvorada é sempre bem cedo. No primeiro contacto com a luz do dia, desde a nossa partida a 17 de Maio, navegávamos a 20 milhas da costa.
Às 07h20, na ponte, o radar revela 56 navios nas proximidades. É a economia do mundo. Rumo a Sul ou a Norte, passam com a carga ao largo das águas portuguesas.
Na cozinha com vista para o mar, às 8h00, os cozinheiros Neves (47 anos, 28 dos quais na Marinha), Ribeiro (29 anos) e Mendes (29 anos) preparam o “Arroz à Valenciana” para o almoço. No convés, já descongela o peixe para o jantar, que será servido já em frente à Praia da Rocha.
“Isto é como um restaurante, a diferença é não termos queixas dos clientes”, brincam. Para a viagem para Portimão (que no regresso levará o «Creoula» até Sesimbra), têm um “poder de resposta” suficiente para alimentar 40 pessoas durante um mês. Em dias especiais, há até sobremesas como o arroz-doce ou mousse de chocolate. Muitos marinheiros têm tantas histórias como o «Creoula». Há um cabo-electricista que viu o petroleiro «Prestige» partir-se ao meio.
O engenheiro de máquinas Couteiro recorda os petroleiros com pavilhão da Libéria e de outras nações convenientes aos armadores, e onde só havia 2 garrafas de whiskey para o navio inteiro quando algum oficial fazia anos.
O comandante Cornélio lembra-se de um faroleiro eremita, esquecido há mais de 20 anos numa ilha ao largo de Moçambique, aquando de uma viagem épica ao Japão a bordo do navio-escola Sagres. Apesar de experientes, muitos estream-se num veleiro. Apenas o tenente engenheiro Ricardo Martins, apreciador de fado segundo fontes da guarnição, já tinha navegado no «Creoula». Lembra-se do susto das ondas de oito metros que o surpreenderam na baía da Biscaya, antes de chegarem a Ruão (França), rumo a uma concentração de veleiros como o italiano «Amerigo Vespucci» e o mexicano «Cuauhtemoc».
Antes de atracar em Portimão, na manhã de 19 de Maio, o «Creoula» teve alguns percalços dignos de uma verdadeira aventura. Uma inundação de água suja, um rádio temperamental nas comunicações, o aniversário de um cabo de manobras – que segundo os “costumes e tradições” tem de pagar os cafés e digestivos aos camaradas - uma escolta de golfinhos ao largo de Sagres e finalmente, uma atracagem experimental no porto de Portimão, “manobra que vem descrita nos livros”, segundo o comandante Cornélio.
“Isto é uma experiência de tal forma envolvente, que as pessoas ficam tristes quando se vão embora”, disse-nos o tenente Martins na hora da despedida. É verdade.
Pois que seja sempre assim!







