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Laboratório do Sono do Hospital de Faro

Mergulhar no sono

É um problema invisível. Embora não hajam dados concretos em Portugal, estima-se que entre dois a quatro por cento da população nacional sofra de apneia do sono. Uma doença que provoca interrupções na respiração durante a noite. Algo parecido ao que os mergulhadores fazem quando sustêm o fôlego para nadar debaixo de água, mas de forma involuntária. Muitas vezes, a doença surge associada ao ressonar, e é por isso negligenciada. Contudo, a longo prazo, pode provocar complicações como a hipertensão, e associar-se a diabetes, cardiopatia isquémica, AVC e até originar acidentes de viação. Este problema já é diagnosticado em profundidade no Laboratório de Sono do Hospital de Faro, a funcionar desde Julho de 2008. No rescaldo do Dia Mundial do Sono, conversámos como José Romero, 42 anos, médico e coordenador da única estrutura do género no Algarve.
Bruno Filipe Pires & Ana Augusto Fernandes, Edição 622 (15 Abr 2010), Sem Comentários »
Bruno Filipe Pires

Já com os chinelos nos pés e o pijama vestido, Vitor Pereira prepara-se para uma noite diferente. Nas próximas oito horas, vai dormir cheio de sensores colocados da cabeça aos pés.

São tantos que Elisabete Patrício, a técnica cardiopneumografista, que acompanha e monitoriza estes doentes uma noite por semana, demora cerca de uma hora e meia para os colocar.

Só para registar a actividade cerebral são colocados 13 eléctrodos no couro cabeludo (22 eléctrodos no total do corpo).

Normalmente, os preparativos para um exame no laboratório de sono começam às 21h00. Primeiro, é preciso tranquilizar o doente e verificar a correcta localização dos sensores.

O laboratório não fica nas instalações do Hospital de Faro, como seria de esperar. Por falta de espaço disponível para o acolher, situa-se no edifício à entrada da cidade, onde funciona a unidade de pneumologia.

Passam poucos minutos das 23h00. O quarto é pequeno, simples e tranquilo (insonorizado). Elisabete Patrício liga os últimos cabos eléctricos a uma box electrónica, que enviará todos os dados para o computador, em tempo real. Depois, aconchega os lençóis ao paciente e sai.

“Está confortável, precisa de mais alguma coisa?”, interroga antes de fechar a pequena janela e apagar a luz.

Entretanto, já a informação corre no monitor do computador, revelando os movimentos cardio-respiratórios e a actividade cerebral do paciente. Uma câmara de infravermelhos, colocada no tecto, vigia o sono, sem incomodar. Em pouco tempo, o motorista natural de Coimbra adormece tranquilamente…

Um ano à espera

A maioria dos pacientes que vêm à consulta de Patologia Respiratória do Sono, têm excesso de sono, e não falta dele. Principalmente, durante o dia. Parece ironia, mas esta é a principal consequência de doenças como a apneia do sono.

Estes problemas já se estudam no Hospital de Faro desde 2002, em ambulatório. Isto é, os doentes levam para casa aparelhos portáteis que efectuam registos cardio-respiratórios simples, enquanto dormem em casa. Um procedimento conhecido por poligrafia.

Contudo, foi só em 2008 é que se conseguiu arranjar a infra-estutura e os equipamentos necessários para montar um laboratório de sono no Algarve.

Ou seja, até então, sempre que era necessário um exame polissonográfico (técnica que garante um estudo mais detalhado), muitos algarvios tinham que se deslocar a Lisboa.

Mas até que um doente se deite aqui, há um longo caminho a percorrer. Existe uma longa lista de espera para esta especialidade. De acordo com José Romero, os pacientes só conseguem uma consulta, cerca de um ano após a terem marcado, por exemplo, através do médico de família nos Centros de Saúde.

Ainda assim, apesar das limitações, o médico de Huelva faz um balanço positivo. Hoje, “as consultas são realizadas duas tardes por semana, e em cada uma delas vemos em média 10 a 15 pessoas”, contabiliza. Cerca de um milhar de doentes já encontrou aqui alívio.

Quando é detectada uma situação mais complexa é que se agenda uma noite no laboratório. São consideradas prioritárias pessoas com profissões eventualmente perigosas para si e para os outros (por exemplo, motoristas), ou aqueles que já têm a saúde em risco devido aos problemas cardio-vasculares e/ou neurológicos. Actualmente, o laboratório tem como meta um rendimento mínimo de dois estudos por semana.

Ressonar, sinal de alarme

“Parece que é uma coisa normal. O homem ressona e a mulher, depois da menopausa, também”, desmistifica o doutor José Romero.

Uma crença vulgar que faz com que muitas pessoas com apneia do sono, desconheçam o mal que sofrem.

“Muitas vezes, os cônjuges pensam que é normal por causa da idade, ou do cansaço. E são outros familiares que dão o alerta para que procurem ajuda médica”, explica.

“O que acontece é que esse ressonar é uma respiração intermitente. Tem paragens”, explica o clínico, que uma vez viu com admiração, um doente que a dormir parava de respirar durante 2 longos minutos – a cada ciclo de renovar o ar nos pulmões.

Tal privação de oxigénio traz consequências sérias e graves na saúde. “Hoje há muitos estudos que relacionam a diabetes e a hipertensão, entre outras, com a apneia do sono”, diz.

O problema afecta todas as idades. “Ainda não conhecemos bem a evolução natural da doença. O perfil normal da nossa consulta são homens e mulheres na faixa etária entre os 50 e 60 anos. Também temos algumas crianças, mas normalmente está associado a problemas de hipertrofia das amígdalas”

Outros problemas

Às vezes, enquanto investiga os transtornos respiratórios durante o sono, o médico encontra problemas mais complexos, de origem neurológica. É o caso da narcolépsia. Um nome complicado para uma doença crónica, que provoca uma sonolência muito forte e inesperada em qualquer situação do dia-a-dia – em casa, no trabalho, no meio do trânsito. Outro problema é o sindroma do movimento periódico de pernas.

“Acontece quando o doente faz uma série de movimentos repetitivos durante a noite”. A agitação impede-o de relaxar e de dormir tranquilamente. O resultado é que não consegue descansar e sofre de sonolência durante o dia.

“A insónia também é uma queixa frequente, mas não é o que tratamos principalmente. O ideal seria termos uma unidade multi-disciplinar com um psiquiatra, um psicólogo, um neurologista, um otorrino” Mas o médico diz que há vontade de trabalhar em conjunto com outras especialidades, para responder também a estas queixas.

Cura e elevada satisfação

No caso da apneia do sono, não são utilizados geralmente fármacos para a cura. Apenas uma mudança nos hábitos de vida. “Quando muito, receitamos um spray para evitar a obstrução nasal.

O que aconselhamos são medidas higiénico-dietéticas. Tentar emagrecer, exercício moderado (caminhar 1 hora por dia), não consumir álcool durante a tarde/noite e evitar, se possível, os sedantes e hipnóticos. Os fumadores devem tentar desistir do tabaco”, diz. Nos casos indicados, a solução passa por um pequeno ventilador portátil conhecido por CPAP (Continuous Positive Airway Pressure). “

Aparentemente, dormir com uma máscara e um tubo parece um tratamento muito agressivo. Mas a maioria dos doentes habituam-se rapidamente e ficam muito satisfeitos”. Alguns doentes seleccionados poderiam ser candidatos a algum tipo de cirurgia.

Para Romero, mais do que uma cura, os pacientes encontram a felicidade perdida. “Há uma melhoria espectacular. Os doentes ficam muito agradecidos. Descansam melhor, e por isso, recuperam a qualidade de vida.”

“Passamos quase um terço da nossa vida a dormir, ou a tentar dormir. Mas parece que a medicina tem esquecido um pouco o sono. Ainda há muito por descobrir. Recentemente fiz um levantamento das nossas consultas e chegámos à conclusão que até agora só diagnosticámos entre 8 a 10 por cento dos doentes estimados com apneia do sono na população que depende do Hospital de Faro. Significa que há muito trabalho para fazer”, conclui.

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