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Usos e saberes na medicina popular
Plantas que curam

O mestre
Nenhuma exposição sobre plantas medicinais seria mesmo legítima sem a colaboração de quem as conhece como a palma da mão. É assim que surge em Santa Rita, José António Salgueiro, o mestre.
Tem 91 anos no rosto e a lucidez da juventude no discurso. Fala com eloquência, em frases assertivas. “Beber chá de alecrim prolonga a vida das pessoas. É bom para o fígado, fortalece os intestinos e baixa o colesterol. Também se aconselha a quem sofre de má memória. A erva-prata em chá é óptima para a bexiga e para os rins. O nabo, a cenoura e a cebola são sagrados para as vias respiratórias”, diz, encontrando virtudes em tudo à sua volta.
O ervário de Montemor-o-Novo dedicou a vida a conhecer as plantas medicinais de Portugal. É a prova viva de um velho saber empírico, que corre o risco de desaparecer. Não tem um aprendiz porque “os jovens não se interessam por isto”, lamenta.
A paixão deste homem começa num Portugal pobre e rural. Nasceu em 1919. Desde miúdo andava pelos campos fora. Acompanhava os pais nos trabalhos agrícolas. Foi a observar a mãe a escolher as ervas que utilizava para diversos fins, que se iniciou na sabedoria da natureza.
“Antigamente, quase não eram necessários médicos. Haviam muitas coisas naturais, como chás, emplastros, e outras que já se perderam”, conta.
Sapateiro de profissão, percorria as feiras e mercados do Alentejo, à procura de plantas que desconhecesse. Mas foi só depois dos 50 anos que conseguiu dedicar-se exclusivamente às artes de ervanário.
Desde então, tem registado cuidadosamente a localização, os modos de recolha, as formas de conservação das mais variadas plantas medicinais.
Com um livro publicado e outro no prelo, recebe gente vinda de todo o país na sua terra. Apesar do ouvido começar a falhar, ainda faz muitas consultas pelo telefone e despacha a sua medicina pelo correio, para onde falta fizer.
“O povo está a regressar ao antigamente, porque hoje praticamente tudo o que comemos está contaminado”, considera.
E porque até as subtilezas da vida moderna minam a saúde.
“Antigamente, os homens faziam muito trabalho braçal, suavam muito e limpavam as impurezas do corpo. Hoje, transpiram menos e as toxinas ficam no corpo”, considera.
Salgueiro não é um radical. E defende que os métodos naturais podem e devem ser utilizados em conjunto com os fármacos tradicionais. E acredita que mesmo no futuro, “as plantas vão continuar a ter um leque de aplicações que nunca se chegará a descobrir na totalidade.”
A última benzedeira
Contudo, na sua forma mais simples, a medicina popular nem sempre resolvia tudo. Quando o problema era complicado, as gentes do campo e do mar procuravam certas pessoas com mais conhecimentos – endireitas, curandeiros e benzedeiras.
Estas últimas, faziam curas recitando rezas e versos de fundo religioso. Uma sabedoria antiga, que ainda existe no interior do Algarve.
É por isso que a exposição dedica alguns painéis a Maria Tolentina Pereira, 76 anos, a benzedeira de Santo Estêvão.
Ao longo dos últimos 21 anos, “sabe lá as centenas de pessoas que eu tenho benzido”, conta-nos.
Tolentina é bem conhecida do povo por estar sempre disponível para ajudar seja quem for.
Aprendeu com as mulheres da família, a avó e a mãe. “Quando eu tinha os meus 6 anos, já me ensinavam estas coisas das benzeduras. Era pequena, mas muito interessada. Ia sempre ver como era, e depois fazia às bonecas de trapo”, recorda.
Sabe rezas para todas as doenças, algumas até metafísicas (como o mau-olhado). Muitas das suas benzeduras são acompanhadas pelo manusear de plantas, de gestos e objectos simples do quotidiano – tesouras, pentes, rolo de linha e agulhas – que se colocam cuidadosamente sobre a zona do corpo que dói.
Superstição? Alguém ainda acredita nestas coisas?
Muitos dos que batem diariamente à sua porta trazem crianças ao colo. Alguns vêm porque a medicina tradicional falhou.
A queixa mais frequente é o “afito” – uma inflamação intestinal que provoca inchaço e dores na barriga.
O caso mais complicado que lhe passou pelas mãos foi um menino de 9 anos de Portimão. Foi uma vizinha de Tolentina que conhecia os pais da criança doente e ao vê-los desesperados, sugeriu que visitassem a benzedeira.
“Os pais foram a tudo o que era médicos. Um de Coimbra disse-lhes para se irem mentalizando que o menino ia morrer. Ficou cá na minha casa e ao terceiro dia começou a melhorar”, recorda.
Nestes casos, a benzedura faz-se durante nove dias consecutivos, aplicando banha de porco no abdómen com folhas de plantas, aguardente de figo e muita fé.
Refira-se que Tolentina não cobra dinheiro. E recusa donativos, quando percebe que “as pessoas são pobres”. Por outro lado, repugna-lhe que cada vez gente seja movida pela “inveja” a procurem com intenções de fazerem “mal” a outros.
Perguntamos-lhe se sente que tem um dom?
“Sinto. Sinto que onde eu ponho as mãos, põe Deus a virtude”.
A Exposição
A mostra é o culminar de um projecto educativo que decorreu entre 2008 e 2010. Envolveu mais de 20 turmas do ensino básico, crianças do concelho de Vila Real de Santo António.
“Teve por objectivo pôr as crianças em contacto com a população e fazerem pesquisa sobre os usos antigos da flora algarvia”, explica a Catarina Oliveira, a responsável do CIIPC.
O conhecimento das plantas medicinais é “uma componente do nosso património cultural que é importante preservar. Cada vez é mais frágil porque depende da transmissão de geração em geração e sabemos que essa partilha de saberes tem sofrido alterações”, considera. Na verdade, as plantas “tinham uma importância maior numa altura em que as dificuldades no acesso à medicina faziam com que as populações tivessem que resolver os seus problemas. E sabemos que o abandono” dessa cultura, “nem sempre se traduziu em benefícios”, considera José Carlos Barros, o vice-presidente da autarquia de Vila Real de Santo António e vereador da cultura.
A exposição surge para o público em geral e também para as escolas. Tem diversas componentes, comoa recriação de uma antiga ervanária, onde os visitantes podem tomar contacto com as plantas. E onde se disponibiliza informação sobre a forma como têm sido utilizadas nos meios rurais. Outra “pretende recriar o ambiente doméstico onde normalmente actuava a mãe ou a avó na preparação de remédios para doenças mais simples”.
O próximo projecto vai ter por tema “O que comiam os nossos avós. A alimentação no sotavento algarvio”.
O CIIPC está aberto aos dias de semana, das 9h00 às 17h00 até Outubro de 2010.
É um núcleo científico activo, interpretativo do território de Cacela, que visa potenciar o usufruto dos patrimónios por públicos de origens diversas numa perspectiva informativa, museológica, de lazer e turismo. Localiza-se em Santa Rita, pequena aldeia a 4 quilómetro a Norte de Cacela Velha, no edifício da antiga escola primária.








