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Dia Internacional do Enfermeiro
O Instrumentista

Fica à direita do cirurgião. Conhece todos os instrumentos cirúrgicos e sabe exactamente quais são precisos na hora certa. No final da operação, pinças, tesouras, taças, está tudo tão organizado, como no início do procedimento.
A julgar pelo nome, poderia pensar-se que um enfermeiro instrumentista é um mero executante de ordens. “Não é exactamente assim. Instrumentar é participar activamente na cirurgia, com a equipa cirúrgica. Muitas vezes, o cirurgião não diz absolutamente nada, porque antes que diga uma palavra, já o instrumentista já lhe está a colocar na mão o que precisa”, explica José Mimoso.
Simples? “Um cirurgião conhece os instrumentos da sua especialidade. O enfermeiro instrumentista, porque trabalha em todas as especialidades, tem que conhecer os instrumentos de todas elas. E também os passos e procedimentos de cada uma”, explica.
Os instrumentos são colocados de uma forma standard que tem a ver com a sequência, e o ritmo própria da cirurgia a executar. Contudo, há um cunho pessoal na forma como cada instrumentista prepara a mesa, de acordo com a sua preferência pessoal. “Posso ir buscar um ferro sem olhar. É por isso que cada um arruma sempre da mesma maneira”, diz.
No mínimo, uma operação básica, como uma apendicite ou uma hérnia, precisa de 30 instrumentos.
Para uma grande cirurgia, o sortido pode conter mais de uma centena. Mas o grau de complexidade é sempre a aumentar.
Alguns instrumentos vêm desmontados da esterilização e precisam de ser encaixados na hora, com precisão cirúrgica. “Nem todos são da mesma marca, nem todos se montam da mesma maneira.”
“As cirurgias de ortopedia são as que envolvem a tecnologia e o instrumental mais complicado e têm procedimentos mais difíceis. Nas próteses ao joelho ou à anca, há peças que têm de ser montadas e entregues em posições muito específicas”, acrescenta.
“Muitas vezes aprendemos à nossa própria custa, quando as empresas que fornecem as próteses trazem os técnicos e os instrumentos e nos explicam na hora”, revela. Até porque “neste momento não existe, e não se prevê que venha a existir, uma especialidade em bloco operatório. Ao contrário de outros de países não existe enfermagem perioperatória, como especialidade, em Portugal”.
No dia anterior à nossa entrevista, Mimoso instrumentou uma Hemicolectomia direita Laparoscópica (isto é, retirar parte do intestino grosso por laparoscopia, uma técnica em que a visualização é feita por via de uma câmara de vídeo que é colocada, assim como todos os instrumentos necessários, através de pequenos orifícios na pele), numa intervenção de cirurgia geral. Foi a segunda vez que tal se realizou no Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão.
Mas às vezes, a alta tecnologia não colabora. Certos instrumentos “têm de se ligar a aparelhos. E quando os testamos, falham.” Num ambiente de elevada concentração, sem margem para erros, e onde se corre muitas vezes contra o tempo, “tudo isso gera stress e acaba por ser complicado”.
“Aquilo que nós fazemos em termos de cirurgia é muito estudado em exames prévios. Mas uma coisa é ver a duas dimensões, outra coisa é ver a realidade a três dimensões. Com frequência, há vasos sanguíneos onde menos se espera.” Acontecem hemorragias inesperadas e nem sempre os instrumentos previstos servem para todas as situações. O enfermeiro instrumentista está na linha da frente para arranjar soluções.
“Não vou dizer que inventamos. Mas há muitas situações em que se improvisa. Sobretudo quando é preciso resolver um problema imediato”, diz.
“Trabalhei muito tempo com um cirurgião sul-africano que dizia que gostava muito dos portugueses pela sua capacidade de improvisação”, brinca.
Perante as adversidades e o inesperado, Mimoso é conhecido pela sua calma e nervos de aço. “Apesar de eu me sentir muitas vezes ansioso, não deixo transparecer. Ninguém ganha nada com isso”, considera.
Talvez por isso, aprecia mais o trabalho nos turnos de urgência. Integrado em “equipas que estão preparadas para receber qualquer urgência de qualquer especialidade da instituição”. “Para mim, é um trabalho aliciante. Nas cirurgias programadas, podemos saber na véspera o que se vai passar no dia seguinte, e isso acaba por se tornar monótono. Aqui é um desafio maior.”
De toda a dor e sofrimento humano que já viu, há um episódio que o marcou. “Foi uma senhora com um problema pulmonar e de coagulação que entrou na maternidade aparentemente bem. De repente, começou a deitar sangue pela boca e veio de rompante para o bloco operatório. Conseguimos, por cesariana, tirar e reanimar a criança, que também já vinha em paragem. Mas a senhora acabou por falecer. Foi uma situação horrível. Sabemos que em termos de reanimação, podemos levar 30 minutos e se não resultar, não vale a pena continuar. O que é certo é que tentámos sempre, continuamos a tentar”, recorda com tristeza.
Sente que tem a vida dos doentes nas mãos? “Sinto. Tenho sempre a noção de que estou a contribuir para salvar uma vida. Ao longo de 30 anos de carreira, “nunca vi ninguém, deliberadamente, agir com negligência. Acho que todas as pessoas dão o seu melhor. As situações é que às vezes são de tal forma complicadas, que os procedimentos que se fazem não resultam bem”.
“Há uma frase que uma vez ouvi de um cirurgião oftalmologista e que acabo sempre por dizer no fim todas as cirurgias – Deus lhe ponha a virtude, que eu já fiz o que pude”, brinca.
Refira-se que em 1974, Mimoso não concordava com o serviço cívico que na altura tinha de se prestar para se entrar na Universidade. Não foi para medicina e ainda bem. “Cheguei à conclusão que a enfermagem era aquilo que mais me preenchia porque lidava mais de perto com os doentes. Nós estamos 24 horas próximos de todas as necessidades dos doentes. Fui para enfermagem por causa disso.”, conclui.








