PortuguêsEnglishDeutsch
Edição 730
2012-05-24 > 2012-05-30
Tel.: 282 418 881
Recuperar SenhaRegistarClassificados GratuitosArtigosTema da SemanaReportagemEntrevistaActualidadeOpiniãoRestaurantesO AlgarveDirectórioAjuda
InícioArtigosTema da SemanaPlantas que curam

Usos e saberes na medicina popular

Plantas que curam

Crescem por entre vales e serras, à beira de riachos e nos campos. Têm propriedades diferentes, e com alguma experiência, é possível identificar muitas através do olhar, pelo cheiro e pelo tacto. Depois, é preciso saber como tirar o melhor proveito delas. Falamos das plantas medicinais que até há pouco tempo atrás, eram os principais remédios para curar os males do corpo. Ocupavam um lugar de destaque no quotidiano dos antigos. Então, porque não recuperar o poder dos tradicionais chás, infusões e emplastros e trazê-los de volta para a vida moderna? Este é um dos objectivos da exposição «Plantas que curam. Usos e saberes na medicina popular». Abriu ao público na sexta-feira, dia 16 de Abril no Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela (CIIPC), na Antiga Escola Primária de Santa Rita, onde ficará até Outubro. Sem contra-indicações, nem efeitos secundários.
Bruno Filipe Pires, Edição 623 (22 Abr 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires
“A natureza não foi ingrata com o Algarve”, considera o mestre Salgueiro, que elogia muitas das coisas que por cá (ainda) temos. “A alfarroba é um fruto alimentício, muito bom para quem tem diarreia.A amêndoa doce é muito boa para activar a memória. Quem a come todos os dias, dorme melhor. Combate o nervoso e o stress”, diz. “Toda a gente devia comer um figo seco por dia. Tem muita vitamina B1 e é bom para o colesterol”.

O mestre

Nenhuma exposição sobre plantas medicinais seria mesmo legítima sem a colaboração de quem as conhece como a palma da mão. É assim que surge em Santa Rita, José António Salgueiro, o mestre.

Tem 91 anos no rosto e a lucidez da juventude no discurso. Fala com eloquência, em frases assertivas. “Beber chá de alecrim prolonga a vida das pessoas. É bom para o fígado, fortalece os intestinos e baixa o colesterol. Também se aconselha a quem sofre de má memória. A erva-prata em chá é óptima para a bexiga e para os rins. O nabo, a cenoura e a cebola são sagrados para as vias respiratórias”, diz, encontrando virtudes em tudo à sua volta.

O ervário de Montemor-o-Novo dedicou a vida a conhecer as plantas medicinais de Portugal. É a prova viva de um velho saber empírico, que corre o risco de desaparecer. Não tem um aprendiz porque “os jovens não se interessam por isto”, lamenta.

A paixão deste homem começa num Portugal pobre e rural. Nasceu em 1919. Desde miúdo andava pelos campos fora. Acompanhava os pais nos trabalhos agrícolas. Foi a observar a mãe a escolher as ervas que utilizava para diversos fins, que se iniciou na sabedoria da natureza.

“Antigamente, quase não eram necessários médicos. Haviam muitas coisas naturais, como chás, emplastros, e outras que já se perderam”, conta.

Sapateiro de profissão, percorria as feiras e mercados do Alentejo, à procura de plantas que desconhecesse. Mas foi só depois dos 50 anos que conseguiu dedicar-se exclusivamente às artes de ervanário.

Desde então, tem registado cuidadosamente a localização, os modos de recolha, as formas de conservação das mais variadas plantas medicinais.

Com um livro publicado e outro no prelo, recebe gente vinda de todo o país na sua terra. Apesar do ouvido começar a falhar, ainda faz muitas consultas pelo telefone e despacha a sua medicina pelo correio, para onde falta fizer.

“O povo está a regressar ao antigamente, porque hoje praticamente tudo o que comemos está contaminado”, considera.

E porque até as subtilezas da vida moderna minam a saúde.

“Antigamente, os homens faziam muito trabalho braçal, suavam muito e limpavam as impurezas do corpo. Hoje, transpiram menos e as toxinas ficam no corpo”, considera.

Salgueiro não é um radical. E defende que os métodos naturais podem e devem ser utilizados em conjunto com os fármacos tradicionais. E acredita que mesmo no futuro, “as plantas vão continuar a ter um leque de aplicações que nunca se chegará a descobrir na totalidade.”

A última benzedeira

Contudo, na sua forma mais simples, a medicina popular nem sempre resolvia tudo. Quando o problema era complicado, as gentes do campo e do mar procuravam certas pessoas com mais conhecimentos – endireitas, curandeiros e benzedeiras.

Estas últimas, faziam curas recitando rezas e versos de fundo religioso. Uma sabedoria antiga, que ainda existe no interior do Algarve.

É por isso que a exposição dedica alguns painéis a Maria Tolentina Pereira, 76 anos, a benzedeira de Santo Estêvão.

Ao longo dos últimos 21 anos, “sabe lá as centenas de pessoas que eu tenho benzido”, conta-nos.

Tolentina é bem conhecida do povo por estar sempre disponível para ajudar seja quem for.

Aprendeu com as mulheres da família, a avó e a mãe. “Quando eu tinha os meus 6 anos, já me ensinavam estas coisas das benzeduras. Era pequena, mas muito interessada. Ia sempre ver como era, e depois fazia às bonecas de trapo”, recorda.

Sabe rezas para todas as doenças, algumas até metafísicas (como o mau-olhado). Muitas das suas benzeduras são acompanhadas pelo manusear de plantas, de gestos e objectos simples do quotidiano – tesouras, pentes, rolo de linha e agulhas – que se colocam cuidadosamente sobre a zona do corpo que dói.

Superstição? Alguém ainda acredita nestas coisas?

Muitos dos que batem diariamente à sua porta trazem crianças ao colo. Alguns vêm porque a medicina tradicional falhou.

A queixa mais frequente é o “afito” – uma inflamação intestinal que provoca inchaço e dores na barriga.

O caso mais complicado que lhe passou pelas mãos foi um menino de 9 anos de Portimão. Foi uma vizinha de Tolentina que conhecia os pais da criança doente e ao vê-los desesperados, sugeriu que visitassem a benzedeira.

“Os pais foram a tudo o que era médicos. Um de Coimbra disse-lhes para se irem mentalizando que o menino ia morrer. Ficou cá na minha casa e ao terceiro dia começou a melhorar”, recorda.

Nestes casos, a benzedura faz-se durante nove dias consecutivos, aplicando banha de porco no abdómen com folhas de plantas, aguardente de figo e muita fé.

Refira-se que Tolentina não cobra dinheiro. E recusa donativos, quando percebe que “as pessoas são pobres”. Por outro lado, repugna-lhe que cada vez gente seja movida pela “inveja” a procurem com intenções de fazerem “mal” a outros.

Perguntamos-lhe se sente que tem um dom?

“Sinto. Sinto que onde eu ponho as mãos, põe Deus a virtude”.

A Exposição

A mostra é o culminar de um projecto educativo que decorreu entre 2008 e 2010. Envolveu mais de 20 turmas do ensino básico, crianças do concelho de Vila Real de Santo António.

“Teve por objectivo pôr as crianças em contacto com a população e fazerem pesquisa sobre os usos antigos da flora algarvia”, explica a Catarina Oliveira, a responsável do CIIPC.

O conhecimento das plantas medicinais é “uma componente do nosso património cultural que é importante preservar. Cada vez é mais frágil porque depende da transmissão de geração em geração e sabemos que essa partilha de saberes tem sofrido alterações”, considera. Na verdade, as plantas “tinham uma importância maior numa altura em que as dificuldades no acesso à medicina faziam com que as populações tivessem que resolver os seus problemas. E sabemos que o abandono” dessa cultura, “nem sempre se traduziu em benefícios”, considera José Carlos Barros, o vice-presidente da autarquia de Vila Real de Santo António e vereador da cultura.

A exposição surge para o público em geral e também para as escolas. Tem diversas componentes, comoa recriação de uma antiga ervanária, onde os visitantes podem tomar contacto com as plantas. E onde se disponibiliza informação sobre a forma como têm sido utilizadas nos meios rurais. Outra “pretende recriar o ambiente doméstico onde normalmente actuava a mãe ou a avó na preparação de remédios para doenças mais simples”.

O próximo projecto vai ter por tema “O que comiam os nossos avós. A alimentação no sotavento algarvio”.

O CIIPC está aberto aos dias de semana, das 9h00 às 17h00 até Outubro de 2010.

É um núcleo científico activo, interpretativo do território de Cacela, que visa potenciar o usufruto dos patrimónios por públicos de origens diversas numa perspectiva informativa, museológica, de lazer e turismo. Localiza-se em Santa Rita, pequena aldeia a 4 quilómetro a Norte de Cacela Velha, no edifício da antiga escola primária.

Comentários
Faça login ou registe-se para poder fazer um comentário.Sem comentários. Seja o primeiro a fazer um.